domingo, março 22, 2009


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quinta-feira, março 19, 2009

Golpe de estado em Madagáscar.
Já anda na net uma foto dos responsáveis:

New kid on the block


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terça-feira, março 17, 2009

sábado, março 14, 2009

quinta-feira, março 12, 2009

Hardly Wait


Juliette Lewis no magnífico STRANGE DAYS (1995).

Mete mais alto #32


"Got Love To Kill" - Juliette and The Licks - Live @ Reeperbahn Festival

Sexto sentido

8 minutos. 8 minutos apenas do vosso tempo para começarem a conhecer o gadget que, mesmo antes de chegar ao mercado, já tornou obsoleto qualquer outro que apareça nos próximos 10 anos (a não ser que venha aí um Dr. Manhattan e rebaldarize isto tudo). A questão é: como é que vai ser possível sobreviver mais uma década sem esta engenhoca dos infernos? Como é que eu vou conseguir voltar a olhar para qualquer telemóvel ou iCoiso, ou seja o que for com botões ou ecrã táctil, sem pensar nisto que ides ver a seguir? É como se nos dissessem: "Olha, daqui a dez aninhos vais poder afinfar-te à Gisele Bündchen (ou, para as meninas e milks, um Clooney, vá), mas até lá tens de te ir safando com esta Amy Winehouse (ou, para as meninas e milks, um Carlos Castro, pronto). Aguenta o forte que daqui a dez anos - já sabes. Maravilha. 'Guenta."

Ver este video faz-me sentir que estou a blogar de uma máquina de escrever.

(a novidade chegou via Paulo Querido)

terça-feira, março 03, 2009

I've Watched The Watchmen

Só ontem e hoje consegui sentar-me para escrever acerca de WATCHMEN, o filme, que fui ver na 6.ª feira de manhã. Vem aí post bastante longo, daqueles que descolam retinas de tanto tempo que exigem à frente do monitor. Preciso de desabafar, tenham paciência. Ando há anos (eu e muitos; não os suficientes) a falar de e a escrever sobre WATCHMEN, o comic, louvando as suas incontornáveis virtudes e motivos para assombro; permitam-me agora discorrer mais um pouco sobre esta obra, e debitar também uma largueza de caracteres sobre a adaptação para cinema.

A própria natureza desta adaptação, de tão fiel que se revelou no muito que conseguiu passar apesar das manifestamente escassas 2 horas e meia de duração, torna-me impossível falar do filme sem referir o comic. Porque há cenas e sequências em que Zack Snyder, junto com um elenco quase perfeito, recriou ao pormenor, se não um livro inteiro, pelo menos algumas das sequências de um livro que, há 20 anos, me impressionou e influenciou como poucos. Foi Matt Selman que escreveu, a seguir a ter visto WATCHMEN, que não faz ideia de qual vai ser o impacto do filme em quem não leu o livro, publicado originalmente nos EUA como mini-série de 12 números, entre Setembro de 1986 e Outubro de 1987. Também vou assumir isso. Não consigo imaginar. Estão demasiado presentes as recordações da 3.a feira (os livros da Marvel e DC que a brasileira Abril Jovem editava saíam em Portugal às 3.as e 5.as), algures em 1989, em que me deparei pela primeira vez com esta obra, compilada num actualmente bastante raro volume traduzido para português do Brasil, de que sou, ainda hoje, orgulhoso possuidor, junto com mais 3 outras edições na versão original. Tinha 14 anos, e o que a leitura daquele livro me fez, mesmo com os evidentes erros e falta de subtileza na tradução dos finos diálogos de Alan Moore, foi avassalador e tocou o sobrenatural.

O Santo Graal das Adaptações de Comics
Muita gente defendia que WATCHMEN era impossível de passar para cinema. Alan Moore era o primeiro a dizê-lo, e ainda é; agora, que o filme está feito, ainda o faz de forma mais veemente, ao mesmo tempo que se recusa a vê-lo. Entende que, tendo escrito as histórias para banda desenhada, elas não funcionam quando contadas noutro meio. Hollywood tem-lhe, infelizmente, dado razão – basta pensarmos em qualquer uma das adaptações feitas dos seus livros, que variam entre o mau e o muito fraquinho (não, eu não gostei de V FOR VENDETTA dos Wachowski). Sendo WATCHMEN a sua obra mais celebrada, a expectativa que rodeava a possível passagem para cinema era ainda maior. Um Santo Graal das Adaptações Cinematográficas de Comics.

