sexta-feira, abril 29, 2011

Tudo em aberto


Foi há quase um ano que o Francisco Frazão, programador de teatro da Culturgest, teve a amabilidade de me convidar a escrever uma peça para a edição de 2011 do PANOS. Para quem não sabe, PANOS - palcos novos palavras novas - é um projecto da Culturgest que alia o teatro escolar/juvenil às novas dramaturgias, inspirando-se no programa Connections do National Theatre de Londres. Todos os anos há peças novas escritas de propósito para serem representadas por grupos escolares ou de teatro juvenil. A hipótese de uma peça da minha autoria ter diversas encenações e apresentações - por vezes simultâneas - por todo o país, adivinhava-se gratificante. Mas quando comecei a escrever não fazia ideia do quão realmente gratificante seria. E ainda não o faço, porque tudo isto só agora está a começar.


Comecei a escrevê-la ainda estava em Nova York e, talvez influenciado por essa distância, por lá estar a estudar, e pela média de idades dos jovens actores para quem sabia ir escrever a peça, a história surgiu-me naturalmente. Intitulei-a Dentro de Mim Fora Daqui. Terminei-a já em Lisboa, em meados de Outubro, depois de uma conversa com o Francisco que muito me ajudou a clarificar as intenções que fui descobrindo à medida que a ia escrevendo. Relendo-a hoje, meses depois, intensos e carregados de mudança meses depois, verifico que dificilmente poderia ser mais actual. O texto tornou-se - não 'apenas' mas também, creio - numa espécie de retrato (torcido e distorcido) das gerações mais novas nos dias de hoje, apesar de escrito num contexto pré-12 de Março, se é que me faço entender. E se não faço, lamento, mas não consigo explicar melhor que isto sem revelar muito da peça, coisa que quero evitar. Senti como se a História tivesse ido ao encontro da minha ficção; e não pensem que estou a armar ao pingarelho nem a gabar-me à parva, pelo contrário, isto só prova a minha desatenção - fiquei admirado por, na realidade, estar tudo a descambar de uma maneira que eu só podia supôr existir num registo ficcional, uma situação limite em que eu queria colocar os personagens. Ou talvez que esteja apenas a ter vistas curtas ao julgar reconhecer nos últimos meses um contexto diferente daquele de há um ano. Afinal, como diria o filósofo Pangloss do Cândido de Voltaire, não estávamos já a viver no melhor dos mundos possíveis?

Pensar sobre o texto nestes termos, e já depois de o ter finalizado, foi acção provocada pelo workshop de Novembro, com representantes de dezenas de escolas e grupos de teatro juvenil de vários pontos do país que, entre alunos e professores, encheram uma enorme sala de ensaios da Culturgest e colocaram-me perguntas acerca do texto, do que realmente estava em causa. Escusei-me a respostas porque também não sabia, teriam de perguntar aos personagens. E, mesmo esses, eu tinha dúvidas que soubessem responder. A discussão dramatúrgica foi altamente estimulante, sob a batuta do grande Gonçalo Waddington que muita alegria me deu ao aceitar o convite para dirigir os três dias de workshop. Deste caminho de exercícios e conversas nasceram diferentes propostas de encenação, embriões das abordagens mais variadas, tantas quantos os grupos de teatro que já apresentaram ou que ainda vão apresentar a peça que escrevi.

Foi durante este fim de semana que comecei a perceber o quão gratificante esta peça se revelaria. A hipótese de ter tanta gente como que a decifrar o meu texto, dando-o como fechado, a tentar entendê-lo ao pormenor, a discuti-lo e descobri-lo, da forma enérgica e focada como todos os presentes fizeram, foi um raro privilégio. É um raro privilégio para qualquer autor vivo. Se não por tudo o resto, só o facto de ter tido esta oportunidade seria razão mais do que suficiente para agradecer ao Francisco Frazão o convite para participar na edição do PANOS deste ano.

E para deixar um obrigado imenso a todas as escolas e grupos de teatro juvenil, alunos e professores, que escolheram a minha peça de entre as três disponíveis, por terem dado tanto do seu tempo, talento, esforço, energia, dedicação a este projecto. Por terem vindo, alguns de tão longe, e me terem ajudado - e ajudarão ainda mais, é certo, a cada diferente encenação que assistir - a compreender uma peça que escrevi mas que só comecei a descobrir depois de vos ouvir falar dela. Desejo a todos as maiores felicidades. Como escrevi a certa altura na peça, "tudo em aberto".

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