segunda-feira, outubro 16, 2017

BLADE RUNNER 2049
Notas #02

(contém SPOILERS)
Blade Runner 2049 pega num dos elementos mais importantes do filme de '82, a água, apropria-se dele e dá-lhe continuidade, usa-o de forma recorrente como material simbólico ao longo da história. A água como metáfora das memórias e da vida: as memórias que se esvaem na chuva ("like tears in rain"); a que se agita por debaixo da superfície (o escritório de Luv, com os reflexos tremeluzentes do tumulto interior da Replicant, unhas polidas e o extermínio remoto); as lágrimas de Luv como único sinal de uma humanidade que encara como fraqueza e defeito; a ausência de água/referências/vida (o deserto de Las Vegas, até ao encontrar das abelhas; e não será por acaso que Deckard tem milhões de garrafas de whisky, ao ponto de oferecê-lo ao seu cão); o lago de memórias nos aposentos de Wallace, de onde resgata o passado de um Deckard que conhece o carácter único de uma gota de água ("Her eyes were green."); a enxurrada durante o confronto entre K e Luv, ameaçando afogar um futuro que não é de nenhum deles); e o fluxo interrompido, a cristalização de tudo, quando realmente neva durante a morte de K, quando holograficamente neva sobre a primogénita da nova espécie. A própria "bolha" dentro da qual Ana Stelline é obrigada a viver, um rio aprisionado numa barragem prestes a rebentar. "I know what's real", diz Deckard a certa altura do filme. Claro como água.

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