segunda-feira, novembro 07, 2016

Psicadelizemos, Doutor

As distribuidoras Marvel/Disney têm a vida facilitada: mantendo uma qualidade regular, e chegando até, em alguns dos filmes, a surpreender, o universo cinematográfico destes heróis goza de um hype merecido que garante, à partida, salas cheias.

DR. ESTRANHO, um dos personagens que mais me fascina desde sempre, chega aos cinemas com uma dignidade notável, visuais psicadélicos que, só por si, fazem valer o preço do bilhete (a maneira certa de ver este filme é em IMAX 3D). O trabalho do realizador Scott Derrickson, de toda a sua equipa, e das 7890586 companhias de efeitos visuais que conspiraram para tornar certas sequências possíveis, é absolutamente brilhante, ímpar e único. A transposição do imaginário estético de Steve Ditko (criador), e da não menos marcante interpretação de Frank Brunner (anos mais tarde, a partir dos argumentos de Steve Englehart) é impressionante. Há uma nova fasquia a ultrapassar neste campo, e é muito alta.

Avassaladora também é a banda sonora: o enorme Michael Giacchino ultrapassa-se, outra vez, e oferece aqui um dos seus trabalhos mais inspirados, que dá ao filme a toada perfeita. Arrisco dizer: a melhor das bandas sonoras originais do universo cinematográfico Marvel.

Benedict Cumberbatch na pele de Stephen Strange não podia fazer mais sentido e, apesar do filme girar todo à sua volta - ou não se tratasse de uma 'história de origem' - há espaço suficiente para que todos os personagens brilhem (ou quase todos; já lá vamos). Especial destaque para Benedict Wong, no papel de Wong (a coincidência de nome próprio e apelido é feliz e apropriada), de quem espero muito em histórias futuras. Tilda Swinton eclipsa, logo nos primeiros instantes, qualquer espécie de relutância que se pudesse ter em vê-la a interpretar The Ancient One (personagem que, nos comics, é masculina e de aspecto idoso), e Chiwetel Ejiofor dá aqui os primeiros passos no que se supõe (sabe!) ser um papel determinante nos ópus seguintes.

O filme peca pela duração: sendo que se propõe introduzir a abordagem marveliana ao oculto e ao misticismo, 115 minutos são manifestamente insuficientes para dar a DR. STRANGE uma respiração que penso fundamental. Apesar de bem estruturada, a história é prejudicada pela rapidez do avanço da narrativa, em especial em cenas que poderiam e deveriam ser mais pesadas. A Marvel tem vindo, cada vez mais, a apostar no registo cómico; e, se isso faz sentido em GUARDIANS OF THE GALAXY e ANT-MAN, esta apresentação do Dr. Stephen Strange ao universo cinematográfico beneficiaria, creio, se doseasse o humor, em especial no terceiro acto: aquilo que poderia ser um climático final fica fragilizado pela certa leveza com que é apresentado – a catarse visual está lá, a emocional deixa a desejar.

Uns minutos extra poderiam também permitir que Christine Palmer, interpretada por Rachel McAdams, fosse mais desenvolvida – a presença dela no filme fica muito aquém do que poderia ter sido. O mesmo para o Kaecilius de Mads Mikkelsen, a bisar o que tem sido o maior problema da transposição do universo Marvel para o cinema: vilões pouco marcantes. Mesmo assim, Mads Mikkelsen cumpre muito bem com as ferramentas que lhe são dadas.

DR. ESTRANHO é um valiosíssimo acrescento ao panteão de heróis Marvel transpostos para o cinema, memorável em vários sentidos, mas sai um pouco maculado pela sensação de que este primeiro filme existe para ‘distribuir jogo’, preparar a audiência para as sem dúvida determinantes presenças de Stephen Strange em histórias futuras, mesmo em filmes que não em nome próprio. Seja como for, este é já um dos meus preferidos da Marvel/Disney, um que vou querer rever com gosto.

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