segunda-feira, janeiro 09, 2017

Enquanto

Enquanto a miséria não assentar
o Colosso em Rodes, o Neptuno na Estefânia
(subitamente altivos e daí desde sempre
um piscar de olhos que a pedra oferece
esculpida defeituosa escaqueirada
manequins modelos exemplos a subir)
irão às procissões acender velas
verter Aleluias quentes em declínio
até ao zero absoluto
a criogenia da fé.

Mais dias que tendem para ontem
livre-trânsito deixado em casa
não podem lá entrar nunca puderam
as malas à porta aninhadas e confortáveis
sossegadas, sem sítio para onde ir
nem outro sítio onde dormir
sem outro dentro que não cá fora
um novelo de paciência enrodilhada
desatam-no sem pressas nem queixas
desta espera não há fartura.

Château Lafite no bebedouro público
é vê-los de sede feita e vergonha pouca
braços abertos e as bocas com as línguas
(o vinho de olhos fechados,
no silêncio um protesto
"devia ser assim todos os dias")
educação envelhecida em cascos
dos camelos que entopem o trânsito
dignos mandatários da procura por bagatelas
negócios da China com e sem Muralha.

Enquanto a miséria não assentar
os anões de jardim, a estátua de Ishtar
os segredos da Maçã e dos que nela vivem
aqueles não-sei-quantos milhões à porta
deitam-na abaixo porque era o que faltava
passearão em todos os parques perdidos
cemitérios abandonados, mercearias de esquina
ciclovias e autoestradas, pot-pourri de asfalto
hipermercados ao domingo em fato de treino
um fio de ouro com um crucifixo ou dois.

E quando a miséria assentar
da Lemúria à Gafanha da Nazaré
da Atlântida ao Sabúgal
da Mealhada a Plutão
Corroios a Cassiopeia
acabam-se os veludos e as sedas
o mel e os pássaros coloridos
a porta derrubada criará raízes
as trancas cerradas para outro sempre
a casa do outro lado, lareira e cachimbo.

FHF
(inédito)

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