segunda-feira, agosto 10, 2015

Levar o quê a sério?

A diferença entre as fotos do "sunset" com frases inspiracionais e algumas campanhas publicitárias é o logotipo da marca lá espetado. Portanto, "levar a amizade a sério" é beber cerveja. Foda-se mais estas campanhas publicitárias. Também há quecas que só acontecem depois de quatro ou cinco whiskies, porque é que ninguém fala disso?
Tretas pseudo-inspiracionais metidas a martelo. Agora, qualquer campanha manhosa a álcool ou telecomunicações vai beber ao Paulo Coelho.
Mas não é só nessas áreas que estas tretas alastram. Numa altura em que grassam o desemprego jovem e os estágios não-remunerados, e receber um pouco mais do que o salário mínimo é um privilégio, a coisa do "vais mudar o mundo" soa vazia e oportunista.
"Diacho, Filipe, porque és tão negativo?" Negativo, o cacete. Não me deixo é endrominar por folk épica e modelos em fato de banho a "celebrarem a juventude". Andam a tentar convencer o pessoal de que "basta querer para ter sucesso". Uma variante do mito do empreendedorismo.

E depois, temos os refrigerantes. Do lado nacional, aquela campanha do optimismo extremo. Do "sermos barrados também quer dizer a noite não acaba aqui". Tipo: "estarmos desempregados também quer dizer oportunidade para começar um negócio próprio". E do lado internacional, aquela coisa do "a aparência não importa, é o que as pessoas são que verdadeiramente interessa". Mas desde quando é que as marcas são arautos de um modelo exemplar de comportamento? Vamos ter multinacionais a dizer-nos como é que devemos comportar-nos? A servir-nos de consciência? Poderão dizer: então mas se não temos modelos na política, na economia, na religião, onde é que vamos buscar referências? Sinceramente, não me parece que seja este o caminho. Se atribuirmos esse papel às multinacionais, não estaremos a minimizar o papel da educação, da formação, do verdadeiro humanismo? Então e os livros? A arte? É a campanha de uma marca de bebida com bolhinhas que me vai ensinar a ser melhor pessoa? Ao beber a bebida com bolhinhas, estou a ser mais sensível aos problemas do mundo? Poupem-me, que daqui a bocado estou a precisar de emborcar meia dúzia de cervejas para esquecer que está tudo maluco.

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