quinta-feira, agosto 07, 2014

A super-heroística cinematográfica - Parte 3

Demorou, não foi? Pois foi, eu sei, este post há muito que devia ter dado à costa, mas o mês passado não foi propriamente parado, e entre as 893739 que tive para fazer não consegui dedicar-me à elevada temática super-heroística no domínio cinematográfico. E porquê agora? Porque vi ontem o maravilhoso Guardians of the Galaxy e decidi escrevinhar algumas linhas sobre o dito.


Só que não posso fazê-lo sem antes debitar alguns considerandos, tal como prometido, acerca do tratamento que a Fox tem dado ao universo Marvel. Por isso, comecemos por estas tardias palavras sobre o último X-Men, e por uma breve passagem sobre o reboot dos Fantastic Four. No próximo post, que chegará ainda hoje, vou então dar conta dos Guardiões. Já disse que é maravilhoso? Pois é, é maravilhoso.
Mas primeiro, então, os mutantes.

X: MEN: DAYS OF FUTURE PAST – DE LONGE O MELHOR FILME DA MALTA MUTANTE

No fundo, este título diz tudo. Bryan Singer fez um trabalho de se lhe tirar o chapéu nos dois primeiros filmes, mas depois veio o terceiro, com Brett Ratner na realização, e foi o desastre que se sabe (na altura, escrevi sobre este verdadeiro acidente de comboio). O argumento foi o principal problema do filme, mas não sei até que ponto é que se pode apontar o dedo só a Simon Kinberg e a Zak Penn: quando colaboram com realizadores não-tarefeiros, fazem um belo trabalho (dito isto, custa-me a acreditar, lendo as entrevistas que tem dado, que Kinberg tenha noção do quão errado é o tratamento que, ao que parece, estão a dar ao reboot dos Fantastic Four; mas já lá iremos). Acredito piamente que Ratner meteu a unha no guião e deu cabo daquela que era suposto ser uma magnífica transposição para o grande ecrã de uma das mais celebradas sagas mutantes. E eis a ponte para Days of Future Past.

Porque se a Dark Phoenix Saga é, porventura, o momento mais alto da narrativa dos X-Men, Days of Future Past não lhe fica muito atrás. Em 1981, Chris Claremont e John Byrne, se não no topo da sua forma, muito lá perto, deram ao mundo dois números de The Uncanny X-Men - mais exactamente o #141 e o #142 - que marcaram o imaginário de todos os que com eles se depararam na altura. As associações com o Terminator de James Cameron são imediatas, mas note-se que o primeiro filme saiu em 1984; portanto, três anos depois do comic (embora conste que o argumento de Terminator tenha sido escrito antes desta saga dos X-Men). A verdade é que para quem, como eu, deu pela primeira vez de caras com esta maravilha por via das edições brasileiras da Abril, aconteceu tudo mais ou menos ao mesmo tempo e, não fosse o universo de X-Men tão bem construído, esperar-se-ia ver Schwarzenegger aparecer a qualquer momento para dar uma cabeçada a Logan, aço da Cyberdyne vs adamantium, havia de ser bonito. Tivesse esta saga sido escrita por Mark Millar na década de 00, ou mesmo agora, e era isso mesmo que teria acontecido. Mas estou a dispersar-me.

Acontece que, sendo Days of Future Past um marco da banda desenhada americana, mundial, muita gente estremeceu com a notícia de que Bryan Singer ia avançar para a sua adaptação ao cinema. Eu, e aqueles como eu, que não gostaram de First Class, tememos o pior.

Após o desaire de Last Stand, a Fox continuou o penoso caminho e não fez um trabalho ao qual se possa tecer louvores. Os filmes do Wolverine são fracos como canas de bambú daquelas fininhas, e a esperança na qualidade de um filme onde Logan teria de voltar ao passado para mudar o curso da História não era mais firme. À partida, e em virtude desta modificação do material original (nos comics, quem regressa ao passado é Kitty Pride), esperava-se mais uma overdose do personagem, como já acontecera, aliás, no segundo X-Men - por melhor que fosse, já quase parecia um filme de Wolverine a solo. Não admira portanto que um dos primeiros pontos a favor de DoFP tenha exactamente a ver com o facto de Wolverine, embora fio condutor da narrativa, tenha neste filme uma presença mais modesta, crucial mas menos imponente e carregado, apesar da importância da sua missão; é protagonista de muitos momentos divertidos que servem para aligeirar o peso de uma história de segregação e extermínio. Contas feitas, é bem capaz de ser o filme onde gostei mais de ver Hugh Jackman a interpretar Logan.

