quinta-feira, junho 19, 2014

A Culpa de Gutenberg - crónica de Outubro de 2010

Aqui fica a segunda parte da minha crónica acerca dos livros de auto-ajuda, publicada originalmente na edição de Outubro de 2010 da revista Os Meus Livros.


COMO DETESTAR LIVROS DE AUTO-AJUDA EM DOIS PASSOS
Passo 2: Ter Mais que Fazer

No mês passado recomendei a todos aqueles que estavam a meio da leitura de um destes canhenhos arrepiantes que o deixassem sossegado até à chegada da segunda crónica dedicada ao tema. Aos que não seguiram este singelo conselho, pergunto: a vossa vida melhorou? Se responderam afirmativamente, reconsiderem – afinal, passaram o último mês da vossa vida agarrados a um livro de auto-ajuda.

Todos os livros deste género que não abrem com a frase “Qualquer semelhança entre o que aqui vem escrito e a realidade é pura coincidência” estão a mentir de forma descarada. O que dizer das publicações que recorrem ao esoterismo? Anjos, espíritos, pedras místicas e pulseiras de energia - vale tudo. O que leva a três perguntas:
- Então mas esta coisa da auto-ajuda não era suposto vir de mim próprio?
- Agora querem pôr-me a falar com o Além e com calhaus mágicos?
- O preço que vem na contracapa é mesmo este?
- Está tudo doido?
(Sim, são quatro perguntas, mas esta última é retórica - se não estivesse tudo doido, não havia tanta gente a depositar fé em livros de auto-ajuda)

 Jesus também é muitas vezes trazido à baila. Veja-se o caso de Alexandra Solnado. Acredito que Jesus converse com ela. O que me custa a acreditar é que haja quem leia o que ela escreve.

Depois há a Mãe de Todos os Livros de Auto-Ajuda, "O Segredo". Aqui o embuste é por demais evidente. Como é que uma técnica de auto-ajuda propagada num mega-bestseller pode ser um segredo?

Lareira, meus amigos. Foi para publicações deste calibre que Ray Bradbury criou Guy Montag e as suas acendalhas.

A farsa da auto-ajuda chegou até a ser apregoada por pessoas que tinhamos em boa conta, até se sairem com pérolas deste calibre: "A diferença entre o possível e o impossível está na vontade humana." A frase é de Louis Pasteur. Falou de barriga farta, cheio de dinheiro até às orelhas por causa da chamada pasteurização, que lhe destruiu não só os microorganismos patogénicos nos alimentos mas também na conta bancária.

John Kennedy também se saíu com uma boa: "Às vezes é preciso parar e olhar para longe, para melhor podermos ver o que está diante de nós". Serviu-lhe de muito esta lucidez. Tivesse olhado para longe em Dallas e talvez visse a bala que vinha a caminho antes que fosse tarde demais.

Até Einstein se deixou apanhar nesta rede quando uma vez disse: "O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário". Caro Einstein, isso é relativo. Uma palavra: herdeiro.

Mas enfim, estes senhores mais do que provaram o seu valor e não devem ser julgados por estes deslizes. A verdadeira ameaça reside nos Rodrigo Romo, nas Barbara Hand Clow e nos Paulo Coelho deste mundo. Melhor fariam em pautar-se por esta frase retirada das próprias bíblias da auto-ajuda, travestida de provérbio popular: "Às vezes é melhor ficares calado e deixares que pensem que és um idiota, do que abrir a boca e não deixar nenhuma dúvida.”

Os que precisam de auxílio e não o encontram nos outros devem começar por seguir este conselho precioso: mantenham-se longe dos livros de auto-ajuda. Quando circularem numa livraria, afastem-se o mais possível das prateleiras deste sub-produto. Acredito piamente neste princípio, é a melhor maneira de prestarem auxílio a vocês próprios. Um dia ainda vou escrever um livro sobre isto.

FHF
NY, 2010

(para lerdes a primeira parte, ide aqui)

Sem comentários: