domingo, julho 13, 2014

O azeite dos dias

O azeite - virgem, virgem extra -, tão celebrado, consumido em terras lusas, transbordou, há muito, dos pratos de bacalhau e continua a inundar hábitos, opiniões, gostos e atitudes, dentro e fora das redes sociais. O sentido do ridículo, das prioridades; os interesses e as expectativas, estão mergulhados, qual posta demolhada com alho, grelos, batata e ovo cozido. A estupidificação e o alheamento ganham terreno, alastra a labreguice, o pecos-pecos-substância-zero para conquistar simpatias, adormecer consciências; somos todos parte da desinformação, da contra-informação que nos impingem, atiramos areia para os nossos próprios olhos. Alinhamos neste modelo em que o pão e circo de muitos inunda de azeite os media (azeiteiros) e de lucro alguns poucos. Os alvos da revolta são azeiteiros, o protesto é azeiteiro, e os ninhos vão-se fazendo atrás e à frente das nossas orelhas, banqueiros e políticos, CEO's e directores azeiteiros, chicos-espertos, a levar a eito o bacalhau de muitos pratos, para não dizer - para já - de todos. A banda sonora do fim do mundo está ensopada em azeite, os smartphones são selfiephones encharcados com o azeite das provas de vida tão urgentes que se sobrepõem à própria vivência. Preferia que o azeite se mantivesse no prato, para podermos molhar o pão, côdea, miolo e migalha, encher o bandulho e prepararmo-nos para o dia, desazeitados. Temos azeite derramado sobre nós, escorre-nos pela espinha abaixo, sobe-nos até à moleirinha, entope-nos o coração. Há que tomar um duche, o dia vai adiantado e já se perdeu tempo demais com o azeite dos dias.

Sem comentários: