terça-feira, abril 23, 2019

No dia mundial do livro:

“Sentou-se, desta vez de frente para o Gabriel. Pausa para acender novo cigarro, respirou fogo,
- Somos coisas do pó.
as cinzas eram o seu trono, uma presença esfumada, à espera de vento forte ou brisa passageira que a levasse.
- Que idade tens?
- 42.
- És de um agora diferente.
- Quão diferente é o mundo de quando a Menina Celeste era da minha idade?
- Nunca fui da tua idade, nunca tive esse luxo. Gostava de poder dizer-te que chegarás ao suplício da minha, só que não sei, não sei mesmo. Seja como for, a minha idade é uma novidade dos tempos modernos. Medem o grau de civilização pela longevidade, os números dos velhos que são cada vez mais velhos. Obsceno. A civilização mede-se pela chance que dá às crianças de serem crianças. Hoje em dia temos crianças com 30, 40, 50 anos. Há um processo de infantilização em curso. As crianças são mais fáceis de controlar, é passar-lhes um brinquedo para as mãos, redes sociais onde possam gabar-se, insultar, engatar, e o mundo que interessa faz-se sozinho, pela calada. Eu nunca quis ter controlo. Sei que é impossível. Só quis que me deixassem em paz.
- E deixaram?
- Continuo a receber contas para pagar. Não há paz sem controlo. E nós não controlamos nada. Só alguns políticos e banqueiros, imperadores e magnatas, aqueles de quem pouco ou nada se houve falar, sombras sobre tudo. O resto entrega-se a Deus com D grande e a deuses com d pequeno que nunca se apresentaram devidamente numa televisão, num comício, nunca deram provas da sua competência, muito mais importante do que a omnipotência. O que é que nós sabemos, o que é que nos dão a saber e quanto disso é verdade? Quem é que manda em nós? Tu sabes? Eu não faço ideia, e já cá ando há uns aninhos.”

Excerto d’A Imortal da Graça

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