quinta-feira, janeiro 05, 2017

A corja do amanhã

A corja do amanhã bafeja no defunto cachaço
que, dormente, finge pele-de-galinha.
Um arrepio solene, como em quase todos os velórios,
aqueles em que a disposição dos lírios
não inspira a risota nervosa de quem se confronta
com o fim dos outros, o nosso fim adiado,
cachaço dormente, carcaça arrepiada,
a corja futura, também ela defunta a curto prazo,
que bafeja como quem canta.
Sei de fonte segura: a corja alimenta-se de nós,
pastéis de memórias tenras, low cost,
não há gourmet vegan que lembre
o paladar dos legumes de antanho.
Comem restos ensossos, pitada de mosca
pousada à mesa para jantar;
a corja partilha o jantar com as moscas.
A corja não se importa de esperar,
julgam eterno o fastio dos dias gastos
à espera de um frappuccino com bagas de goji.
Usam relógios cor do sol do fim da tarde
(hora mágica para a corja, hora morta para nós),
ponteiros que apontam um tempo diferente
do nosso. O coração da corja bate vivo,
ânimo que perdemos e deles faz corja;
a corja do amanhã já fomos nós
que somos, hoje, a corja.

FHF
(inédito)

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