Paul Greengrass esteve na corrida, Terry Gilliam também, mas foi Zack Snyder que acabou por dar conta do recado. Quando soube da escolha, pedi-lhe telepaticamente apenas o mesmo tipo de exaltação plástica que demonstrara em 300, e uma reverente fidelidade à obra original, de que Snyder já tinha demonstrado ser capaz, na adaptação da graphic novel de Frank Miller, e, anteriormente, no remake de DAWN OF THE DEAD (que, não percebo porquê, Romero não apreciou). E neste ponto é importante dizer o quanto dói que o nome de Alan Moore não apareça – por vontade dele – associado a este filme. Porque esta é das mais fiéis adaptações que foram alguma vez feitas de uma banda desenhada. Ou de qualquer peça de literatura, já agora.


WATCHMEN não se distingue apenas pela sua temática e galeria de personagens. A narrativa, a estrutura, o domino perfeito do jogo imagem-palavra, os elementos recorrentes que vão ganhando carga simbólica, são parte fundamental do que o torna uma obra-prima. Capítulos como o IV, “Watchmaker”, são verdadeiras lições de estrutura não-linear. Esperar que WATCHMEN, o filme, revolucionasse a narrativa cinematográfica como WATCHMEN, o livro, revolucionou os comics, seria pedir demais. A verdade é que, de certa forma, WATCHMEN, o livro, revolucionou outros meios que não o da banda desenhada. Pensemos em LOST, por exemplo. Por mais que uma vez, J.J. Abrams e Damon Lindelof assumiram o quanto devem a esta obra-prima da literatura e da arte contemporânea, a enorme influência que tem no seu trabalho. Não é de estranhar que muita gente que tinha já lido a graphic novel tenha feito o paralelo entre o capítulo “Watchmaker” e o episódio 8 da 3.ª temporada de LOST, “Flashes Before Your Eyes”.

Isto para dizer que, desta adaptação de Zack Snyder, o pior que se pode dizer é que deixa muito de fora - era inevitável, dada a densidade que se encontra na raíz - e que, a nível de estrutura, está distante de provocar o mesmo grau de arrebatamento. Existem centenas de pormenores que se prendem com o meio, irrepetíveis em cinema ou em televisão, dada a especificidade dos mecanismos utilizados. Reproduzi-los em cinema é, de facto, impossível. No entanto, é um filme com uma estrutura pouco convencional, onde se nota ter havido o cuidado de ser o mais fiel possível não só ao tom e ao aspecto gráfico, mas também à narrativa. O resultado dessa espécie de compromisso resulta numa estrutura e ritmos pouco habituais em cinema, que não chega nem por sombras à excelência da graphic novel, mas que funciona.

"Oh shit. I'm on Mars."
- Laurie Juspeczyk/Silk Spectre II
in WATCHMEN

Acho que aconteceu o mesmo a toda a gente que leu WATCHMEN ali perto dos 13, 14 anos. É – para mim foi, sem dúvida – um despertar. A começar pela temática, talvez complexa demais para ser totalmente assimilada por alguém da idade que eu tinha na altura, mas ainda assim marcante (o universo que desconstruía, o dos super-heróis, era um com o qual tinha crescido, um por causa do qual tinha querido aprender a ler), um referencial a partir do qual passei a olhar todas as relações de poder. Porque WATCHMEN é, acima de tudo, isso: uma meditação acerca do poder, como disse Alan Moore, ou sobre os conflitos e como acabar com eles, como colocou Dave Gibbons no Live Q&A da semana passada. São as próprias fundações da natureza humana que se expõem nesta graphic novel, através de personagens que desconstroem a ideia que até então se tinha dos ‘heróis mascarados’. Há ambiguidade, característica profundamente humana, espalhada por toda a vasta e brilhante galeria de personagens, dos mortais ao quase-divino. Há diferentes noções do que é o bem, do que é o mal; de como mudam com a perspectiva e as circunstâncias. Uma luta entre dois instintos básicos e contraditórios: o da sobrevivência e o da auto-destruição. Uma viagem ao que faz de nós humanos. Personagens fantásticas a lidar com o mundo real; dispositivo que, no fundo, há muito estava insinuado (na medida em que os modernos comics são em grande parte sucessores das pulps que se publicavam – também – na década de 30, como, p.e., FU MANCHU, de Sax Rohmer, e THE SHADOW, de Walter B. Gibson), mas que nunca tinha sido abordada de forma tão intencional e subversiva.

