sexta-feira, fevereiro 08, 2019

«Amarga e dilacerante como um copo de lixívia bebido de uma só vez, Celeste, já desististe do mundo há muito, o problema é que o mundo ainda não desistiu de ti.
Estica o braço relutante, qualquer interacção lhe custa, um preço que não quer pagar. Acende a televisão, segunda das duas naquela casa, uma maior na sala, esta na cozinha, pequena como o mundo que nela se espreita.
Só tem dois canais e já são dois a mais do que preferia ter. Há pessoas que deixam de comer para pagar pacotes de canais onde abundam programas de viagens que nunca farão a sítios onde se come comida que nunca irão comer porque gastam o pouco dinheiro que têm em pacotes de canais. Um ciclo vicioso de substituição da vida por uma imitação em alta definição, num ecrã maior do que quaisquer ambições permitidas àqueles a quem querem sossegados em casa, contentados. O básico de ontem, o luxo de hoje: um tecto. Segurança. Viagens para quê? Já bastam as emissões em directo: mais um atentado, daqueles que nos fazem telefonar para familiares e amigos. Sabemo-los longe da tragédia, só lhes queremos ouvir a voz. Mais um nome de gente, cidade ou estabelecimento, ligado de forma irremediável à ideia de tragédia. Não de descoberta revolucionária, maratona com requinte de recorde batido, especialidade gastronómica ou prova de equitação, mas de horror; monumento ao mais monstruoso do ser humano, a mais uma prova de que dizê-lo assim talvez seja uma redundância.
Cada evento destes retira mundo a toda a gente, menos vida e História, duas coisas que só são uma. Desaparece e é substituída por outra infinitamente maior pela pequenez a que nos sujeita. Lugares que deixam de ser aquilo que nos lembrávamos para passarem a ser aquilo que tentaremos esquecer. O silêncio na TV não é pelas vítimas; não há homenagem possível.
Seguem-se os pedidos de contribuição, os donativos, os números 760 para onde é suposto ligar; o luto e a regeneração e a bondade em nove dígitos e uns cobres + IVA.
No meu tempo, ajudar não era nada disto.
O teu tempo, Celeste? Que tempo é o teu?
A Menina Celeste escolhe dar atenção a isto mais tarde, talvez no anúncio do próximo atentado já consiga lidar com este.»

A Imortal da Graça
já está à venda em vetustos estabelecimentos.

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