quinta-feira, junho 01, 2017

Um pequeno passo para a Mulher-Maravilha, um salto gigantesco para a DC/Warner


De longe, o melhor filme DC/Warner até agora, o há muito esperado passo na direcção certa para a construção de um universo cinematográfico partilhado, peca por tardio. Tivesse a MULHER-MARAVILHA aparecido uma década (ou meia, vá) mais cedo e muitas das fragilidades que apresenta seriam mais fáceis de digerir. Quando se tem, como fasquia, uma certa mestria que a Marvel desenvolveu ao longo de uma década a levar os seus imaginários para o cinema, torna-se inevitável, por comparação, sentir a ingenuidade destes primeiros passos da DC.

Porque são, não haja disso dúvidas, os primeiros passos - existe uma continuidade dos filmes anteriores, quanto mais não seja na evidência de que este MM se passa no mesmo universo, mas a preocupação é fazer algo novo. E é, de certa forma, mas ainda sem certezas, sem segurança, e carregado de ingenuidade.

Está patente na direcção de actores - às Amazonas, parece que foi dito "olhem, a referência é Grécia Antiga, por isso toca a declamar à teatro grego e a fazer poses de estátua" (Connie Nielsen e Robin Wright são tão melhores que isto); está patente no argumento - pouco subtil, bem intencionado mas nada firme; está patente nos efeitos visuais - nesse aspecto, fica muito aquém de BvS, por exemplo.

O primeiro e terceiro actos, exactamente por essas razões, são o que MM tem de mais frágil. É no segundo acto que Gal Gadot tem oportunidade de brilhar, se bem que tropeçando várias vezes num overacting desnecessário. Consegue, apesar de tudo, demonstrar o crescimento de Diana nesta que é, afinal, uma típica história de coming of age. A Mulher-Maravilha de Gal Gadot vem com uma bagagem de respeito, trazida de BvS: não só foi o melhor do filme (é praticamente unânime) como ainda trouxe, de bónus, um dos melhores e mais facilmente identificáveis temas musicais do cinema de sempre, da autoria de Hans Zimmer e Junkie XL. Tudo património que este filme se esforça para honrar; e consegue-o, mais trôpego aqui, menos ali, com alegria a fazer por compensar a falta de maturidade.

A DC/Warner parece estar determinada a seguir um tom mais leve, e as prestações de Chris Pine e Lucy Davis - e da própria Gal Gadot - servem bastante bem alguns momentos cómicos que o filme vai distribuindo. É também neste segundo acto que o lado visual e coreográfico do filme é mais competente: sem nunca atingir o grau de espectacularidade de opus DC anteriores, ganha pontos ao concentrar-se nas implicações emocionais do que se está a assistir. Mesmo que - lá está - de forma demasiado evidente.

Um protagonista é tão mais forte quanto o seu antagonista, e aqui MM parece sofrer do mesmo mal que afecta as adaptações cinematográficas da Marvel: pouco desenvolvidos, mais palavrosos que actuantes, salvo as batalhas à la boss de videogame. A mais marcante do panteão vilanesco será talvez a misteriosa e trágica Dr.ª Maru, interpretada por Elena Anaya, que, espero, não se fique por esta aparição - a personagem, claramente subaproveitada, tem muito, mas muito mais para dar.

Há uma tendência - inevitável, creio - para, falando de MM, enveredar pelo discurso do "oh, que woman empowerment", sobejamente utilizado na campanha de marketing do filme - e não é que não o tenha, esse empowerment, ou não fosse a protagonista a Mulher-Maravilha; só que o traz de maneira pouco subtil, intenção sublinhada a traço grosso e fluorescente sem ser, muitas vezes, traduzida dramaturgicamente de forma madura, o que resulta num tom ingénuo, de quem quer passar mensagem mas não quer ser acusado de se estar a levar demasiado a sério.

Esta ingenuidade acontece no tratamento de tudo o que são traços da personagem herdados dos comics - e há-que dizer desde já que a compreensão da Mulher-Maravilha mora toda neste filme, justiça lhe seja feita; acontece que as intenções são todas por mais evidentes, quase que se conseguem ver "os fios da narrativa" a tentarem puxar-nos nesta ou naquela direcção; e, com esta compreensão de que estamos a ser manipulados - ainda que de forma simpática -, torna-se mais complicada a suspensão da descrença, a imersão na história, a empatia com os personagens. Existem mais intenções que ideias; há como que uma contenção, um receio de não levar as coisas até às últimas consequências. MM preocupa-se em seguir um by the book sem espaço para o risco, para a experimentação. Anda também à procura de uma fórmula, pelo que vai apalpando terreno, com cautela. Como história, cumpre a missão de funcionar por si só sem estar preocupado em abrir portas para filmes futuros; é, ainda assim, demasiado consciente de que a sua aceitação determinará o futuro de todo um franchise.

Nesse sentido, é um sucesso.

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