segunda-feira, agosto 18, 2014

Via Miguel Martins, um poema de António Manuel Couto Viana:

RAPINAS RAPACES

Do cerne da calúnia,
As rapinas rapaces
Buscam a morte, o oiro,
Em lascivas caçadas.
Escorre-lhes das presas
O sangue, a amarga lágrima.
Teu fuzil, caçador,
Não as encontra n'alma:
Ocultam-se na terra,
No coração da carne!

Vibram rasteiro voo
As rapinas rapaces,
Nas caves inundadas
De fumo, álcool, escarro.
Na órbita das órbitas,
Roçam balofas asas;
Com duro bico imundo,
Picam luar e graça;
E devoram, com gula,
Meretriz e pederasta.

Na época do cio,
As rapinas rapaces
Aninham-se nos versos,
Espojam-se nas camas,
Toldam, em cada espelho,
As virgens e os rapazes,
Alarmam o silêncio
Das furtivas passadas
E exibem um lençol
De poluídas pragas!

Pelo tempo que não cessa,
As rapinas rapaces
Pairam sobre a cabeça
De crua divindade.
Nada as destrói. Existem
Como hóstia nos altares
E adornam-se de pomba
E cravam-se de farpas
E gemem e suplicam
E morrem e renascem.

Aviso de extermínio,
As rapinas rapaces
Apontam-se com pedras,
Lumes, lixos, espadas
Ou beijos repetidos
Ou águas perturbadas
Ou a mulher de azul
Ou o brinco de prata
Ou o aço do braço
E o cristal da garganta!

Quanto é impuro e atroz
As rapinas rapaces
Arrastam para o ninho
Onde me encontro e canto.
Meu lirismo se afoga
Em palavras..., palavras...
Atinjo a extrema forma
Destruo-me de imagens!
E mordo, com seis dedos,
O ventre da verdade!


António Manuel Couto Viana

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