segunda-feira, setembro 30, 2019

Liam Sharp

Deveras catita, a leitura que fiz sábado passado no Reverso // Encontro de autores, artistas e editores independentes. Muito obrigado a todos os que assistiram, ao Vasco Gato pelo convite, ao Paulo Tavares pela recepção, e a todos na Cossoul pela hospitalidade.

Muito provavelmente a melhor adaptação de um comic para série televisiva. A obra de Garth Ennis e Darick Robertson, THE BOYS, foi passada de forma brilhante para o pequeno ecrã por Eric Kripke. Elenco de excepção, com destaque para Karl Urban (Billy Butcher), Jack Quaid (Hughie Campbell), Erin Moriarty (Annie January / Starlight), Tomer Capon (Frenchie), Antony Starr (Homelander) e Elisabeth Shue (Madelyn Stilwell). A necessidade que a espécie humana tem de salvadores leva à manipulação, à cegueira e à impunidade. Poderá haver mais actual que isto?

De vez em quando, lá surge a frase: é a era de ouro das séries televisivas. Já houve muitas; ou, talvez, ainda não tenhamos saído dessa era desde que o termo começou a surgir. Garantia, uma: que PERPETUAL GRACE, LTD corra o risco de passar despercebida no meio de tanta coisa boa é sinónimo de que existe, de facto, uma avalanche de séries incríveis, e o tempo não dá para tudo. Da minha parte, devo dizer que há muito que a escrita de uma série não me deixava de boca tão à banda. Vai beber de várias referências, todas elas dignas de vénias, ao mesmo tempo que tem uma identidade própria, única. O resultado é novo e irresistível. Se só conseguirem ver mais uma série até ao fim deste ano, que seja esta. Que portento.

Aqui há uns 300 anos, quando frequentei um seminário do excelentíssimo Robert McKee, guru da escrita de argumento, ouvi-o repetir, uma e outra vez, que o cinema sul-coreano era o melhor do mundo. Descontando o exagero que McKee imprime nas suas palavras, destinado a passar uma ideia e a fixá-la de forma indelével em quem o escuta ou lê, tenho tido a oportunidade de verificar que estava coberto de razão. Se, naquela época, já tinha algum contacto com o cinema da Coreia do Sul, desde então - e porque começaram a chegar a Portugal, de forma mais regular, várias pérolas desse país - tenho-me deparado com inúmeros outros exemplos dessa mestria absoluta. Já falei longamente do universo temático que, de forma genérica, caracteriza o cinema asiático no seu todo, pelo que não me vou estar aqui a repetir. Mas em relação ao sul-coreano, especificamente, devo referir aquele que é, com grande índice de probabilidade, o exemplo máximo de um completo domínio da arte de contar histórias que já me foi dado ver. Do argumento à realização, passando pela interpretação de todo o elenco, PARASITE, de Bong Joon-Ho, é uma gema sem falhas. Quanto menos se disser sobre o filme, melhor, para não correr o risco de desvendar pormenores muito mais arrebatadores se surgirem, durante o visionamento, como completa surpresa. Agora, que estamos a falar de uma obra-prima absoluta, disso não haja qualquer dúvida.

sexta-feira, setembro 27, 2019

Hoje

They live!

1986: e se fosse um comic?


Arte de Selma Pimentel.

Miguel Martins, DAS MULHERES, incluído no livro LÉRIAS, Averno, 2011


(click para aumentar)

Ruiz Burgos

Quanto à jovem Greta propriamente dita, até me parece que devia ser mais feroz. Tipo assim.
All music written and performed by John Mollusk. Inspired by, and all lyrics by Greta Thunberg.


