sexta-feira, março 05, 2010

Quando vi os cartazes e achei o Chapeleiro Louco parecido com o bacaninho do Cirque du Soleil, devia ter percebido logo que vinha aí trovoada

Ai é exagero? Então vejam isto --


-- e agora olhem para isto sem chorar:

Eu queria tanto, tanto gostar deste filme. Mas o Mick continua coberto de razão quando canta you can't always get what you want. Acabei por conseguir ir à antestreia de Alice. Como afirmei odiar todos os que tinham convites para supímpico evento, e em louvor de uma certa coerência que não mantenho em todos os aspectos da vidinha, admito o ataque de urticária abjeccionista. Passou rápido, diga-se, e lá estava eu pronto para adorar a película.

Poderão argumentar: Filippetti, mas não terão sido as elevadíssimas expectativas que depositavas na coisa o verdadeiro motivo para a desilusão que sentiste depois de ver a coisa em si? E eu respondo: primeiro, não me chamo Filippetti; depois, embirro com a utilização excessiva da palavra 'coisa'; por último, deixem lá isso das expectativas - o filme não tem alma, seja qual for o grau de expectativa que se ponha na coisa.

Ler Alice no País das Maravilhas quando era criança fez-me sentir adulto de uma maneira que nunca me senti depois de adulto. Relê-lo na idade adulta fez-me sentir uma criança como de certeza não fui, mas imagino ter sido, tal é o poder transformador do livro. Ver a Alice no País das Maravilhas de Tim Burton fez-me sentir sono.

A palavra 'irresponsabilidade' veio-me por diversas vezes à cabeça durante a sessão. Quanto mais não fosse, este filme não podia ser indiferente ao facto de vivermos numa era pós-Coraline. Nada justifica que um reavivar do panteão carrolliano se traduza numa história simplista de 'coming of age' digna de um telefilme de domingo à tarde. Daqueles da Disney, como também é o caso de Alice.

É um catálogo em movimento de belíssimos pósteres para pendurar nas paredes e de action figures com um alto índice de catitidade que vão servir para tirar espaço a coleccionadores de memorabilia e engordar os cofres da Disney. Nada contra, digo eu, babado possuidor de tudo o quem tem a ver com a criação de Lewis Carroll, de dezenas de edições de Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro Lado do Espelho, em tantas línguas quantas as dos países que visitei e dos visitados por pessoas que conheço. Pessoas essas que passam automaticamente à categoria de meus amigos caso me tragam edições nativas dessas paragens remotas. Só que do aparato visual à envolvência com a história e os personagens vai uma distância tão grande quanto a que separa o Tim Burton que eu gosto deste que fez Alice.

E, já agora, aquilo dos belíssimos pósteres - olhem outra vez para o cartaz em que aparece Johnny Depp como Chapeleiro Louco. Nem precisam de ver o outro, apenas digam mentalmente: 'Cirque du Soleil'. Agora vejam lá se ainda conseguem pendurá-lo na sala. Talvez, se forem uma das garbosas moças que soltavam risinhos e batiam palminhas, palminhas, de cada vez que o Depp aparecia na tela, ainda que estivesse a fazer o mesmo papel que anda a fazer nos últimos 5356 anos. Ou então se gostaram muito do Quidam. Mas se for esse o caso, a gente escusa de falar mais sobre isso. Para não criar mau ambiente.

A Mia Wasikowska, tão Alice que está nos trailers, porque não fala, quando o faz no filme parece enfadada com os diálogos que lhe deram para interpretar, tal é a falta de foco e a leveza-Disney de um argumento que não dá o devido valor ao património carrolliano e se mostra pouco inspirado para concretizar a renovação mitológica a que se propõe. Contracenar com actores metidos em fatos verdes para depois levar animação por cima e bicharada que só é acrescentada em pós-produção também não ajudou a moça. Talvez que a tenra idade ainda não lhe tenha trazido o cinismo de, por exemplo, uma Helena Bonham Carter - das poucas notas positivas deste País das Maravilhas-'Tá-Bem-'Tá-Maravilhas-Pois -, que foi aos píncaros de uma Red Queen memorável apesar de ser bastante provável que também estivesse a achar tudo aquilo um aborrecimento dos granjolas. Aplausos também para Matt Lucas, duplicado como Tweedledee e Tweedledum, os dois bonecos que eu mais quero ter na prateleira da sala.

