sexta-feira, maio 23, 2014

A super-heroística cinematográfica - Parte 2

Preparados? Vamos a isso.

EU SOU DO TEMPO EM QUE A TRILOGIA DO RAIMI PARECIA BOA, MESMO QUE O ÚLTIMO FOSSE UM DESASTRE

Na última Páscoa, a minha Vida de Cristo Morgado foi o Spider-Man 2 de Sam Raimi, e não queria acreditar no quanto aquilo me parecia mau. A estética, única, de Raimi, continua brilhante, mas o argumento de Alfred Gough e Miles Millar pareceu-me descosido, forçado, também muito por culpa daqueles evidentes erros de casting que foram Tobey Maguire e Kirsten Dunst, que não oferecem credibilidade a nada daquilo. Junte-se a isto o deslocado Green Goblin de Willem Dafoe, um James Franco claramente fora do seu território e sem conseguir dar mais, um desastroso terceiro filme, e só nos resta Alfred Molina a dar continuada dignidade ao projecto. Não me interpretem mal: quando saíram, os dois primeiros Aranhas de Raimi fizeram as minhas maravilhas, e as de fãs pelo mundo inteiro, mas os tempos eram outros. A alegria de ver, finalmente, o Homem-Aranha a ter um tratamento digno no grande ecrã, sobrepôs-se a todos estes erros de casting e falhas narrativas. Com tanto eye candy, e algumas (muitas) cenas emblemáticas que quase (quase!) faziam esquecer que Tobey Maguire era tremendamente errado para o papel que estava a desempenhar, os dois primeiros capítulos de Raimi foram elevados a píncaros que, com o passar do tempo e o aparecimento de portentos como Iron Man, desabaram e deixaram a primeira trilogia bastantes degraus abaixo daquilo que ocupava anteriormente. O desastroso terceiro capítulo encarregou-se de encerrar os estragos.

Razões mais do que suficientes para justificar o reboot às mãos de Marc Webb. Ainda bem que aconteceu, porque Andrew Garfield é o Peter Parker perfeito, dentro e fora do uniforme, e a química que tem com Emma Stone é evidente deste o primeiro frame (são, aliás, um casal na vida real).

O primeiro Amazing Spider-Man concenceu-me, apesar da assinalada pobreza de CGI, em especial no tratamento dado ao vilão de serviço, o lagartácio dos nossos corações (não, não estou a falar de bola, concentrem-se). Também o fato do aranhiço foi alvo de criticas. Mas a produção deu ouvidos aos fãzocas, e aqueles que foram os maiores problemas do primeiro filme foram corrigidos neste segundo. Claro que vieram outros.


Amazing Spider-Man 2 permanece empenhado na criação de uma mitologia própria, em grande parte inspirada no universo Ultimate. Mas com tanto que querem tratar num só capítulo, acabam por debitar muita informação e não dar o devido tempo de ecrã e tratamento a acontecimentos que, por si só, isolados, justificariam um filme. Daí aquela sensação de que este último Aranha merecia, digamos, mais uma hora, para que todos os plots fossem devidamente explorados. Chegou-se ao ponto de ficarem de fora acontecimentos importantes que apareceram nos trailers, mas que acabaram “no chão da sala de edição”. Não vou enveredar por spoilers, pois acredito que ainda há muita gente que me lê e que ainda não viu o filme, mas é exactamente depois do clímax deste segundo ópus que os problemas de argumento mais se fazem sentir – a sensação que fica é que foi tudo a despachar. Diga-se, no entanto, em abono da verdade: o carácter inspiracional dá aqui um passo maior, com um final que faz deste Aranhiço 2 o ingénuo balão de oxigénio que um planeta desgastado de motivação como o nosso precisa. Vale o que vale, mas é destas coisas que – quero acreditar – se faz a magia dos universos fantásticos desta gente que, por definição, tenta fazer do mundo um lugar melhor ao mesmo tempo que usa fatos spandex. Super-heróis, portanto.

Posto isto, há que dizer: que grande filme. Não teve o impacto merecido no box office, mas ofereceu uma belíssima representação de todos os personagens, um entendimento correcto de cada um deles. O casting, quando pensamos em Jamie Foxx, volta a estar no ponto: eis um Electro inesquecível que, junto com o Aranha, e tendo como cenário Times Square, oferece uma das mais fantásticas cenas de acção de que há memória. Como que para se desforrar de todas as criticas em relação à pobreza do CGI do filme anterior, The Amazing Spider-Man 2 oferece um magnifico festival de efeitos visuais, carrossel maior do que um filme de super-heróis deve ser, sempre com uma ressonância enorme ao nível emocional, desgraça dos personagens e deleite do público com olhos de ver, coração para sentir, essas coisas. Só pela extrema dignidade e aparato com que aqui se representa um dos mais emblemáticos capítulos da vida do aracnídeo, este filme merece um lugar no panteão.

Com todos os seus defeitos, Amazing Spider-Man 2 mete no sapato qualquer um dos capítulos assinados por Sam Raimi. E a ideia de criar um universo cinematográfico, tratada com maestria pela Disney/Marvel Studios, vai ser replicada pela Sony: aguardam-se spin offs com fartura, desde Sinister Six a Venom. Sony no bom caminho, portanto. A ver se não estragam tudo. Dedos cruzados.

Vamos então à Fox.

A seguir, PARTE 3 - X: MEN: DAYS OF FUTURE PAST – DE LONGE O MELHOR FILME DA MALTA MUTANTE

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