Fui espreitar a página do Bufo Patomarreco, sabem, o padre que fez a denúncia que levou a ASAE à caça das gémeas marotas, e fui lá porquê?, fui naquela coisa de - como é que se diz agora? - sair da minha ‘echo chamber’, terminologia bem moderna em marketês corrente, para perceber melhor a linha de raciocínio (se assim se lhe pode chamar) que leva a uma coisa destas, e arrependi-me imediatamente. Porque isto de nos prestarmos a escutar discursos obscurantistas faz um indivíduo sentir-se como que num lamaçal medieval, provoca o falecimento de neurónios e aflige, aflige muito, ver o Patomarreco a justificar a bufice com questões de direitos de autor, como se fosse questão que realmente lhe interessa, então não interessa, como se não fosse uma desculpa, a única ponta solta, digamos assim, que teve para pegar e levar a sua medievalice avante; e logo a seguir, na caixa de comentários, vê-lo já sem freio, mostrando os verdadeiros fernicoques: que a pornografia isto e mais aquilo, ai é o diabo, vade retro; só se me afigurou o Patomarreco com um archote a aproximar-se de uma montanha de livros e a pegar-lhes fogo, pois que ali reside o mal, ui tanto mal. E dou por mim a pensar: há comboios que não quero mesmo apanhar, faço questão de não apanhar, e este de tentar perceber o que leva alguém a sentir comichão com livros é um que não me interessa mesmo, de todo, um comboio que espero que descarrile, ribanceira abaixo; já nem é só uma questão de neurónios a enforcarem-se perante estas - vá, chamemos-lhes assim - mentalidades, é mesmo o estômago que, não aguentando o embate, se refugia no vómito como única hipótese de purga de mioleiras deste calibre.

quinta-feira, setembro 26, 2019

Não, o activismo ambiental não se tornou um negócio, pois claro que não. E, mesmo que se tenha tornado, o que é que isso interessa? Antes isso do que matarem o planeta, ah pois é, porque só há preto e branco, nada de áreas cinzentas, e agora nem interessa nada falar sobre isso, o desespero manda e pede um messias, quem não está connosco está contra nós, não sejas fascista, não questiones porra nenhuma, não há aproveitamento nenhum, ninguém anda a ser manipulado, é impossível preocupação efectiva com a catástrofe iminente - presente! - sem devoção total à hashtag da moda, nem mais; para nos tomarem por tolos já bastou a geração que rebentou isto tudo e blá-blá-blá, e vamos todos ser salvos porque temos quem tome conta de nós, hossana! nas alturas, teu branding entre nós!

quarta-feira, setembro 25, 2019

O Reverso // Encontro de autores, artistas e editores independentes, começa amanhã, e lá estarei dia 27, sexta-feira às 22h30, a convite do estimado Vasco Gato. Lerei textos meus, de outros autores que me dizem muito, e depois podem oferecer-me copos até nos expulsarem da Guilherme Cossoul. Lá vos espero.

Batwoman by Michael Cho

Fernanda Montenegro 💜

Pois que a censura de livros também passa por cá, assim, em pezinhos de lã. E, entretanto, perdemo-nos em maniqueísmos, ou é preto ou é branco, sem nada pelo meio, ou isto ou aquilo, mais barricadas e zero desejo de questionar, perceber; entregar os pontos. O medo é fodido. A necessidade de palminhas - que leva a passar a mão na marreca do hashtag da moda - igual. Como escreveu o João Paulo Cotrim, a propósito de outros assuntos (mas veste o zeigeist da cabeça aos pés): “Que interessa hoje o futuro? Matámo-lo logo a seguir a Deus, se nos relacionamos com as ideias em modo de fuzilamento?”

Marotas apreendidas
Foi hoje de manhã apreendida pela ASAE, As Gémeas Marotas, livro de paródia à Miffy, nas instalações da Biblioteca dos Olivais, serviço da Bedeteca de Lisboa.
Depois de meses de campanhas de difamação dos Direitinhas, ultra-católicos e outros elementos burgessos da sociedade laica portuguesa (mais os nazis dos brasileiros), finalmente conseguiram o que desejavam, tirar do olho público uma obra de arte autónoma, dentro de um acervo público, propriedade da Câmara Municipal de Lisboa.

