
O que não quer dizer que o ache um bom filme. Sim, é o pior dos três. O argumento tem falhas graves que o João Nunes já
apontou e bem (a falsa unidade dos opostos, o excesso de coincidências). Não há nenhuma sequência de acção que chegue aos calcanhares do combate épico no metro entre o Aranha e o Dr. Octopus, no segundo filme. O final é pateta, a razão para se ter inventado a expressão "anti-clímax". Mas mesmo assim eu gostei, influenciado talvez por tê-lo visto numa sessão da uma e tal da tarde (logo na semana de estreia, e só estou a escrever sobre ele agora porque a disponibilidade mental escasseia, e este é um tema sério, que tem de ser tratado com pazadas de disponibilidade mental - o que não é o caso, mas se esperasse mais tempo também já parecia mal; e este parêntesis está a durar para sempre, não está? ok, vamos então sair dele e voltar ao que interessa), onde 99% dos lugares eram ocupados por crianças com menos de 10 anos que gritaram vivas ao aranhiço do princípio ao fim. Excepto nas partes lamechas e desnecessárias, mas já lá vou.
Nesse grupo de crianças com menos de 10 anos estou a incluir-me, é isso que as adaptações cinematográficas de comics me fazem, atiram-me para a primeira década da vida. Nem todas - basta lembrar X-Men 3, essa desilusão, e não vale a pena sequer falar de Daredevil (depois da lástima que Mark Steven Johnson fez deste último e de Elektra, a vontade que tenho de ver Ghost Rider é zero). Mas nos filmes do Aranha sinto sempre que largo à porta do cinema, se não todo, pelo menos grande parte do meu sentido crítico, e deixo-me levar pelo turbilhão (expressão bem foleirita esta, hein?, "deixo-me levar pelo turbilhão") Pelo menos esse mérito este terceiro filme também teve. Porque é de um verdadeiro turbilhão (cá está outra vez) que Homem-Aranha 3 se trata, cheio de personagens, de plot-lines, de intenções (boas). Mas sem tempo para concretizá-las, despachando cenas e sequências que mereciam muito mais desenvolvimento. Uma das coisas que tenho ouvido dizer sobre este terceiro filme do cabeça-de-teia relaciona-se com a sua duração; que é grande demais. A sensação que me ficou foi exactamente a oposta - o filme precisava de muito mais tempo para respirar e dar a devida atenção a cada um dos plots que estabelece.

Outra coisa que também tem sido bastante apregoada é o facto de praticamente todas as personagens chorarem (salva-se pouco mais que o velho e confiável durão J. Jonah Jameson que, mesmo assim - atenção quem ainda não viu, aí vem micro-spoiler - é obrigado a controlar os seus ímpetos-de-murro-na-mesa por causa da tensão). Neste ponto, o da extrema lamechice de Homem-Aranha 3, estou de acordo. Como estou, repito, em relação a quase todos os defeitos apontados ao filme. Mas mesmo assim - há que repeti-lo também - gostei. O que não é explicado no filme foi preenchido de forma automática pelos anos e anos e anos de contacto que tenho com esta mitologia. Armado desse conhecimento, suportei a tal falsa unidade dos postos, que só é falsa no filme, porque existe nos comics (o problema, claro está, é que não se pode exigir nunca ao público que tenha visto os filmes anteriores, quanto mais ter conhecimento das suas raizes BDéfilas). Suportei a tristeza de figura de Tobey Maguire quando (olhó spoiler) ele dá uma de dançarino-engatatão, com uma estoicidade só possível porque eu sabia que, ali mesmo ao virar da esquina, ia ver heróis e vilões de infância (o Homem-Areia, a anos-luz do Venom, mesmo nesta variante lamechas), aos pulos, mais CGI menos CGI, ou a excelente actuação desse mito vivo que é Bruce Campbell, presença obrigatória em todos os filmes de Sam Raimi. E também - porque não foi só o Filipe de 10 anos que assistiu ao filme, o de 32 também lá estava sentado - por causa de Bryce Dallas Howard, muito à frente, mas muito à frente mesmo (e isto apesar de aparecer muito pouco no filme) da outrora formosa e irritante, mas hoje sensaborona e irritante, Kirsten Dunst.
Acho que tem a ver com expectativas. Não ia à espera de um grande filme. Por tudo o que tinha lido, por tudo o que já sabia das personagens e das histórias que iriam ser tratadas, por se tratar de um terceiro capítulo que Sam Raimi pretendia bigger than life, mas onde teve de ceder à vontade de Avi Arad de ter Venom no filme, estava à espera de excesso, rambóia e desnorte com cheiro a compromisso. E foi o que encontrei: excesso, rambóia e desnorte com cheiro a compromisso. Sendo o que realmente me irritou (a única coisa, de facto) foi esse cheiro a compromisso. Mas, apesar disso, não fiquei com aquele gosto amargo de "catano, isto dava um filme tão pintarolas, e acabou nisto". Saí de lá contente, mesmo trazendo razões de sobra para vir zangado. Não sei explicar, como não sei explicar porque é que gostei mais do primeiro Aranha, apesar de considerar o segundo muito superior.

Grandes filmes a partir de comics espero-os de Christopher Nolan, com The Dark Knight a aproximar-se, e de Zack Snyder, com Watchmen (será desta?), que já mostrou ter unhas para tocar guitarra com essa pérola de ostra gorda que é 300. Aguardo com curiosidade o Iron Man realizado por Jon Favreau (o facto de Robert Downey Jr. ir interpretar Tony Stark é tão irónico que só pode resultar). E não espero nada de especial do regresso dos Fantastic Four, mas só pela visão de um dos meus heróis favoritos, o Surfista Prateado, encontro-me em pulguedo. Vejam lá se esta imagem do filme não passa bem por uma ilustração de Alex Ross.
Nota final para os fãs hardcore de comics, que são, afinal, os únicos que talvez tenham resistido até ao final deste post - vai haver Galactus, ah pois vai.