Sexta-feira, Dezembro 11, 2009

Curiua-Catu

Ontem em Brasília, os senadores brasileiros finalmente deram sinais de querer reavivar a memória, com uma série de iniciativas onde se procura celebrar e divulgar a subida do rio Amazonas por Pedro Teixeira, navegador natural de Cantanhede, numa viagem épica que nos esforçámos por recriar em 2002.

Floresta amazónica. Nas margens do rio Iriri, fomos acolhidos pelos Ugurogmo, índios que nos receberam com a curiosidade de quem tinha tido o primeiro e único contacto com outros que não os da sua tribo há apenas dezasseis anos. Sentimento recíproco, visto que para mim, e para toda a equipa de rodagem, era a primeira vez que estávamos, por assim dizer, dentro de um documentário do National Geographic. Nada mais lógico: afinal, estávamos a rodar um; não para o NG, mas para a TV Cultura, co-produtora do docudrama Curiua-Catu - A Grande Expedição de Pedro Teixeira, em que procurámos então contar a aventura desse herói esquecido, ausente dos livros de História e dos manuais escolares.

Passámos lá mais de um mês. Dei conta, tanto quanto possível, do forte impacto que a viagem teve para todos nós que lá estivemos, num relato para o programa A História Devida, relato esse que depois publiquei aqui. Uma das coisas que observei, e que tenho constatado de forma sistemática a cada trabalho que me leva a pesquisar mais fundo na História da Amazónia, foi o carácter fantasioso indissociável da História da época. Se é verdade que o Lendário anda muitas vezes de mãos dadas com a História estejamos nós em que parte do mundo estivermos (“A História é uma fábula sobre a qual se chegou a um acordo”, escreveu Voltaire), no Brasil - e no Pará e Amazónia em particular - Lenda e Facto andam ao colo um do outro.

A subida do rio Amazonas por Pedro Teixeira (o 'homem branco bom e amigo', ou Curiua-Catu, como era conhecido pelos índios Tupinambá) e que teve como consequência última a conquista para a Coroa Portuguesa de qualquer coisa como 62% da floresta amazónica, é recheada de narrativas fantásticas, próprias do imaginário índio e caboclo. O que verificámos durante a rodagem de Curiua-Catu é que Pedro Teixeira estava ausente dos manuais de História, sem o merecido lugar de destaque pelo impacto da sua expedição, mas vivia nas narrativas e no folclore da região, ao lado do Boto, a Iara e demais Encantarias, seres míticos que habitam as profundezas do Amazonas.

Tenho grande curiosidade em ver que tipo de actividades, programas ou publicações virão em consequência das homenagens previstas a Pedro Teixeira, e de que maneira será abordada a sua façanha. Limitar o acontecimento às repercussões territoriais é converter para preto-e-branco uma narrativa colorida pelo Lendário, parte integrante da visão e leitura que no Pará e na Amazónia se tem e faz do mundo. É tão forte esta convicção que o nosso docudrama não descurou o carácter mítico que envolve grande parte do relato da expedição: antes o sublimou, numa tentativa de passar a sensação de maravilhamento que se tem ao navegar pelo Amazonas e ao contactar com as tribos indígenas; mais ainda no século XVI, em que aquele Mundo era ainda mais Novo, estranho, sobrenatural, e os métodos para entendê-lo e decifrá-lo, neste primeiro contacto, nem sempre se pautavam pela lógica ou pela ciência, mercê da ausência de referências quer dos europeus, quer dos índios. Fico contente ao perceber que este navegador terá, ao que tudo indica, o destaque que lhe é há muito devido por Portugal e pelo Brasil, e mais contente ficarei se, nesta nova viagem que faz agora no conhecimento de todos aqueles que nunca antes tinham tido contacto com este personagem (se tivessem visto o nosso doc já não eram apanhados de surpresa), Pedro Teixeira continuar a navegar acompanhado pelas Encantarias.

Curiua-Catu - A Grande Expedição de Pedro Teixeira foi exibido por diversas vezes na TV Cultura, Brasil, e por cá passou há uns anos na SIC Notícias. O primeiro minuto e meio desta reportagem que dá conta do projecto-lei em curso no Congresso Federal, e que propõe a inclusão do nome de Pedro Teixeira no Panteão dos Heróis Nacionais e nos manuais escolares brasileiros, é com imagens do nosso documentário:

2 comentários:

cortez disse...

Fiquei com vontade de saber mais sobre o Homem branco bom e amigo', ou Curiua-Catu, como era conhecido pelos índios Tupinambá

fhf disse...

Eu arranjo-te o doc para veres. abç