quinta-feira, março 02, 2017

LOGAN, "A man has to be what he is"


A propósito da passagem do universo dos comics para o cinema, escrevi há tempos, num texto para a revista LER: "A melhor das adaptações não está à altura da fonte original, meio privilegiado para o tratamento de temáticas próprias, retrato da realidade que desconstrói o próprio suporte narrativo em que assenta. Por outras palavras: a mais representativa de todas as bandas desenhadas pode muito bem ser um comic, mas a mais representativa obra cinematográfica não é – e não me parece que algum dia venha a ser – um filme de super-heróis."

LOGAN, de James Mangold, prova-me errado.

Obra maior, pesada, ultraviolenta, um tratado redigido com aquele nervo implacável que originou referências incontornáveis do cinema norte-americano, LOGAN é um novo patamar. Faz com as adaptações de banda desenhada aquilo que a graphic novel WATCHMEN fez, no final da década de 80, com os próprios comics. É a primeira vez que personagens originados na BD encontram um registo profundamente cinematográfico, como se tivessem sido, desde sempre, criados para esse meio.

É um filme carregado de cicatrizes e feridas abertas, nos corpos e consciências dos protagonistas, na paisagem desolada de um futuro próximo que é, sem nenhum paradoxo, o da velhice e das crianças. Respira mesmo quando não deixa respirar, uma articulação dos ritmos que parecia esquecida e que Mangold recupera e impõe.

Como escreveu o Ricardo Gross na apreciação que fez do filme, "A Marvel [neste caso, pelas mãos da Fox] chegou ao cânone. Aguentem-se."

Sem comentários: