quinta-feira, junho 26, 2014

A Culpa de Gutenberg - crónica de Fevereiro de 2012

Crónica minha, A Culpa de Gutenberg, Fevereiro de 2012 na revista Os Meus Livros. Não era sobre a selecção nacional, mas podia ser. Aqui fica.



O QUE É NACIONAL NEM SEMPRE É BOM

Há muitas coisas irritantes durante uma crise, o que é o mesmo que dizer que há muitas coisas irritantes na vida. A maior parte delas, das coisas irritantes, têm a ver com as Finanças, a Segurança Social, e as instituições bancárias. Irritante também é a vaga de optimismo desmedido que reage ao discurso derrotista, também ele irritante mas, pelo menos, mais fácil de descartar com um virar de página de jornal, o mudar de canal de televisão, ou o corte de relações com um amigo. As vagas de optimismo, quando levadas ao extremo, são, mais que irritantes, perigosas. São como manuais de auto-ajuda que nos garantem que vai ficar tudo bem, uma pessoa cai mas depois levanta-se, não é?, só para a morte é que não há remédio, isto com calma e paciência tudo se resolve, e, por isso, convidam à inacção. A mudança enquanto coisa que vem ter connosco, hoje mal mas amanhã bem, é a ordem natural das coisas, e não há nada que se possa fazer, por isso mais vale estar quieto e esperar que a manada de búfalos passe a ferro a aldeia para depois ir vasculhar escombros e sacar o que sobrou, porque sobra sempre qualquer coisa mesmo quando não sobra nada, que optimismo irritante.

O optimismo desmedido, em última análise, é tão perigoso quanto o fanatismo religioso. É, à sua maneira, uma espécie de religião, que oferece cegueira embrulhada em esperança, uma fé em que as coisas vão mudar porque isto é mesmo assim e, se olharmos à volta, é só sinais de que isto vai melhorar. Nesse afã de procurar sinais de excelência a torto e a direito, perde-se o critério e começa-se a elogiar aquilo que antes se achava medíocre. Começam os exageros. Que o que é nacional é bom, mesmo quando não é, que se calem os detractores da (inserir actividade à escolha), que em Portugal há excelentes exemplos de (inserir produto, serviço, arte ou especialidade à escolha).

E há, sem dúvida nenhuma. Mas também há para aí muita, muita coisa que não interessa a ninguém, só serve para que os optimistas a defendam com unhas e dentes de cada vez que alguma alma, lúcida, devidamente informada e, acima de tudo, imune à vaga de bota-acimismo (em oposição ao bota-abaixismo), vem dizer que aquele caso concreto é uma miséria e que só serve para baixar a fasquia e distanciar-nos do que presta, do que se destaca, do que precisamos. O optimismo desmedido mata o bom gosto, por mais relativo que seja o ponto de vista adoptado, rebenta com qualquer sentido de estética e põe em risco a ética de trabalho e talento dos que realmente se esforçam. É um facilitismo. Pois que todos os produtos nacionais têm 'direito à vida', sim senhores, com excepção dos já referidos manuais de auto-ajuda (esses, nacionais ou interplanetários, são à partida prova irrefutável de que nas livrarias também se vende banha da cobra), mas não nos deixemos cair em tentação: nem tudo o que é nacional é bom, e ainda bem que assim é. Porque enquanto houver erro, há margem para crescer, enquanto houver coisas más, há espaço de manobra para melhorar, enquanto houver quem não se contente com um rótulo de made in Portugal e queira algo que seja tão bom aqui como em qualquer outra parte do mundo, vive a hipótese de fazer mais e melhor. O que é nacional pode melhorar muito, e a prova disso é que há muita coisa feita por cá que é excelente. Só não acredito que um dia possamos ter um bom serviço nacional de saúde porque, lá está, optimismo desmedido é doença que não me assiste.

FHF, Lisboa
Fevereiro 2012

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