quarta-feira, junho 04, 2014

A Culpa de Gutenberg - crónica de Maio de 2011

Diz que a troika se foi, é palavra já caída em desuso. Ainda me lembro de quando chegou, o trio maravilha, estávamos em 2011. Para ajudar na ressaca, ou no simples adeus, até à próxima, deixo-vos aqui a crónica que escrevi em Maio desse ano para revista Os Meus Livros, no meu espaço intitulado A Culpa de Gutenberg.


OS LIVROS QUE A TROIKA LÊ

Troika. Palavra de origem russa. Uma carruagem típica dos séculos XVII a XIX, puxada por três cavalos, atingia os 50 km/h. Estava portanto associada à rapidez. Mas o século é outro. Agora, quando entra a troika, a velocidade abranda.

Há palavras que nos entram pelo vocabulário adentro, sem pedir licença. Não percebemos muito bem como, de repente estamos a usá-las a torto e a direito. Ainda ontem nem nunca as tínhamos ouvido, há pouco não fazíamos ideia do que significavam, e agora não passamos sem elas.

Normalmente têm a letra “k” lá pelo meio e operam à margem de qualquer acordo ortográfico. Tão fortes que substituem por completo o anterior nome do – digamos – animal. Podemos não ter consciência disso, mas a verdade é que, por causa destas recém-chegadas, há outras que deixam de usar-se. É geracional, porque hoje em dia há palavras dessas com tamanhas barbas que mal se dá por elas no meio de tanta pilosidade. Mas durante muito tempo berbequim passou a ser black and decker, e um maternal “veste o impermeável, olha que está a chover” passou a “veste o kispo, olha o que chove”.

Nos últimos meses, surgiu mais uma. Não fura a parede como o black and decker, embora seja suposto salvar o país do buraco. Não protege da chuva, mas parece que vai estender uma folha de jornal sobre o sem-abrigo em que se tornou Portugal. Um sem-abrigo numa cadeira de jardim à beira-mar plantado.

Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia: os três quadrúpedes que puxam a carruagem do resgate financeiro ao nosso país. Poul Thomsom, Rasmus Ruffer e Jurgen Kroeger, três nomes e apelidos escanifobéticos demais para entrarem no vocabulário do dia-a-dia, apesar de um deles ter um “k”. Um triunvirato que ganha honras de repetição diária nos lábios de tudo o que é político, economista, jornalista, cronista, senhora idosa que passa as tardes a comer duchesses e a beber galões na pastelaria da rua, na forma desse vocábulo simples e aglutinador que é troika.

Cuspido por uns, mastigado por outros, dito a medo por alguns, com respeito por poucos. Tem aquela característica das palavras fortes e novas que facilmente assentam arraiais no nosso palavreado quotidiano: podem não só ser ditas com todas as inflexões possíveis, mas também – este sim, um dom comum a poucas – ser ditas sem nenhuma inflexão. Porque nunca se sabe realmente o que significa. O que é a troika? Quem se esconde por trás daqueles fatos xpto?

De currículo em currículo, como quem inspecciona os bolsos de um kispo, lá se vai decifrando a troika. “São os senhores do mundo”, ouvi um velhote dizer na TV. Deus ganha nova um novo nome e desta vez tem “k”. Se é verdade que temos os Senhores do Mundo a pisar calçada portuguesa, exige-se deles um conhecimento mais profundo.

Mário Crespo tem de entrevistar a troika. João Baião e Tânia Ribas têm de falar com a troika, a Júlia Pinheiro tem de conversar com a troika. Daniel Oliveira tem de perguntar à troika “o que dizem os teus olhos?”. Francisco José Viegas, João Morales e a Oprah têm de nos falar dos livros que a troika lê. Sem ser os de tabuadas, esses já a gente supõe que eles tenham lido e escrito todos; os livros de ficção, de poesia, de banda desenhada.

Saber os autores favoritos dos Senhores do Mundo é o mínimo indispensável para se poder adormecer em relativa paz todas as noites. Até ao dia em que a troika kaput e cair no desuso dos black and deckers e kispos.

FHF
Lisboa, Maio 2011

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