quarta-feira, junho 18, 2014

A Culpa de Gutenberg - crónica de Setembro de 2010

Em Setembro de 2010, no meu espaço A Culpa de Gutenberg na revista Os Meus Livros, escrevi esta crónica sobre essa praga que são os livros de auto-ajuda. Foi a primeira parte de duas, tendo a segunda sido publicada no mês seguinte. Aqui fica então a primeira e amanhã publicarei a segunda.


COMO DETESTAR LIVROS DE AUTO-AJUDA EM DOIS PASSOS
Passo 1: Reconhecer a Fraude

Não conheço canhenho competente na missão de ensinar quem esbraceja na água a safar-se do afogamento, se esse alguém não sabe nadar. E não é com livros, por mais bonecos e gráficos explicativos que possam ter, que se aprende um crawl.

Se acham que a minha palavra nesta matéria - ou em todas, já agora - pouco ou nada vale, façam a experiência. Aproveitem os últimos dias de calor, desloquem-se a uma praia não-vigiada. Arrebitem as orelhas para escutar gritos de socorro, daqueles gorgolejantes, próprios de quem sente a água salgada arranhar-lhe garganta e pulmões. Detectem a vítima e atirem-lhe com "Twice the Hero", a biografia de Johnny Weissmuller. Vão ver o corpo a ser arrastado pela corrente e as bolhinhas a formarem-se na superfície. Eu já o fiz, não aprendi isto em nenhum livro.

O próprio Camões, quando naufragou na foz do Mekong, não foi n'"Os Lusíadas" que encontrou salvação. Na verdade, a obra só o atrapalhou, não lhe bastava ter apenas um olho para detectar a margem, ainda teve de nadar só com uma mão, que a outra estava ocupada a manter seco o manuscrito. Sorte que o poeta já sabia nadar, não tentou aprender auto-ajuda em nenhum livro, guardou o lirismo para outras coisas.

A prepotência obscena deste tipo de publicação, insistente na ideia de que quem precisa de socorro deve ajudar-se, em vez de procurar ajuda, começa logo no título. Tome-se como exemplo "A Arte de Não Fazer Guerra", da autoria de Devanir Arantes. Vem este senhor desdizer o milenar "Arte da Guerra", de Sun Tzu, provavelmente o único livro de auto-ajuda onde se aprende de facto alguma coisa, a par d'"O Príncipe" de Maquiavel. Ora, isto pode parecer preconceito, mas entre um autor chamado Sun Tzu e outro chamado Devanir Arantes, eu deposito a minha confiança naquele com nome mais fácil de pronunciar. E quando espirro nem por sombras me sai nada parecido com Devanir.

(Uma nota breve acerca das obras acima citadas, a de Sun Tzu e a de Maquiavel: refiro-os como livros de auto-ajuda que funcionam - talvez os únicos - porque são autênticos manuais de instruções de como bem lixar o próximo. Nestes casos, a auto-ajuda é uma consequência do que se ensina, não um fim em si mesmo.)

A qualidade das "lições" que os livros de auto-ajuda nos tentam impingir é atroz. Frases do tipo "Quer ser feliz um dia, vingue; quer ser feliz toda a vida, perdoe" foram sem dúvida escritas por quem nunca foi levado para a Casa de Elvas.

Livros de auto-ajuda mascarados de romance são ainda mais assustadores. E neste território Paulo Coelho é senhor absoluto, ao ponto de já ter maculado o soberbo Moebius ao pô-lo a ilustrar uma nova versão d'"O Alquimista". Já não se via um talento tão supimpa a ser usado em função de causa tão vil desde que Luís Figo apoiou a candidatura de José Sócrates.

No próximo mês daremos mais um passo na jornada pela completa abjecção por esta farsa pseudo-literária que são os livros de auto-ajuda. Se entretanto, para ler esta crónica, interromperam a leitura de uma dessas obras menores, resistam à tentação de retomá-la nem que para isso tenham de fazer como o Camões e perder uma vista. Vão ver que ajuda.

FHF
NY, 2010

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