Esta intromissão do real, chamemos-lhe assim, era comum nas tiras de heróis – do Super-Homem ao Capitão América, não houve, na década de 40, quem não tivesse arreado a sua pêra em Hitler. E lembremo-nos do Batman de Bob Kane, uma pérola da Golden Age of Comics com a semente do grim ‘n’ gritty que vingaria quase 50 anos mais tarde, ou não tivesse ele assistido, quando criança, ao assassinato dos pais durante um assalto à saída do cinema. Depois veio a Silver Age of Comics, as década de 50 e 60 com a promessa de conquista especial, uma inclinação para temáticas mais fantásticas, com o destino dos ‘heróis mascarados’ a ser cada vez mais os outros universos e as ameaças cada vez mais transdimensionais.

Quando, nos anos 80, autores e artistas britânicos, alguns saídos das páginas da 2000 AD chegaram ao mercado dos EUA, sem as constrições da CCA que obrigava (e ainda obriga) os comics mainstream americanos a não passarem determinada fasquia de sexo e violência, começam a explorar de maneira única as cada vez mais fantásticas características e temáticas das histórias e personagens. A visão que se tem deste universo é mais próximo do nosso, confunde-se com o nosso, o fantástico é visto através de um prisma, pode dizer-se, pós-moderno; os heróis mascarados começam a ser tratados com a crueza normalmente reservada ao quotidiano humano. E não falo do modelo de Stan Lee, também ele a revolucionar tudo na década de 60 quando criou e co-criou personagens que, pela primeira vez, tinham nos seus super-poderes simultaneamente uma benção e uma maldição. Não; falo de dramas pungentes mas não cósmicos nem alegóricos; de violência, de traumas, de toda a sujidade e lama psicológica até àquela altura reservada para as vidas dos comuns mortais, aqueles sem super-poderes. Nós.

Autores como Pat Mills, Neil Gaiman e Alan Moore pegaram em heróis e universos, num género que já tinham como referência desde sempre, e abordaram-no de uma forma nunca antes explorada (nota mental: reler SWAMP THING de Alan Moore, com urgência). Entrar no universo de WATCHMEN era conhecer heróis falíveis, em final de carreira, barrigudos, marginais, perseguidos, ilegais. Por trás da máscara (“Under the Hood”, como é apropriadamente intitulada a autobiografia de Hollis Mason, o primeiro Nite Owl), eram bastante semelhantes a nós. Pela primeira vez questionava-se o que poderia levar alguém a vestir um fato colorido e a sair à rua para fazer essa coisa de combater o crime, ou, como diz Laurie Jupiter (ou Juspeczyk) a certa altura do comic, e do filme, “sair de casa às 3 da manhã e fazer coisas estúpidas.”

WATCHMEN assumiu uma temática e um tom que Alan Moore vinha a desenvolver e, pelo caminho, revolucionou um meio. Já aqui o disse uma vez: é uma obra perfeita a que o tempo deu dois defeitos - nunca mais nada se lhe igualou em termos de estrutura e complexidade (bom, talvez THE INVISIBLES, de Grant Morrison, mas isso é a whole different story); e, se de certa forma abriu caminho a importantes obras (como a corrosiva sátira MARSHALL LAW, de Pat Mills e Kevin O’Neil, nem por sombras tão refinado, mas delicioso na maneira como leva mais longe a já de si subversiva abordagem de WATCHMEN ao universo dos super-heróis), também deu origem a sub-produtos que foram a ele beber apenas o lado mais sórdido e perverso revelado por alguns dos personagens, caso dos muitos disparates que tanto Marvel quanto DC permitiram que se fizesse a muitos dos heróis da casa (REIGN de Kaare Andrews é um recente e bom exemplo disso; existem mais, e não são poucos).

