domingo, janeiro 08, 2017

Lições indecentes

Faz cair sobre o rosto um relâmpago sem tempo. Vou contar-te um hiper-ciclo dramático vivido pelos jovens americanos que também somos quando passa o Ford Mustang. Auto-rádio sintonizado em falsetto, dicas sobre cabedal. A fama custa a engolir e nem uma palavra sobre os mitos do ghetto.

A cem mil milhas foi-se o circuito. Heróis de um só dia salvaram as aranhas de vidro e os cães de diamante. Em Houston, Nova York, Londres, Berlim, e na casa de férias de Ormen – onde o Teddy e a Judy passaram uma temporada, já este século, para desbastar a ânsia de professores e do craque da bola –, mulheres comportaram-se como gifs animados e ajoelharam-se e sorriram. Lábios-eclipse, cabelos sobre os olhos, pedras preciosas por baixo da pele em crânio já sem nenhuma. Uma rapariga de porcelana chinesa deixou crescer uma cauda. Houve mudanças.

No centro de tudo, a vela acendeu-se de negro, Lazarus levantou-se e caminhou, começou em absoluto; até então vivera em suicídio. Nathan Addler nunca mo confirmou, mas sei que tudo o que aconteceu a seguir, rebelião e vida em Marte, labirintos e convites para dançar, sons e visões e calças de ganga, majores sentados em latas e os rituais da Baby Grace Blue, foram e são e serão pó de estrelas caído entre nós. O que se criou, fodeu e alucinou ao som das cinzas e do muro derrubado, prendeu-nos a um amigo valioso.

Não podendo desvendar tudo, não deixou nem deixa nem deixará porém de dar tudo o que dentro e fora existe para dar. Lições indecentes do coração: um olho posto nos astros, outro nas mãos de voz aberta. Os detalhes sórdidos vêm já a seguir. Estamos felizes, à espera que os outros também estejam. Inspira-te nisto.

Texto meu para o n.º 12 da Flanzine, Junho 2016.
A ilustração é do Alex Gozblau, capa desse número.

#DavidBowie #70anos

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