Vêem? Eu digo mal mas também vou dar guitinha à Disney. E porquê? Porque tudo aquilo é um anúncio sofisticado, a dizer 'Agora vais ali à Fnac ou isso e compras esta bonecada toda e estas edições novas da Alice'. E eu vou, porque sou muito influenciável e porque sou tão fã da obra de Carroll que até vou adquirir um dvd deste filme, apesar de achá-lo tão raso como a linha do meu batimento cardíaco durante momentos em que não queria acreditar no que estava a ver, um filme sem pinga do absurdo que me faz adorar os livros (uma lebre a arremesar chávenas contra as cabeças de meio-mundo e uma adivinha obscura repetida até à exaustão pelo Chapeleiro não são, nem de longe nem de perto, suficientes).

As personagens são desinteressantes, o que é incompreensível quando se pensa no material original, com tamanha fata de dimensão que, de alguma forma, até terão tirado uma ou duas das três em que o filme é suposto ser exibido. Isto porque o Real 3D aqui também sofre muito a nível de ser alguma coisa de jeito. O que só prova que o domínio do 3D não é só uma questão técnica e vem acrescentar valor artístico a essa pérola que é Avatar. Pérola, sim. De ostra gorda. Esse sim, é uma Maravilha de filme.

Danny Elfman. Li que a música que fez para Alice concretizava o mui aguardado regresso ao nível que o celebrizou. Não me lembro onde li isto, assim como não me lembro do último score de Elfman de que não me tenha esquecido imediatamante após o filme acabar. Da música que fez para Alice não posso falar - não me lembro.

Para fechar, mais uma nota, acerca da tradução: Rarrazoado? Mas que necessidade houve de traduzir Jabberwocky para Rarrazoado? Também aparece assim nas novas edições da Alice que invadem as lojas? É que não me apetecia nada adquirir edições com Rarrazoado escrito. Vou fazê-lo, porque sou um fraco. Mas não me apetecia.

5 comentários:

Hugo disse...

Também passei boa parte do filme a tentar perceber a tradução daqueles nomes. Rarrazoado? Banderpega?
Só à saída, quem me acompanhou me explicou que vinha da tradução da Relógio d'Água duma sra. chamada Margarida Vale do Gato. Como se chega de Jabberwockky a Rarrazoado ultrapassa-me completamente. Por que não, já agora, o Jaguadarte do Augusto de Campos? Ou qualquer outro neologismo?
Enfim...
E confesso que não me tinha lembrado do Cirque du Soleil mas sim da Maddonna com o dentinho afastado e tudo. E lembrar-me da Maddonna nunca pode augurar nada de bom :(

o lavagante disse...

Fillipeti (x'D) fiquei KO com isto! Ainda não vi e agora??? Agora vou cheia de "minhocas na cabeça"...:( de facto, pelo menos das imagens que vi, não me tinha lembrado do Quidam..nem da Madonna sendo que lembrar-me da Madonna já diz o Hugo não é, nunca, uma boa "cena". Enfim. Vou ver mas já vou triste! Logo eu que adoro o Tim :(

Anónimo disse...

... ainda bem que isso é apenas a tua opiniao.. porque a minha é: O filme é fantastico! Os personagens estao bem criativos, isso de associarem a separaçao de dentes á madonna... é estupido. nao tenho nada contra isso mas agora iam deixar de fazer personagens com separaçao nos dentes so porque há umas quantas pessoas que associam isso á Madonna...!!
esse cartaz do Cirque du Soleil.. nao tem mesmo NADAAA a ver!!

mas pronto... sao opinioes...

PRF - Traços Gerais disse...

Muito bom! Depois desta descrição acho que vou ver este filme em DVD (pirata), não vale uma ida ao cinema. O coiso Burton já tinha descarrilado no Planeta dos Macacos. Fez não sei quantas obras primas, mas só me lembro da porcaria do planeta dos macacos. Também achei o Avatar uma pérola de ostra gorda.

Abraço

Anónimo disse...

Também eu queria gostar do filme,mas não encontrei lá o Sr Burton,e a Alice tem estado mais presente em filmes alheios que no seu próprio,a voz do Jabberwockky pelo Christopher Lee e a prestação da Helena Boham Carter como Red Queen foram as únicas coisas que me fizeram esboçar um sorriso(culpa de um argumento fraquinho e cheio de clichés)!Será que a nova massa de fâs «burtonianos» a.k.a. geração morangos com açucar, gosta de filmes como o Ed Wood ou o Sleepy Hollow?!