domingo, fevereiro 26, 2012

Hugo e o Artista


Disse o Miguel Gomes, enquanto aceitava em Berlim o Prémio da Crítica pelo seu Tabu (que ainda não tive oportunidade de ver), que o cinema não precisa de homenagens. E assim é, quer parecer-me, com excepção de alguns críticos da Sétima Arte, que precisam. E muito. Há uma ânsia de colocar o epíteto de "homenagem ao cinema" a todo o filme que tenha como contexto o próprio, e/ou que se revista de pastiches de velhos clássicos. Filmes como A Invenção de Hugo, ou O Artista, têm como valor adicional, para este tipo de críticos, o facto de lhes dar a oportunidade de exibirem os seus conhecimentos cinematográficos, o seu olho para detectar as piscadelas do mesmo que o autor deu a obras maiores, seminais.

Só isso explica o frenesim à volta d'A Invenção de Hugo, filme supimpíssimo (termo técnico), sem dúvida, repleto de bons momentos, muito bem filmado, mas que, para além dos valores acima referidos, mais uma excelente utilização do 3D, pouco mais conteúdo tem para merecer uma genuflexão. O grande valor deste filme de Martin Scorsese, para mim, é conter a melhor representação da ponte entre a Magia e o Cinema desde The Prestige - O Terceiro Passo, de Christopher Nolan (e, reparem - apesar de não ser um crítico de cinema, também estou a aproveitar para debitar umas referências vindas do baú dos meus parcos conhecimentos; A Invenção de Hugo provoca este efeito). Mas mesmo essa esbarra, por comparação, com a sequência inicial d'O Artista, que imediatamente me levou a desejar voltar aos tempos em que, numa sala de cinema, a orquestra que fazia a banda sonora do filme não era a de telemóveis, conversetas e pipoquedo. Hoje em dia, sessão que não tenha esta música de parvoíce e milho a acompanhá-la, só acontece por magia.
A Invenção de Hugo é um óptimo filme, com tanto de óbvio como de surpreendente, mas nunca, mesmo com a belíssima interpretação de Ben Kingsley, atinge um patamar emocional comparável ao de O Artista. Cada cena do filme de Michel Hazanavicius é uma deliciosa cataplana de ideias frescas do que o cinema foi, é, e poderá vir a ser, profundamente emocional, inteligente e apenas ingénuo à superfície. A interpretação de Jean Dujardin é arrebatadora desde o primeiro instante e, apesar de retratar uma estrela do cinema mudo, este actor é de tal maneira multifacetado que oferece, a cada frame, inúmeras dimensões ao seu personagem, muito para além da terceira.

1 comentário:

Táxi Pluvioso disse...

Os Oscares são muito importantes, servem-me de critério para os filmes que não irei ver. Cinema é um pretexto para mostrar a atriz principal nua, só os realizadores franceses perceberam isso. boa semana