terça-feira, setembro 24, 2019


‘Tou a curtir a conversa dos woke de meia-idade. Lembraram-se agora. O que nem seria mau - antes tarde que nunca. Acontece o quê? O ritual do habitual. É como se o uso da hashtag da moda lhes tirasse um peso da consciência. Só que, azarito: a pegada ecológica de cada um não diminui à pala de hashtags. E entretanto os bólides bufam e não se prescinde do saquinho e da garrafinha de plástico, p.e. O pecos-pecos é mais cómodo e os hábitos escusam de ser mudados. Deixem-se de merdas. As boas intenções apregoadas valem zero se a mãozinha malandra descamba para o de sempre. Sempre quero ver essa preocupação toda a ir além da montra das redes sociais. O fim chega montado na inacção e a inacção vem atrelada também a este tipo de hipocrisia. Não é Roberto Carlos a salvar baleias quem quer.

segunda-feira, setembro 23, 2019

‪Tenho alguma pena dos pais da pequena Greta Thunberg. Imagine-se aquela atitude num corredor de hipermercado. “Falhaste-me! Disseste que o jantar ia ser pizza e estás a comprar frango no espeto. Estou de olho em ti!”‬

Quero agradecer muito a oportunidade de ver a minha/vossa A IMORTAL DA GRAÇA a servir de mote para uma discussão tão importante como a que ontem teve lugar no Festival Todos. Fiquei muito contente pela chance de assim fazer parte deste festival, num bairro de Lisboa que tanto, mas tanto, me diz. Vénias ao Miguel Abreu e à sua equipa que, ano após ano, se desdobram para trazer o Todos a todos. Obrigado aos mui generosos Nuno Saraiva pela participação, Margarida Cardeal pelas leituras e João Morales pela moderação da conversa. Obrigado à Clara Barbacini e à Isabelle Poinsot Romão pela partilha da sua vivência em Lisboa, e ao José Manuel Rosa pela conversa e pelo trabalho que tem vindo a realizer na AQF - Amigos da Quinta do Ferro, Associação de Proprietários e Moradores (urge acompanhar). Agradeço também ao Camones Cine Bar pelo acolhimento. E, claro está, um muito obrigado a todos os que vieram, assistiram e participaram. É como costumo dizer a propósito d’A IMORTAL DA GRAÇA: somos TODOS imortais até prova em contrário.

Na Escola de Escritas não vamos fazer ensopado de borrego, muito menos bitoque de porco ou costeletas de vitela. Não vamos confeccionar omeletes de míscaros nem jardineira de tofu, nem sequer ervilhas com entrecosto, nem rabanadas de seitan. Serão sessões de mãos na massa, sim, mas mais viradas para a sketch comedy, sitcom, stand up, séries de humor e, se houver tempo, a síntese de alcalóides metílicos.
1.ª sessão no dia 26/10, das 20h00 às 22h00; 2.ª sessão no dia 30/11, das 17h30 às 21h00; e 3.ª sessão no dia 7/12, também das 17h30 às 21h00.
Ainda há lugares e podem fazer as vossas inscrições em escritaconline@gmail.com.
Tragam barritas energéticas sem glúten, batidos de proteína, e um amuleto avariado.

sexta-feira, setembro 20, 2019

Scarlet Witch by Adam Hughes

O João Morales - que estará a moderar a conversa - explica, e muito melhor que eu:
“Neste Domingo, às 16h30, venha assistir à conversa o Festival Todos: Os Imortais da Graça. O ponto de partida é o mais recente romance de Filipe Homem Fonseca[A Imortal da Graça], onde chegaremos isso já é outra coisa... em causa estará o Bairro da Graça e a Lisboa com muito pouca graça que temos vindo a ver galgar gerações e arredar os alfacinhas. A entrada é livre, como a cidade devia ser sempre.”
Resta-me frisar que, entre os convidados, contaremos com os caríssimos Nuno Saraiva e Margarida Cardeal.
Mais uma vez, muito obrigado ao Miguel Abreu pelo convite.
Vinde todos ao Todos!
22 set 16h30 |
Morada: Camones - CineBar – Rua Josefa Maria, 4B
Página do evento
-
TODOS
apresenta
"Os Imortais da Graça"
Uma conversa livre, moderada por João Morales, sobre o bairro da Graça, a partir do livro A Imortal da Graça (publicado em 2019), uma narrativa de ficção documental sobre as mulheres mais velhas da Graça e sobre a Lisboa gentrificada, partindo da história de Graça, o nome de uma jovem habitante do bairro homónimo.
Participantes:
Filipe Homem Fonseca (escritor)
Nuno Saraiva (ilustrador)
João Morales (jornalista)
Margarida Cardeal (atriz)
Clara Barbacini da associação Arquivo dos Diários
Isabelle Poinsot Romão, moradora na Graça
João Rosa (Associação de Moradores da Quinta do Ferro)
Senhora D. Conceição - residente na Graça e membro da associação de filipinos em Portugal
22 set 16h30 |
Morada: Camones – Rua Josefa Maria, 4B

