quarta-feira, novembro 13, 2019

Curioso: a entrada da Voyager 2 no espaço interestelar foi pela primeira vez notícia no passado dia 4, exactamente um ano depois de eu ter entregado o manuscrito final d'A IMORTAL DA GRAÇA. Estes excertos são do capítulo 12, intitulado, exactamente, Voyager:

«Num ontem já com uns bons quarenta anos, descobriu que nenhuma imagem da sua rua, da sua cidade, do seu país, constava das cento e dezasseis fotografias que a NASA enviara, gravadas em discos de ouro, em ambas as sondas Voyager. O espectro solar, o esqueleto, os orgãos internos, o feto, um pai e uma mãe, uma construção Amish, uma casa algures em África, uma festa na China, o tráfego na Tailândia, o edifício das Nações Unidas durante o dia, o edifício das Nações Unidas durante a noite, uma dançarina do Bali, um quarteto de violinos, o Outono e a queda das folhas, um homem velho de barbas na Turquia, o raio-X de uma mão, um avião em voo. Depois de a Terra morrer, não ficaria nenhum registo dos poucos metros quadrados onde passara a maior parte da vida. Nenhuma imagem do bairro, de casa. De si.
A gaveta da mesa-de-cabeceira guarda achas que ainda fervem: meias de lã, arma de fogo, uma fotografia que serve de cobertor ao revólver,
Foi a última que tirámos, ele e eu, que depois nunca mais me deixei fotografar, era o que mais faltava.
seria o mesmo que a fotografarem sem um braço.
- Tanto que se ganha quando se deitam coisas fora.
só que a Menina Celeste, nada presa à bagagem, agarrava-se a esta fotografia.
(...)
O tempo parou em 1977, quinze anos antes de a Graça nascer, quando as Voyager deixaram a Menina Celeste para trás, soterrada numa hipótese de vida e lugares especiais e sorrisos que valiam a pena serem lembrados, ao contrário dos seus. Deixou de olhar para o céu porque não se revê nele.
(...)
Daqui a quarenta mil anos, a Voyager 1 chegará à estrela mais próxima de nós, depois do Sol. Se alguém longe, fora daqui, abrir a gaveta e vir aquelas cento e dezasseis fotografias, não saberá apreciá-las. Vai faltar-lhe mundo.»

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