WATCHMEN tem muitas camadas de leitura, tantas e tão diversificadas que lhe permitiram ganhar um Prémio Hugo e ver a Time distingui-la como uma das 100 obras literárias de língua inglesa mais importantes desde 1923. A genialidade de Alan Moore levara à criação de algo que tanto podia ser apreciado por quem não tinha as referências ao universo típico dos heróis mascarados que WATCHMEN desconstrói sem parodiar (feito já de si notório, ao qual não é alheia a subtileza do trabalho de Dave Gibbons), mas que funcionava também ao nível da visão nova que impunha a certos personagens-tipo, icónicos. Era mais do que uma perspectiva britânica sobre uma das formas de expressão artística mais pop dos EUA: WATCHMEN concretizava uma espécie de feedback que estourava com todos os cânones do que tinham sido, até àquela altura, os comics.

Uma marca indelével deixada sobre toda uma geração. Não são de admirar as expectativas em relação ao filme. O que é de admirar é que tenha havido quem se atrevesse a fazer a adaptação para cinema. E, mais ainda, que alguém o tenha conseguido.

Watching The Watchmen (à lupa)
Atenção que aí vêm alguns SPOILERS, que tentarei manter, na medida do possível, meio 'nublados'. Avançai por vossa conta e risco.

O genérico é delicioso. Ao som de “Times They Are A-Changing” de Bob Dylan (uma das muitas referências musicais presentes no livro que, de forma inteligente, Zack Snyder foi buscar para a banda sonora), assistimos à alvorada e ao declínio da primeira geração de heróis. É uma cena nostálgica, brilhante na maneira como mostra, no tempo de uma canção pop, a ascensão dos Minutemen ao estatuto de autênticas estrelas de cinema, e a sua queda em desgraça quando os esqueletos que guardam no armário chegam ao conhecimento público. Neste ponto, Zack Snyder agracia-nos com uma marcante Silhouette (Apollonia Vanova, que aparece de rajada mas cuja memória trago fresca) e começa a ganhar pontos.

Esta sequência segue-se à cena inaugural do filme: o assassinato de Edward Blake, o Comediante (muito bem Jeffrey Dean Morgan, a agarrar sem falhas o personagem em todas as faixas etárias em que o interpreta). E foi logo no início que percebi que ia passar todo o filme em tensão, agarrado à cadeira com tanta força que poderia dizer que os nós dos dedos estavam brancos, se alguma vez tivesse desviado os olhos do ecrã para olhar para os nós dos dedos ou para o que quer que fosse para além do ecrã. Estava a assistir em filme a uma história que me acompanha há anos noutro meio, e a sensação é indescritível.

No seguimento, a entrada de Rorschach na narrativa, continuou a não desiludir. Antes pelo contrário: Jackie Earle Haley encarna na perfeição Rorschach/Walter Kovacs, numa transfiguração impressionante que nos faz acreditar ter saído directamente das páginas do livro. Para quem, nos depoimentos prestados no videolog que acompanhou as gravações, se queixou, meio a sério, meio a brincar, de que esteve a representar com uma meia na cabeça, Haley é bem capaz de ter aqui a sua melhor interpretação até à data. Claro que é mais impressionante nas sequências em que Rorschach aparece sem o seu rosto (leia-se máscara); em toda a sequência dentro da prisão, talvez a mais bem conseguida do filme.

Billy Crudup (Jon Osterman/Dr. Manhattan) deu ao seu personagem a perturbadora tranquilidade que este exigia. Apesar de gostar do trabalho de CGI, há a questão da muito presente luminosidade azul. Neste ponto, o grande admirador ajeita-se na cadeira. Os muitos anos de familiaridade com as cores utilizadas por John Higgins em WATCHMEN, a graphic novel, propositadamente afastando-se das cores primárias, começam a dar por falta dos roxos, dos castanhos, dos verdes. Não em todo o filme, entenda-se. Mas sempre que aparece o Dr. Manhattan. O que me parece é que, para poder tornar o visual do Dr. Manhattan assim tão cool, Snyder acabou por comprometer as cores que nos acostumámos a ver em WATCHMEN. Um mal menor, ainda mais porque este tom, apesar de não ter muito a ver com as cores do livro, é - vou repetir-me, porque isto merece-o - extremamente cool. E, já que estou a falar de seres gerados por CGI, esperem para ver Bubastis.

