segunda-feira, abril 18, 2016


Texto meu, publicado no número de Novembro de 2015 na revista Somos Livros. A frase "A fome, matou-a com a pontuação de frases estudadas, cuspiu na cara dos infractores, governantes de mais nada a não ser de si próprios, exploradores, conspiradores, esclavagistas.", tendo em conta o gesto de Jean Wyllys ontem, fez-me sorrir.

O TEMPO QUE VIAJA NO HOMEM

Deixou-se afogar numa frase. Tinha uma relação íntima com as palavras. Sentindo sede, lia a palavra

Água

escrita numa folha, às vezes sobre a pele, a própria ou a de alguém que pudesse sentir como sua, e desapareciam-lhe todos os desertos do mundo e da boca.

A cada página, um beijo dado, uma montanha escalada, uma estátua erguida. Livros houve que fizeram dele o maior pintor de todos os tempos, mesmo que fora dos livros não fosse capaz de distinguir um traço de uma cor, eram conceitos esquivos.

A fome, matou-a com a pontuação de frases estudadas, cuspiu na cara dos infractores, governantes de mais nada a não ser de si próprios, exploradores, conspiradores, esclavagistas.

Mais que viajar no tempo, fez o tempo viajar em si, foi o primeiro organismo unicelular, a flutuar no líquido amniótico do planeta, um mar de esperanças, de probabilidades, de fantásticos acontecimentos e rotineiras evoluções. Foi a água que nos divide, foi muitos em simultâneo, tempos infinitos e díspares com diferentes traduções, cada caminho uma linguagem. Foi a vitória genética a caminhar sobre a terra e a perfeição aquática que se instala nas profundezas, foi o pássaro que se fez levar pelas correntes aéreas, o azul da natureza na sua etérea condição.

Subiu às árvores e tocou o dia, seguiu a matilha e uivou à lua, os seus dias foram horas que foram séculos que foram milénios, andou de pé, um passo de cada vez, dois apoios sobre o verde, a terra molhada e depois seca, foi o caminho que seguiu, todos os que pôde seguir, não decidiu onde estar, escolheu tudo e o paralelo de tudo. Num frenesi evolutivo, descobriu o fogo. Pedra lascada, inventou a roda, construiu cidades, foi todas elas, os impérios que ergueu, as civilizações que fez cair, foi a agridoce extinção, foi perpétuo. Morreu, renasceu, foi ressurreição e fim trágico, doce, esperado, adiado, inevitável.

Foi povos inteiros em jornada pelos continentes, caminhou sobre as placas tectónicas quando ainda estavam juntas, foi as profundezas, foi o tremor a rasgar o solo, foi a incerteza de gente que se viu afastada, a ânsia do regresso, de uma descoberta, foi fascínio e medo. Foi todos os bravos que atravessam os oceanos para chegar ao outro lado, foi os mares e o chão, foi a brisa que dá a volta ao mundo, foi o próprio planeta, feito de pó das estrelas, foi o sol, todas as constelações, o insecto esmagado na palma da mão, a sua e todas as outras. Foi guerreiro e foi a guerra, o assassino e a vítima, a morte e o choro de todos os bebés, os nascidos e os eternamente por nascer, foi a civilização que grassa e conquista terreno sem dó nem piedade, foi todos os sentimentos que assombram os apaixonados, os prisioneiros, os condenados.

Foi cliente num café de bairro e sentou-se sem exigir nada a ninguém, trouxeram-lhe um copo de água escrita que não soube agradecer, o empregado ficou à espera de um qualquer pedido que nunca veio, um bolo, um galão, um pão de leite misto com um pouco de manteiga, só uma das metades barrada, caprichos do pequeno-almoço ou do lanche a meio da tarde, hábitos que ajudam a matar o tempo e o bicho. Nada, nunca pediu nada, nem silêncio nem outro ruído que não fosse o ocasional estilhaçar de uma chávena no chão ornado de guardanapos e migalhas.

Deixou-se afogar numa frase e esqueceu-a por momentos que duraram uma vida. Quando lhe perguntaram qual era, nunca soube o que dizer. Viveu bem assim, até fechar o livro.

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