Com um universo muito semelhante ao original, dos comics, mas, ainda assim, com nuances próprias, o universo cinematográfico dos X-Men podia espalhar-se ao comprido, falhando na promessa de fazer jus ao legado inestimável de Claremont e Byrne. A verdade é que acerta na mouche: apesar de uns tantos pecadilhos aqui e ali, dificilmente se conseguiria melhor.

De regresso à realização, Singer soube arquitectar em grande o regresso dos mutantes. Outro grande trunfo do filme é o facto de se passar, em grande parte, nos anos 70. Mais impressionante do que a representação do futuro sombrio que os X-Men têm de evitar, é o rigor da recriação dos EUA em 1973. Adoro a colocação de super-heróis em épocas específicas do passado recente (excepção feita ao já referido First Class); uma das minhas maiores mágoas é que o projecto de Joe Carnahan, de colocar Daredevil na década de 70, nunca tenha visto a luz do dia - dêem uma vista de olhos no sizzle reel.

Um argumento competente (Jane Goldman, Simon Kinberg, e Matthew Vaughn) e interpretações catitas (em especial James McAvoy, como jovem Professor Xavier, e Jennifer Lawrence, como Mystique) fazem de DoFP uma óptima passagem de testemunho do anterior elenco para o novo, apresentado no mais que sofrível First Class. Bónus: Peter Dinklage como Bolivar Trask.

Destaque também para Quicksilver, interpretado por Evan Peters, que tem uma presença breve mas marcante em Days of Future Past. Há uma cena em particular  - quem já viu sabe do que estou a falar - que coloca a fasquia muito alta para as futuras representações de Quicksilver no grande ecrã. Claro que, apesar do elevado grau de catitidade desta versão do velocista mais famoso da Marvel, tenho poucas dúvidas que Joss Whedon o vai conseguir suplantar em Avengers: Age of Ultron, onde Quicksilver é interpretado por Aaron Taylor-Johnson. Há que esperar para ver.

Anunciado para 2016 está X-Men: Apocalypse, baseado em Age of Apocalypse, também esta uma das mais celebradas sagas dos mutantes nos comics. E, a julgar pelo que vimos em DoFP, é de esperar mais um belíssimo ópus das mãos de Bryan Singer e da sua equipa. Para tornar tudo ainda mais apetitoso, diz que grande parte da acção se vai passar nos anos 80. Existem pois razões de sobra para acreditar que o futuro dos X-Men na Fox será risonho.

Ao contrário do Quarteto Fantástico.

'FANTÁSTICO' QUER DIZER EXACTAMENTE O CONTRÁRIO DE 'TERRA-A-TERRA'

Muito rapidamente, porque não faz sentido perder muito tempo com um filme que ainda nem sequer estreou: a sensação é a de que está tudo mal. Já nem falo dos aparentes erros de casting que implicam um distanciamento despropositado do material original dos comics. O mais preocupante é o depoimento dado recentemente pelo argumentista, Simon Kinberg, em que este diz que o reboot dos Fantastic Four vai ser mais 'grounded', mais terra-a-terra. Tendo em conta que este reboot vai ser realizado por Josh Trank, que nos trouxe Chronicle, torna-se fácil adivinhar o tom que o filme terá. E se esse 'terra-a-terra' serviu que nem uma luva à Crónica com argumento de Max Landis, nem de longe nem de perto parece adequado a uma equipa que tem 'Fantástico' no nome, e que se caracteriza por aventuras e viagens a universos que são tudo menos 'terra-a-terra'.

Corre-se o risco de ter algo tão distante de tudo o que faz destes personagens aquilo que são que mais valia dar outro nome qualquer a este filme. Aguardemos pelo ano que vem. Se nos sair algo tão ou mais sofrível que os dois filmes de Tim Story, teremos sempre o deliciosamente mau The Fantastic Four de Oley Sassone e Roger Corman para nos dar o alento possível.

A seguir:
GUARDIANS OF THE GALAXY É FILME PARA ASSISTIR UMAS BOAS VINTE VEZES NO MESMO DIA, E POUCO IMPORTA QUE O DIA SÓ TENHA 24 HORAS PORQUE NÃO HÁ IMPOSSÍVEIS

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