As míticas sequências em Marte, se não me encheram as medidas, tiveram pelo menos o condão de não me desiludir. Novamente o problema é a falta de tempo para que tudo aquilo possa respirar um pouco mais. Vamos ver que tal é na versão DVD, de 3 horas e meia. Senti falta de, por exemplo, ver os jornalistas a desaparecerem do estúdio de TV (quem leu o livro sabe do que eu estou a falar), mas sei que, pelo menos esta última cena aparece no director's cut, por isso menos mau. Laurie a arremessar o frasco de Nostalgia contra a estrutura criada pelo Dr. Manhattan é que nada - ela limita-se a bater com a mão e tudo aquilo desaba. Grande momento... mas sem Nostalgia.

Nota máxima para a química entre Patrick Wilson (Dan Dreiberg/Nite Owl II) e Malin Akerman (Laurie Jupiter/Silk Spectre II). Excelente a recriação da cena em que os dois fazem amor pela primeira vez, com o feixe de fogo a surgir pelo meio das nuvens criadas pelo Archie. Não há fanboy que resista a isto. Com o bónus de aqui a cena ser mais picante que a versão original; e ainda bem, que Malin tem já lugar cativo no meu panteão.

Porque WATCHMEN é, de raíz, uma obra bastante cinematográfica (espantoso paradoxo quando nos lembramos de todos os que afirmavam que nunca poderia ser passada a cinema), é impossível pensar em certas passagens do comic e não compará-las com a maneira como Zack as traduziu para cinema. No caso da primeira vez que Laurie e Dreiberg tentam fazer amor, na sala de Dreiberg, é uma pena ter-se perdido o brilhante paralelo entre as imagens de completo domínio físico e mental de Ozymandias na TV, e a impotência de Dreiberg. Este é o exemplo de dispositivo que Zack optou por não passar para a tela.

Por outro lado, mostrou algo que no livro vem apenas referido, mas que aqui aparece em todo o seu esplendor: Rorschach na prisão a ser levado pelos guardas e a gritar: "None of you understand. I'm not locked up in here with you. You're locked up in here with me." Momento com alto indíce de shivers down the spine. Como no último diálogo que Dr. Manhattan e Rorschach têm no filme (novamente - quem leu a novela gráfica sabe do que eu estou a falar). Aqui Snyder fez algo de notável, ao filmar um plano que, não estando na obra original, faz tanto sentido como qualquer um dos painéis do comic. É quase - quase! - como se fizesse lá falta, passe a heresia da afirmação. Não vou contar, não quero estragar a surpresa. Geeky stuff; mas um belíssimo plano, de qualquer maneira.

O Bernie, Where Art Thou?
A sensação que me fica é a de que Zack Snyder fez a melhor passagem para cinema de WATCHMEN que alguém poderia fazer em 2 horas e meia de filme (creio que são 163 minutos, que passam a correr; o que é bom sinal). Fosse o que fosse a ficar de fora, faria sempre falta a quem conhece a obra original. E, no inevitável processo de corte, houve certas cenas e sequências que não foram incluídas e das quais senti muita, muita falta.

Estou bem consciente das condicionantes e das exigências inerentes a passar uma obra de um meio para o outro, mesmo uma menos complexa que WATCHMEN. Como disse Dave Gibbons, “a movie is a very different beast than a book". Mas é difícil lidar com o desaparecimento ou pouco tempo de tela de personagens secundárias que dão à graphic novel o ponto de vista dos innocent bystanders - ou não tão innocent, como se mostra na sequência final e aglutinadora, onde a inveja, a violência, a obsessão, a protecção para além dos limites do dever; tudo vem à tona no momento do Armaguedão, numa agitação crescente perante a iminência do fim.

