sábado, dezembro 05, 2009
quarta-feira, fevereiro 18, 2009
Do Outro Lado

Saí ontem da sala de cinema com um sorriso no rosto depois de ver CORALINE. Sem o grau de extravagância (típica dos filmes de ‘quadra natalícia’) que se encontra em NIGHTMARE BEFORE CHRISTMAS, esta adaptação de Henry Selick ganha pontos pela maneira subtil como as potencialidades da animação stop motion se vão evidenciando ao longo do filme. Continua a ter aquele toque de expressionismo alemão, mas – até para criar maior distinção entre os dois mundos em que se desenrola a história – as cores utilizadas ao início, o tom, é muito mais leve, mais pop no sentido 60s do termo. Selick e a sua equipa dominam perfeitamente o meio das miniaturas com que filmam, têm uma noção extraordinária das distâncias relativas e de enquadramento, de tal maneira que tudo aquilo parece um mundo vivo, e não algo de estático que só se mexe graças à captação meticulosa de cada um dos pequeníssimos movimentos que compõem a acção.
Vi a versão Real3D; e que bom é ver algo em 3D que não passa o tempo a fazer-nos agarrar coisas que voam pelo ar, ou a desviar-nos de flechas e bicharada, como em BEOWULF, por exemplo. Não – aqui a experiência de 3D é tão mais submersiva quanto é menos gratuita. Digamos que não há ‘solos de guitarra’ de 3D, ou, se os há, são pouquíssimos – os suficientes. O filme não depende do 3D, é, isso sim, um complemento de excelência: acrescenta-lhe volume, profundidade, dimensão, e contribui para a característica palpável dos personagens, aquela que dificilmente se consegue com CGI, e que é factor de peso para que muita gente esteja já a perguntar quando é que as action figures saem para o mercado.
Neste ponto, importa esclarecer que, para ver o filme em 3D, há que ver a versão dobrada, dado que a original não está disponível neste formato. O que não se percebe, uma vez que não são particularidades técnicas que o impedem (lembremo-nos de BEOWULF), a não ser que as condições das salas Lusomundo tenham mudado desde então. Seja como for, e mesmo para maníacos da versão original como é o meu caso, deixem-me dizer-vos que é um pormenor de pouca importância. Isto porque a adaptação, da lavra do Nuno Markl, é imaculada; feita, como ele diz, com luvinhas e pinças, cuidado próprio de alguém que conhece e admira a obra gaimanesca. E de entre as vozes portuguesas temos grandes interpretações, que ajudam a sentir aquelas personagens ainda mais vivas: casos da Ana Bola e da Maria Rueff no papel das hilariantes Spink e Forcible que, acredito, não deixam nada a dever à interpretação de Jennifer Saunders e Dawn French; e de Nuno Lopes, como Mr. Bobinsky (provavelmente a action figure que, quando sair, vou ter de adquirir primeiro, a par da Outra Mãe na sua fase mais monstruosa). Aplausos também para Paula Fonseca, como Mãe e Outra Mãe, e Carla Garcia, a versão portuguesa da voz de Coraline que, no original, é feita por Dakota Fanning.
