Pelo saiote de Sif - fui ver Thor

O Thor realizado por Kenneth Branagh não é - e para usar a terminologia meteorológica adequado ao tema - uma arrasadora chuva de granizo como a que caiu hoje em Benfica, mas também não é uma brisa insalubre, a convidar à indeferença. A história composta por J. Michael Straczynki e Mark Protosevich consegue reunir o melhor da versão Lee/Kirby e um pouco (infelizmente não o melhor) da versão renovada de Mark Millar em The Ultimates.
O que a Marvel está a fazer, criando um tom coerente e um universo comum a todos os seus personagens dentro do cinema tal como acontece nos comics (espera-se uma primeira apoteose com The Avengers de Joss Whedon no ano que vem), é o que de mais parecido temos hoje em dia com os velhinhos film serials. Alie-se a isso uma noção mais ou menos clara do que é necessário para conseguir uma eficaz e honesta obra de entretenimento (apogeu: o primeiro Iron Man; vénias a Favreau e Robert Downey Jr.), e tem-se já razões de sobra para querer assistir a cada um dos filmes da Marvel agendados para os próximos tempos.
Thor tem momentos emocionantes, cómicos, e leva-nos com um descomprometimento que não se esperaria de um filme dedicado ao dito deus do trovão, mas que não choca qualquer um que se aproxime do mesmo sem ir à espera de um tratado freudiano, shakesperiano, profundo, épico, transformador. Freud anda por lá, mas só arranha, Shakespeare proporia mudanças de estrutura e diálogo, mas seriam recusadas pelo produtor. Para quem quiser material com estas características, não se dirija a uma sala de cinema para assistir ao que é, afinal de contas, uma adaptação de um comic, um ícone da cultura pop já reinventado por diversas vezes, que chega ao cinema com um património tal que permite (exige, talvez) uma abordagem mais-do-que-pós-moderna.
As críticas, essas sim insalubres, como a brisa de que falava há pouco, que se fazem aos filmes da Marvel, assim como os elogios deslumbrados e ingénuos feitos aos Batman de Christopher Nolan (DC Comics), só fortalecem a minha convicção de que, em termos de adaptações de comics ao cinema, o último está atrasado em quase três décadas em relação ao primeiro, pelo menos em relação a conteúdo. Nesse ponto, o problema vai muito para além do universo das adaptações cinematográficas de comics. Está, a meu ver, relacionado com a - chamemos-lhe assim - mainstreamização, a busca de um público transversal (tema a desenvolver numa próxima oportunidade). No que respeita à forma, parece-me que não podia haver melhor altura para algumas destas adaptações. E já que falo dos aspectos técnicos - o 3D, sem ser arrebatador, cumpre a sua função.
Pelas barbaças de Odin, ide ver Thor porque existe ali bom gosto, com o seu quê de piroselho aqui e ali, sim, mas passa, o que é mais do que se pode dizer de muitos filmes. Em querendo dizer mal, comecem assim: por alguma razão o Odin de Anthony Hopkins não tem a barba muito comprida - de outra maneira, ficava-lhe a cair no balde das pipocas. Não o vão conseguir dizer como se isso fosse um problema. Vão estar a sorrir. Não por causa desta piada estólida, mas porque acabaram de ver um filme que provoca esse efeito.
Last but not least, tem Natalie Portman.


2 comentários:
Andava à procura de uma crítica, já a tenho. A vontade de ir ver o filme mantém-se. Por isso, obrigado. =)
Palpita-me que é capaz de ser o melhor desta sequência de filmes dos Ultimates/Avengers. Continuo ansioso por ver o filme, obrigado pela celeridade na crítica.
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