quinta-feira, agosto 07, 2014

A super-heróistica cinematográfica - Parte 4

Vamos a isto? Vamos a isto.

GUARDIANS OF THE GALAXY É FILME PARA ASSISTIR UMAS BOAS VINTE VEZES NO MESMO DIA, E POUCO IMPORTA QUE O DIA SÓ TENHA 24 HORAS PORQUE NÃO HÁ IMPOSSÍVEIS

Antes de avançarmos, é de pôr a cassete a tocar. Vá lá, eu espero.
A bombar? Perfeito.

Já o disse vezes sem conta: as adaptações para cinema dos universos de super-heróis estão atrasadas qualquer coisa como vinte ou trinta anos em relação ao panorama actual dos comics propriamente ditos. Em especial no que respeita ao tom: a insistência no grim and gritty, que teve o seu expoente máximo em Watchmen (Alan Moore, Dave Gibbons, 1986-1987) e The Dark Knight Returns (Frank Miller, Klaus Janson, Lynn Varley, 1986), encontrou na trilogia do Batman de Christopher Nolan (2005-2012) o seu paralelo cinematográfico. Apesar do sucesso desses três filmes - os dois primeiros, em particular -, mantenho que a tendência para pegar em super-heróis e trazê-los para o mundo real é o caminho errado no tratamento destes imaginários, em especial nos tempos que correm. Não basta fazer um thriller psicológico e de acção, negro e pesado, em que o protagonista é um vingador mascarado. A tradição americana dos super-heróis, em particular na Silver Age (1956-1970), é de levar os leitores para o universo fantástico das personagens apresentadas, e não o contrário. E, hoje em dia - aliás, de há uns anos para cá - deveria mais uma vez ser essa a abordagem a ter quando se retratam super-heróis no grande ecrã.

Felizmente que os filmes dos estúdios Marvel contrariam essa corrente, mesmo o terceiro Homem de Ferro e o segundo Capitão América, com mais negritude do que os seus antecessores mas, ainda assim, detentores de um maravilhoso que é, afinal, a principal característica destes mundos. Exemplo máximo deste equilíbrio: Avengers. Máximo, isto é: até surgir Guardians of the Galaxy.


Porque Guardians of the Galaxy leva o público literalmente para universos distantes, onde o mero quotidiano já tem uma dose de fantástico suficiente para abanar as fundações da nossa cínica realidade. Há uma galáxia inteira em perigo, mas o tom é tudo menos apocalíptico, há boa disposição e esperança num futuro luminoso; mesmo quando tudo parece irremediavelmente perdido, essa esperança está presente em cada frame. E isso, a meu ver, é tudo o que um filme de super-heróis deve ser.

Guardians of the Galaxy é divertido, não se leva demasiado a sério, é herdeiro de uma tradição camp a que James Gunn não é indiferente, ou não viesse ele da mítica fornada da Troma. O seu distorcido sentido de humor assenta que nem uma luva ao riquíssimo universo cósmico da Marvel, onde as ameaças são universais e cada vitória, mais do que um garante desse conceito abstracto que é a justiça, é uma celebração da própria vida.

Consta que Joss Whedon, quando leu o argumento original de James Gunn para estes Guardiões, terá gostado. Mas pediu a Gunn que fosse ainda mais longe: em suma, quaisquer rédeas que Gunn tivesse imposto a si próprio foram atiradas para o lado. O resultado é um filme hilariante, operático, com um sabor a cinema independente - o que, tendo em conta que se está a falar de algo saído da fornada Marvel/Disney - ênfase na Disney - é dizer muito. Um risco monumental, que a Marvel assumiu.

Aposta ganha: público e crítica aderiram a estes personagens e mundos que, para aqueles não familiarizados com o material original, poderiam revelar-se difíceis e herméticos. Os números não mentem: 94 milhões de dólares em box office nos EUA só no fim de semana de estreia, fazendo deste o filme com a terceira abertura mais rentável do ano, e detentor do record absoluto de estreias em Agosto. Estes valores são um sossego para a Marvel e para os fãs, significam que o plano gizado pela Marvel para a Fase 3 das suas adaptações para cinema deste universo comum a tantos franchises tem aqui uma confirmação mais do que evidente. Se, até hoje, a herança de Mark Millar estava bem patente nestes filmes, chega agora a marca indelével do brilhante Jim Starlin, principal criador da faceta mais cósmica da Marvel. Quem está a par dos comics sabe bem onde é que isto tudo vai parar.

Visualmente, este é o filme mais grandioso que a Marvel produziu até agora. Como James Gunn explica no número da Empire dedicado aos Guardiões, depois de Alien ou Blade Runner a estética mais negra tornou-se regra nos filmes de ficção científica. Gunn empenhou-se em devolver ao espaço a cor com que era retratado nos anos 60, chamando Chris Foss, artista responsável por tantas capas de pulps sci-fi dessa década, para auxiliá-lo na tarefa.

O argumento de James Gunn e Nicole Pearlman, a partir das bandas desenhadas de Dan Abnett e Andy Lanning, traz-nos personagens super-marcantes, com uma dinâmica de equipa à prova de bala, diálogos rápidos, fluídos e hilariantes, onde houve até espaço para alguns improvisos - um dos momentos mais divertidos dos Guardiões é fruto de um improviso do irmão de James Gunn, Sean, que ocupou no plateau o lugar de Rocket Racoon (a voz ficaria depois a cargo de Bradley Cooper).

Se agora, provas dadas, é fácil dizer que estes losers espaciais têm cabedal mais do que suficiente para encantar o público geral, antes da estreia eram visíveis os receios de que a estranheza barroca desta faceta da Marvel pudesse afastar espectadores. Depois da estreia, fica provado que o grande público, mais do que preparado, está sedento desta parafernália cósmica.

Há personagens que sobressaem, mas o verdadeiro protagonista é a própria equipa. Guardians of the Galaxy é todo ele virado para o tal futuro luminoso e fantástico, e o pé que assenta na realidade quotidiana que todos conhecemos é tudo menos negro - é uma nostalgia saudável que, em jeito de celebração, e por via da personagem de Peter Quill, aka Star-Lord (Chris Pratt), nos chega servida numa banda sonora vintage, presença terrestre num filme em que a maioria das personagens é alienígena, mas nem por isso menos humana. O Star-Lord de Chris Pratt é herdeiro directo de Harrison Ford, quer como Indiana Jones, quer como Han Solo, e estas referências servem também para fazer com que o espectador menos ambientado com o tom desta saga se sinta em casa.

Guardians of the Galaxy é imperdível, e dizer apenas que se trata do feel good movie of the summer é nem sequer começar a arranhar a superficie. É deste material que os super-heróis são feitos, inspiradores mesmo com todas as suas imperfeições, as suas fragilidades, os seus erros; trazem-nos garantias de um futuro melhor, se nos unirmos para esse objectivo comum. Se não servirem para isso, servem para quê?
(Uma nota final sobre esta série de posts: tinha previsto serem quatro, mas como aqui acabei por não falar da DC, contem com um quinto. Vou tentar escrevê-lo antes de 2020.)

Relacionados:
A super-heroística cinematográfica - Parte 1
A super-heroística cinematográfica - Parte 2
A super-heroística cinematográfica - Parte 3

Sem comentários: