quarta-feira, outubro 18, 2017


Há nas pétalas das flores uma qualidade táctil transcendente,
Uma daquelas sensações sublimadas que requerem silêncio e solidão
E nos impregnam de uma tristeza boa, de uma tristeza que vale a pena
Porque nos ensina a viver alheados do corso em que a vida se tornou
E a morrer indiferentes à absurda possibilidade de qualquer fim.

Há nas flores, mais do que em qualquer bicho ou espécie de gente,
Um ensinamento de brevidade eterna, uma riqueza discreta,
Uma elegância, isso!, uma elegância, ó filisteus sem número
Que trocais de carro e de casa e de mulher e não vos iludis nunca,
Porque o encantamento só se dá na pureza e, desde que nascestes,
Uma barba cerrada trava-vos o riso e acumula restos de comida,
Restos de ideias, e uma atroz propensão para o sucesso.

Entretanto, a nobre rosa, a fulgurante papoila dos trigais,
A exótica orquídea crescendo no topo das árvores,
Existem muito para lá desta estreita faixa de gravilha
Que nos medeia o nascimento e a morte,
Existem todas em cada uma e, desse modo, ao serem tocadas,
Passam aos netos os dedos dos avós, trazem o cheiro
Primordial do mundo, do mundo ainda sem nome ou solução,
À vida entre paredes em que nos deixámos cair
E que tanto precisa de azul.

Miguel Martins, in O Caçador Esquimó

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