Amanhã. Absolutamente imperdível.
Info aqui.

quinta-feira, setembro 19, 2019

Stephen Fabian, Alice from The Devil’s Bride, 1976

#StephenFabian #AliceFromTheDevilsBride #TheDevilsBride #AliceHume #SeaburyQuinn #JulesDeGrandin

Regresso às aulas, EUA.
O impressionante vídeo da Sandy Hook Promise.
A verdade nua e crua.

QUOTIDIANO DEATH METAL
Dica: não percam a segunda temporada de AGGRETSUKO. 10 episódios que mergulham ainda mais fundo na questão da hipocrisia inerente às relações humanas contemporâneas e da impraticabilidade dos novos códigos sociais. Um tratado moderno sobre aquele intervalo entre a tradição e a necessidade de mudança, onde não há espaço para crescer e hipótese de espirar. É admirável que uma série de animação onde os personagens são todos tão fofalhuchos consiga traduzir tão bem sentimentos de profunda frustração e tristeza. Vénias a Rarecho, que escreve e realiza.

Finalmente vi. Tendo em conta que não apreciei, de todo, os seus dois filmes anteriores, ter gostado muito deste ONCE UPON A TIME... IN HOLLYWOOD fez-me dizer “Bem-vindo de volta, Mr. Tarantino”.
Leonardo DiCaprio está irrepreensível (já em DJANGO UNCHAINED, a sua prestação foi a única coisa de que realmente gostei no filme) e Brad Pitt idem - que química absoluta, a destes dois actores.
Este é suposto ser o penúltimo filme de Quentin Tarantino - se assim for, de facto, é uma pena: a idade está a trazer-lhe uma maturidade muito interessante, sem indícios de perda de muitas características que são, para mim, as mais valiosas do seu trabalho, ao mesmo tempo que parece muito menos fascinado com os seus próprios diálogos verborreicos que, nos dois filmes anteriores, já me pareciam andar a roçar uma paródia de si próprio.
A crer na boataria, este filme vai ser, em breve, série da Netflix, com mais uma hora de material, o que me parece supimpa: quero muito passar mais tempo na companhia de Rick Dalton e Cliff Booth.

quarta-feira, setembro 18, 2019

Vampirella by Lorenzo di Mauro

Amanhã


Magnífica, a segunda temporada de MINDHUNTER. A frieza que permeia toda a série cria uma atmosfera que nos assombra muito depois de cada episódio acabar, e permite que o elenco possa ‘ferver por dentro’, em demonstrações de contenção que tornam certos detalhes - uns mais subtis que outros - ainda mais angustiantes.
Parece que teremos de esperar uns aninhos por uma terceira temporada: David Fincher vai dedicar-se a um filme (também na Netflix) intitulado MANK, projecto que trará a sua primeira colaboração com Gary Oldman. Com argumento do falecido pai de Fincher, será um biopic filmado a preto-e-branco acerca de Herman Mankiewicz, o argumentista de CITIZEN KANE, e trata-se de um filme que Fincher queria ter feito logo a seguir a THE GAME, de 1997 - já anda a adiá-lo há uns bons tempos.
Seja como for, a julgar pelas temporadas anteriores, a terceira de MINDHUNTER será uma pela qual valerá muito a pena esperar.

terça-feira, setembro 17, 2019

Mind over Mayhem 💗

Sábado passado. Noite épica. Obrigado a todos os que vieram.
Fotos: Joana Azevedo