sexta-feira, novembro 10, 2017

Admirar a obra é uma coisa, admirar o autor, é outra. Percebi isso muito cedo e ainda bem. O que não falta são casos de artistas geniais que no privado eram/são uns valentes filhos da puta. Agora, é Louis CK, cujo trabalho admiro imenso, a ser acusado de assédio.
A comprovar-se (dificilmente não o será), terá de ser feita justiça. Mesmo que a sua carreia não acabe aqui, é de esperar uma longa travessia do deserto. Louis CK será então culpado de duas coisas: do assédio de que é acusado, e - menos grave mas também doloroso - do facto de nos privar, aos admiradores do seu trabalho, de mais rasgos de genialidade iguais aos que nos habituou.
Há uma onda avassaladora a acabar com as impunidades. No meio disto tudo, existirão exageros; a lucidez, o discernimento, são coisas que se atingirão durante o processo, não adianta querer impô-los à partida. Porque o que se está a passar é mesmo um tsunami. E já vem tarde.
Caíam os opressores, fique a obra, a que se conseguir ainda apreciar por entre as ruínas. À luz do pouco que ainda se sabe do caso de Louis CK (é certo que novos dados serão divulgados nas próximas horas), digo que me continuarei a rir com os seus solos de stand up, com as espantosas séries de que foi autor, que me continuarão a fazer pensar. E sei que, apesar de fazer essa distinção, entre a obra e o autor, de vez em quando (quão amiúde? Não sei.), vou dar por mim a abanar a cabeça e a dizer: "Foda-se, Louis, porquê, caraças, para quê? Como?".

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