quarta-feira, junho 15, 2016

Circunscrever ao Facebook as manifestações de miséria humana é um exercício de optimismo. O problema não é, nem nunca foi, a maneira como as pessoas se comportam, e o que dizem, nesta ou naquela rede social; isso significaria que os energúmenos são apenas virtuais e, como se pode verificar no quotidiano táctil, tal não é verdade. Apedrejamentos públicos por malta com mais gravilha na mão do que massa cinzenta no crânio, vitimizações patéticas e fundamentalismos abjectos, intolerância e ódio, bashing e lambe-scroting (inventei agora; acho o termo apropriado e em português - "lambe-escrotismo" - também funciona bem) já existiam muito antes do Zuckerberg ter enriquecido à conta desta nossa lícita necessidade de dizermos coisas, mesmo quando não temos nada de jeito para dizer.
O que acontece é que, com o Facebook, as intenções, conscientes ou não, tornam-se mais evidentes, assim as queiramos descortinar - e não o fazemos de ânimo leve: olhar ao espelho e vermo-nos nos outros é um golpe rude na ideia infundada de que cada um de nós é único, irrepetível, indispensável.
Tem também, em última análise, a ver com uma ilusão de poder. É sempre muito mais fácil defender um ponto de vista, mesmo não o tendo, quando apenas se corre o risco de uma crítica fundamentada ou idiota, ou de um block, e não de ter uma arma carregada apontada à cabeça, transtorno que, convenhamos, é muito mais incómodo.
As redes sociais servem, acima de tudo, para nos fingirmos civilizados, quando na realidade não somos. E isso nota-se, não só no Facebook, mas especialmente lá fora.


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