Do autor, Neil Gaiman: conheci-o junto com outros escritores da onda britânica que saíu das páginas de publicações como a 2000AD para os comics americanos, como Pat Mills (alguém se lembra de MARSHAL LAW e METALZOIC? Magníficos!) e Alan Moore. De Gaiman, tenho predilecção por graphic novels como VIOLENT CASES (a primeira que fez em parceria com Dave McKean) e BLACK ORCHID, e o incontornável SANDMAN. Quando a sua consistência e brilhantismo já eram de louvar, lembro-me de ficar espantado com THE DAY I SWAPPED MY DAD FOR TWO GOLDFISH e, mais tarde, WOLVES ON THE WALLS. Ali estava um Neil Gaiman ainda mágico, decididamente negro, mas com um domínio perfeito do delicado equilíbrio entre o que é uma história de horror e aquilo que se convencionou chamar de história para crianças. E que equilíibrio lixado é esse, arte meticulosíssima que os adeptos do politicamente correcto teimam em matar ao impôr tantos constrangimentos a algo que é tradicionalmente e propositadamente assustador. Lembremo-nos dos Irmãos Grimm, e dos seus contos antes de amaciados pela Disney. No conto original da BRANCA DE NEVE, por exemplo, a Rainha Má é obrigada a calçar uns sapatos de ferro em brasa e dançar até à morte. Que tal isto para história de crianças? Mas é assim que elas sempre foram, e é por isso que, quando éramos crianças, gostávamos delas. Porque a Disney, mesmo com o seu amaciar das histórias, manteve as qualidades que fazem delas assustadoras, e, ao mesmo tempo, autênticas lições de vida e de relacionamento com os outros; porque são elementos que definem a própria história, e retirá-los era sacrificá-la por inteiro. Maçãs envenenadas, maldições de fadas más, caixões de cristal e bruxas que comem crianças, tudo elementos que – acredite-se hoje em dia, com esta idade, ou não se acredite de todo – eram coisas bem menos assustadoras quando éramos crianças do que a distância e a estranheza que sentíamos ao olhar para o ‘mundo dos adultos’. Os elementos de fantasia, reconheça-se, nunca magoaram ninguém; é a realidade que o faz, aquela realidade com que somos forçados a aprender a lidar à medida que crescemos, enquanto tentamos minimizar os danos desse mesmo crescimento.
E chegamos assim a CORALINE, livro de Neil Gaiman com ilustrações de Dave McKean, que conheci depois das obras já citadas. Editado pela primeira vez em 2002, é muito mais ‘puxadote’ no que respeita a passagens realmente assustadoras do que a adaptação cinematográfica de Selick. A ajudar à festa, estão magníficas ilustrações deste calibre:
E deste:
Deliciosamente perturbador.
Neil Gaiman não esconde a óbvia referência desta obra. A ALICE de Lewis Carroll, NO PAÍS DAS MARAVILHAS, ou DO OUTRO LADO DO ESPELHO, está muito presente em CORALINE. Seja pela temática, seja pela estrutura narrativa semelhante a um jogo, seja pelo portal para Outro Lado (em ALICE uma toca de coelho na base de uma árvore, em CORALINE uma pequena porta numa das muitas salas da casa enorme para onde ela e os seus pais acabaram de mudar-se), quer pelo papel dos espelhos na história, quer pelo Gato (que é, de certezinha, primo do Cheshire Cat). E pelo paralelismo evidente entre a Outra Mãe e a Rainha de Copas. Este paralelismo não enfraquece, de forma alguma, a riqueza e originalidade de CORALINE. Antes o enriquece, pela ressonância criada. A viagem, a procura de respostas, não é de agora, é desse tempo em que a curiosidade ditava grande parte das nossas acções (não é à toa que lá está sempre um gato), da altura em que éramos crianças. As duas personagens, a de Gaiman e a de Carroll, procuram o mesmo tipo de respostas, e não hesitam em enfrentar o desconhecido para obtê-las. Mesmo que no final as rejeitem.
Sou grande fanático de ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS e ALICE DO OUTRO LADO DO ESPELHO, ao ponto de coleccionar diverentes edições de várias nacionalidades (já conto com 3 dezenas). Onde Gaiman é asustador e perturbador, Carroll é psicadélico e... perturbador. E nisto do psicadélico - não terá sido à toa que Henry Selick, em fugindo da estética mais creepy de McKean, foi para aquilo que há pouco chamei de 'pop no sentido 60s do termo'.
CORALINE é um livro, e agora também um filme, encantado e encantador, e, ao mesmo tempo, assustador e cruel. Como qualquer bom livro ou filme para crianças, é imprescindível que seja visto por adultos. Porque à medida que crescemos, vamo-nos esquecendo de muita coisa.
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FHF
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sexta-feira, dezembro 28, 2007
Fitas que farão de 2008 um ano mais bonito #5: Coraline
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FHF
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Tópico: 3D, Animação, Cinema, Literatura, Livros, Música, Teatro