Este ponto de vista, o dos que estão no último patamar do poder, com pouca ou nenhuma influência no caminho para o holocausto nuclear, está quase que completamente ausente do filme. O que me custa mais são, exactamennte, os Bernies. Vê-los a abraçarem-se no final só tem peso simbólico se tivermos acompanhado a trajectória dos dois, naquela esquina, na banca de jornais, assistindo, em paralelo, ao avançar do relógio do Juízo Final e à viagem narrada no comic dentro do comic que é TALES OF THE BLACK FREIGHTER. Sem esse trajecto, tudo o que temos é uma piscadela de olho aos leitores da graphic novel. O filme está cheio delas, é sempre muito gratificante, pois é, mas só isso não chega para fazer jus ao mosaico criado por Alan Moore há mais de duas décadas. É como se o atraso com que estas adaptações chegam viesse confirmar a maturidade que o meio da banda desenhada chegou há muito (já quando vi THE DARK KNIGHT, de Christopher Nolan, senti o mesmo; mas isso será tema para outro post).

Preferia ter visto mais dos outros personagens secundários do que de Nixon (WATCHMEN, para quem não sabe, passa-se no ano de 1985, numa realidade alternativa em que Nixon chegou ao quinto mandato). Gostava que Snyder tivesse mostrado o presidente como ele aparece no comic: quase sempre de costas para o leitor, raras vezes mostrando a cara, excepto quando aparece nos cartazes de propaganda espalhados pelas ruas de NY. A colagem a uma realidade política, ainda que alternativa, é importante para o contexto da história - a ameaça nuclear iminente, histórica e extrapolada -, mas não mais significativa no peso global da obra do que Ronald Reagan o é em DARK KNIGHT RETURNS de Frank Miller. Moore tem obras manifestamente mais políticas. Nixon tem no filme um peso talvez excessivo, que se traduz em demasiado tempo de ecrã (ainda por cima, numa caracterização não muito feliz, há que dizê-lo). A tensão EUA-União Soviética é, no livro, mais presente e palpável por irmos dela tendo conhecimento através das capas dos jornais, vendidos e comentados pelo Bernie mais velho. Vale-nos a versão integral que há-de sair em DVD, onde Zack, consciente da carga atribuída pelos fãs aos Bernies, nos permite vê-los durante mais cenas. Mais uma vez, é como se um dos painéis do comic ganhasse vida:


The End is Nigh
É sobre o final que tenho mais reservas. O único ponto onde Zack Snyder assumiu, desde que deitou mãos ao projecto, que não seria fiel ao que está no livro. Não vou dizer qual é o final do filme, era incapaz de fazê-lo, mesmo com um terabyte de sinais de spoiler por este post abaixo. Mas posso dizer que a solução com que Zack Snyder se saíu, apesar de redondinha, apesar de fazer sentido na história, apesar de bater certo, não substituí a mítica squid. O final é o mesmo... sem ser. É mais directo ao assunto, mas não tão deliciosamente rebuscado; de certa forma, é menos digno do homem mais inteligente do mundo, Ozymandias, aliás, Adrian Veidt, interpretado por Matthew Goode.

Por falar em Matthew Goode - se não me convenceu logo de início, quando o vi na sequência final consegui encaixá-lo na ideia que tinha de Ozymandias. O seu ar snob é magnífico e apropriado. Ficou a faltar também a magnífica estufa de Karnak, a passagem da sombra de Laurie e Dreiberg (em tudo semelhante ao perfil dos 'Hiroshima lovers' graffitados na parede de NY, também ausente do filme) para a mancha na máscara de Rorschach, antes do diálogo com Dr. Manhattan na neve. Ficou a faltar muita coisa, mas isso era de esperar. O que não era de esperar era que tanto chegasse ao filme.

Muito mais haveria para dizer sobre WATCHMEN. Mas vou andando para dentro que está a fazer-se tarde. Ide descansar os olhos que bem precisais deles para assistir ao filme que estreia esta semana. Irei sem dúvida vê-lo muitas mais vezes. O livro não sai, há anos, da minha cabeceira, e ali ficará, à mão de semear. A verdade é que mais de 20 anos depois, WATCHMEN chegou enfim ao cinema. Um filme onde não há o brilhantismo narrativo que se encontra no meio natural da história, mas há genuíno respeito, compreensão da obra, e obsessão pelo detalhe. Violento, nostálgico, filosófico, apocalíptico e redentor. E são as vozes mais críticas, as dos admiradores de longa data da graphic novel, as primeiras a aclamá-lo.

Indeed, times they are a-changing.