quarta-feira, junho 04, 2014

A Culpa de Gutenberg - crónica de Março de 2012

Na senda da republicação aqui no blog das minhas crónicas d'A Culpa de Gutenberg na revista Os Meus Livros, e porque está a decorrer a Feira do Livro de Lisboa, deixo-vos com o meu texto de Março de 2012, que tem a ver com isso das recomendações literárias.


MANUAL DE BOLSO DA GUERRILHA LITERÁRIA

Aconselhar ou desaconselhar livros é uma missão importante demais para que a deixemos nas mãos das editoras e das livrarias. Defendo a intervenção directa dos leitores/consumidores na disposição que os livros tomam nas estantes, e acredito na partilha de informações para além dos motes promocionais que enfeitam expositores e cintas. Deixo aqui sete medidas que qualquer leitor pode tomar para influenciar o mercado e tentar evitar o flagelo dos maus livros que são lidos às pazadas.

1) Conte a toda a gente o final de livros que leu e não gostou, para impedir que tenham mais leitores.

2) Conte a toda a gente o final de livros que não leu e não gostou (não é preciso comer uma urtiga para se saber que não é boa), para evitar que tenham mais leitores. Convém, no entanto, ler o final, para não se correr o risco de inventar um que seja melhor que o original, acabando assim por angariar mais leitores, um efeito inverso do pretendido.

3) As duas medidas anteriores ganham uma força acrescida quando são tomadas no terreno, ou seja, nas livrarias. Ao ver alguém levar as mãos a um livro que encaixe numa das categorias acima, conte-lhe imediatamente como acaba. Finja-se muito excitado/a, faça figura de parvo/a o suficiente para que a outra pessoa associe o seu perfil de parvo/a à leitura de canhenhos como aquele, de maneira a que acabe por abandonar a ideia de adquiri-lo.

4) Se não quiser fazer figura de parvo/a, pode optar pela atitude sobranceira, soltando um riso de gozo quando alguém pegar no livro que deseja sabotar. Quando lhe perguntarem porque é que se está a rir, olhe com repulsa para o dito livro e afaste-se dizendo “nada, nada”. Se tudo correr bem, a pessoa vai acabar por pousar o livro enquanto olha à volta para ter a certeza de que mais ninguém a viu a pegar nele.

5) Qualquer uma das medidas acima referidas ganha particular eficácia quando aplicada junto à caixa. É na altura de pagar que o crítico dentro de cada leitor está mais sensível. Mesmo com pouca prática de sabotagem, é fácil, nesta fase, fazer com que alguém olhe uma segunda vez para «O Céu Existe Mesmo», de Todd Burpo e Lynn Vincent, e se pergunte “Mas eu vou mesmo gastar dinheiro nisto?”.

6) Esconder livros que não se gosta deve ser prática constante quando se está numa livraria. Quanto mais casuais forem os gestos envolvidos no processo, maiores são as chances de não se ser detectado. Coloque livros que gostou e que quer recomendar por cima daqueles que acha não interessarem para nada. Mude-os de prateleira e de secção. No caso de livros de auto-ajuda, meta-nos no lixo – é um recado que está a deixar aos responsáveis pela livraria. Se estiver num hipermercado, coloque os livros que não gosta junto das sacas de areia para a caixa de cocó dos gatos. Pode ser que os ditos livros acabem por ser levados para a estante que merecem.

7) Cada vez que se deparar com uma edição nova de um livro, uma que já venha “de acordo com o novo acordo ortográfico”, peça aos funcionários da livraria por uma edição com a “antiga ortografia”. Se não a tiverem, não adquira o livro. Esta medida também é válida para livros que nunca foram editados de acordo com a “antiga ortografia”.

E lembre-se: não se deixe apanhar. Ninguém pode desconfiar do que andamos a fazer. Negue, negue sempre e, se preciso for, diga que nem sabe ler. Ou que adorou o «O Rio das Flores».

FHF
Lisboa, Março 2012

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