quinta-feira, setembro 06, 2018

Do armadismo-ao-pingarelhismo

Completaram-se ontem 35 anos da estreia televisiva de He-Man and The Masters of the Universe nos EUA. Por cá, a série estrearia mais tarde (não muito mais, creio, mas também não sei precisar), e seria chamada de Os Masters do Universo, numa singela mixórdia de inglês e português que pegou e de que maneira.
Foi o dia perfeito para ver Power of Grayskull, o documentário de Robert MacCallum e Randall Lobb acerca da criação e do impacto desta linha de brinquedos que se tornou série de animação, filme, enfim - um verdadeiro império de profundo deleite para todos os fãs de ontem, hoje e sempre. Motivos de interesse, neste documentário, são mais que muitos; mas são de destacar os momentos em que esse grande Senhor que é Frank Langella fala da sua interpretação de Skeletor com o mesmo grau de entrega e solenidade com que falaria de uma personagem shakespeariana que tivesse encarnado em palco.
Fez-me lembrar, de certa forma, as declarações de Sir Patrick Stewart noutro belíssimo documentário, The Captains (2011), quando diz a William Shatner que se entregou ao personagem do Capitão Jean-Luc Picard com a mesma devoção e seriedade com que abordaria um clássico teatral, apesar de muita gente lhe dizer "eh pá, tu não te metas nisso", e que fica muito feliz por saber que o trabalho pelo qual será mais lembrado será exactamente Star Trek: The Next Generation.
É característica dos Grandes, assim mesmo, com G grande, não terem preconceitos, entregarem-se a projectos diferentes com o mesmo nível de profissionalismo e generosidade; o talento também se mede por isto. A seriedade está sempre na maneira como se dá a entrega à obra em questão, e não propriamente numa suposta seriedade intrínseca à obra em si. As coisas têm, sempre, o valor que lhes damos.
Prefiro, a qualquer hora do dia, Frank Langella como Skeletor do que um pseudo qualquer armado ao pingarelho a escangalhar um King Lear.

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