Geração Vasco Granja
Foi Vasco Granja que me mostrou pela primeira vez a obra de nomes como Chuck Jones ou Friz Freleng. Eu era uma criançola e já os desenhos animados me eram servidos assim, com os nomes dos autores, dos estúdios, das correntes, dos contextos; os desenhos animados como as coisas sérias que eram para Vasco Granja, para a geração que cresceu a ver os seus programas. Só por isto, por nos ter apresentado a estes autores e às suas obras, estes desenhos animados, estes mundos; por nos ter despertado para a seriedade por detrás da aparente simplicidade destas curtas-metragens, desta arte, já merecia toda a nossa admiração e profundo respeito. Mas ele fez mais que isso, muito mais.
Vasco Granja ensinou-nos o valor da diversidade. Num minuto mostrava-nos produções de estúdios norte-americanos e, no outro, obscuras animações checas e polacas, algumas com nomes impronunciáveis mesmo depois de traduzidos para o português. Diferentes estilos, diferentes técnicas utilizadas, temáticas e abordagens díspares, todas com introdução didáctica e entusiasta daquele senhor de óculos de lentes grossas e armações de massa que, logo da primeira vez que o vimos, aprendemos ser sinónimo de animação e banda desenhada. Road Runner (Papa-Léguas ou Bip-Bip) e Tom & Jerry; a Pantera Cor-de-Rosa e o Lápis Mágico (quem se lembra do garoto que tornava reais os objectos que desenhava com o seu lápis?; que gozo - penso nisso agora - deve ter dado a Vasco Granja descobrir e divulgar este lápis, tão contrastante com o lápis azul, símbolo do Estado Novo que, em 1954, o levou à prisão) - imaginários indissociáveis da infância, para uns; primeiros e importantíssimos passos num gosto pela animação e pela banda desenhada que se propagou pelo resto da vida, para outros. Esse respeito e admiração, essa curiosidade como base de qualquer primeira abordagem ao que é novo e diferente, foi a grande lição que Vasco Granja nos deixou, à minha geração, e espero que saibamos o que fazer com essa preciosa herança. Será a melhor maneira de agradecermos tudo o que nos deu a conhecer, tudo o que fez por nós.
Vasco Granja faleceu na madrugada do dia 4. Mas deixou-nos um Lápis Mágico.

10 comentários:
Lápis Azul - http://www.youtube.com/watch?v=F3dg7HeE5l4
foi tão bom rever isto: :)) http://passarolaquervoar.blogspot.com/2009/05/agora-vamos-voltar-ser-pequeninos-por.html
bela homenagem. justa.
e sim, deixa saudade, da boa.
Manter a Magia do lápis para os meus filhos e dar-lhes um pouco do que recebi do Vasco Granja... é a minha homenagem.
Portugal ficou (ainda) mais pobre, com o desaparecimento deste Senhor, com S maiúsculo.
Teve coragem de nos mostrar algo diferente e abrir-nos os olhos e os horizontes. Mostrou-nos como com uma simples lata de sardinhas e coisas aparentemente sem valor, se pode fazer uma obra de arte. Coragem que poucos ainda hoje têm.
Eu não sou assim tão velha, ou então não via assim tanta tv(preferia andar na rua) mas lembro-me do grande Vasco, da sua voz e de alguns dos desenhos animados apresentados por ele...
Tambem vou ter saudades
Obrigado pelos vossos comentários.
E fantástico, link para o Lápis Mágico!
Já nos fazia falta há muito tempo. Agora, faz mais ainda.
A lacuna que deixa na nossa cultura não vai ser colmatada tão depressa.
Pela minha parte, e mesmo só apreciando o trabalho dele de quando em quando (e a posteriori; enquanto puto queria lá saber do valor cultural, queria era os bonecos!) considero-me mais rico só por saber que, em tempos, tive essa lacuna preenchida.
É um cliché, mas é daquelas pessoas que, sem nunca ter conhecido pessoalmente, me deixa saudades. E muitas.
É inominável, esta história de terem apagado Vasco Granja dos arquivos da RTP. Inominável - http://is.gd/wDP3
É isso meu amigo.
Uma geração mal rotulada por um ex-presidente avesso às suas bases que assim nos baptizou (pelo menos no meu caso) de geração rasca, deve hoje ter em atenção, que estava redondamente enganado. Fomos e somos sim, a geração do lápis-mágico!
Um abraço a si, em especial, pelo belissímo texto aqui partilhado.
Ao Vasco dos desenhos animados, das sombras chinesas, das animações de plasticina, dos sonhos do menino do lápis-mágico (quantos de nós não sonharam com esse lápis) o nosso eterno agradecimento.
Onde quer que queiras estar, um abraço Vasco!
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