terça-feira, junho 17, 2014

A Culpa de Gutenberg - crónica de Novembro de 2011

Tenho andado a publicar aqui as crónicas A Culpa de Gutenberg, que escrevia para a revista Os Meus Livros. Esta é de Novembro de 2011. Desde então, tenho esquecido alguns livros.


ESQUECER UM LIVRO

Sou muito apegado aos meus livros. Aos livros enquanto objecto. Investi ali muito: sublinhados a lápis, notas nas margens, dobras nos cantos, marcadores que destacam esta ou aquela página. Quando vieram parar às minhas mãos, eram livros; agora são mapas de viagem, diários de bordo.

O lugar de um livro não é numa estante. A sua posição natural não é fechada. Quando entro numa biblioteca, por exemplo, olho para todos os livros alinhados e sinto-os adormecidos. Ursos que hibernam durante os entretantos Invernos da não-leitura. À espera. Acordados – vivos – estão aqueles que se movimentam nas mãos de quem os lê. Um livro numa estante é apenas uma promessa, uma porta por abrir. Depois de entrarmos no livro, e se o mundo encontrado nos causa uma forte impressão, nunca mais de lá saimos. E assim vamos ficando dentro dos livros que lemos, tanto – e, em alguns casos, mais, até – do que eles ficam dentro de nós. Com ou sem sublinhados e notas à margem, que às vezes o caminho que por eles fizemos e fazemos só se marca com pegadas na memória colectiva de nós próprios e do livro.

Há livros-objecto de que não abdico, nunca abdicarei. Mas há outros que – reconheço, mesmo na minha ânsia fetichista de tudo guardar – não faz sentido continuar a manter hibernados nas estantes. Estão presentes na minha memória, contêm orientações, como migalhas de pão à la Hensel e Gretel, pistas rabiscadas a lápis acerca do caminho a tomar (que nem toda a gente se movimenta da mesma forma dentro de um livro), mas já não são objecto de consulta directa, quotidiana nem esporádica.

Um livro, mesmo enquanto objecto, tem espaço para nós, para as personagens, e para mais um número infinito de leitores. Esquecer um livro num sítio qualquer da cidade é um convite. É deixar a porta escancarada com um tapete de boas-vindas a todos os que quiserem entrar e passar a viver ali dentro. Connosco, na memória colectiva de todos os leitores e do livro.

Convido-vos por isso a esquecer um livro. Guardá-lo como algo que vos marcou de forma indelével, mas a deixá-lo algures, convosco lá dentro. Esquecê-lo num banco de jardim, em cima de um marco do correio, no tejadilho de um automóvel. Em qualquer lado onde possa ser encontrado, descoberto, levado e lido.

Esqueçam exemplares com ou sem coordenadas – os tais sublinhados e notas nas margens. Mas, se as tiverem, tanto melhor. Dessa forma, os novos leitores vão poder não só ler o livro que foi escrito mas também o livro que vocês leram. Não é a mesma coisa, como qualquer leitor sabe.

No interior do livro esquecido, na primeira página, escrevam “Este livro foi esquecido por (incluir o vosso nome) em (incluir local) no dia (incluir data)”. Estarão, mais do que a marcar a passagem do livro pelas vossas mãos, a assinalar a passagem das vossas vidas pelo livro, e a convidar outros a fazer o mesmo.

A intenção é disseminar um espólio a ser partilhado e descoberto por novos arqueólogos da escrita que querem mais gente a viver dentro dos livros que também nos acolhem.

À data da publicação desta crónica, conto já ter esquecido três livros. Se os encontrarem, digam qualquer coisa.

E, entretanto, esqueçam também um livro.

FHF
Lisboa, Novembro 2011

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