sexta-feira, janeiro 27, 2017

Sustento

Dedo no mapa, é escolher o território
para a conveniência dos inícios. Matinais brados
no Mercado de Ver-o-Peso, bem sei:
era assim. Já o amanhecer adivinho-o
democraticamente sobre
uma metade do mundo,
talvez menos. Gente cansada pediu a gente activa:
trazei-nos vitualhas que estamos
sôfregos de sustento.

É muito pouco o mundo aqui à venda,
está tão fresquinho, freguês, é vê-lo
a saltar do prato, é um fruto-peixe, um coelho-bravo
como as silvas, tem este ar manso e é capaz de roer
as canelas aos desprevenidos e mesmo aos outros
(até parece que quer falar)
nunca fiando,
(não tem nada para dizer)
sal na ferida, na comida, os hipertensos
teriam feito melhor figura
chegando mais cedo.

Belém do Pará ou Belém dos pastéis,
ou a do Menino nas palhas adorado
(questão de conveniência),
ao desenlace dá igual, é uma verdade
ubíqua e omnívora, compras feitas
por quem as pôde fazer, serviço de entregas
ao domicílio alheio, tocou o alarme e a polícia
fez ouvidos de mercador,
tudo segue este plano desenhado nas entranhas
do peixe, nas borras de café, na sopa de letras.
Tempo de preparação: uma vida.

Plantado o animal, regou-se com lágrimas
e esperanças, aquelas mortas que na intimidade
remeto para as vontades do Xingu, para além delas,
está hoje o rio carente da ebulição de piranhas,
o meu coração. Pode ser um rio qualquer,
Homem, Ganges, Sado, Tejo, Nilo,
uma poça de água estagnada também serviria,
basta que a vida se predisponha como faz sempre,
golfinhos cor-de-rosa, o boto que às vezes é gente,
engravida as virgens,
acontece esta inclinação natural para
a desordem.

Mercado de Arroios, Whole Foods
de Union Square, mil mercados de rua
em Déli, Saigão, do Olimpo a Valhalla, Babilónia,
Torre de Babel e Clérigos, as Torres Gémeas
e os aviões, carta de pesados e vítimas em Nice
e a destruição das ruínas do deserto,
nenhuma ruína está livre de ser pó.
E a explosão na maratona e mais,
foi que mais, o que perdemos?

Uma semente transgénica torcida
dos pés à cabeça,
ainda agora chegou do mercado e já anda
sem ajuda, temperada
com as melhores especiarias trazidas da última
aplicação digital (a alma e os números)
a bordo de galeras, remos esclavagistas.

FHF
(inédito)

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