O pai natal existe (e o natal não é quando um homem quiser)
Esta época que se convencionou chamar de natal é absurdamente deprimente, num grau que aumenta de forma exponencial de ano para ano. Pense-se no actual panorama, mas situado noutro mês do calendário: hordas - autênticas hordas - de gente nas ruas, a atafulhar os centros comerciais, as estradas, as vidas, sem qualquer outro propósito para além de fazer compras. Nem sequer é comprar, é fazer compras. Não pensaríamos então que se tratava de uma epidemia qualquer, uma gripe das compras que tinha infectado toda a gente? Seria preciso avisar as autoridades, passava-se alguma coisa de muito errado, olha toda a gente em Julho com gripe das compras, esquisito, será atentado terrorista bacteriológico?, telefona aos bombeiros.
Mas não, o evento tem lugar em Dezembro, numa data que mesmo antes de Cristo era comemorada, solstício de Inverno, os planetas entram em alinhamento cósmico com os papéis e as fitas de embrulho. Penduram-se luzes nas ruas, elevam-se torres de metal e lâmpadas e chamamos-lhes árvores de natal grandes como o camandro, e os olhos ficam vidrados. A Palavra pisca em néon na nossa cabeça, e afinal são duas: Fazer. Compras. Compras para familiares e amigos, sem esquecer os "familiares" e os "amigos", também estes, os com aspas, porque é tradição dar prendas. Nem é oferecer, é dar prendas, ou presentes, ou lembranças, que também já é da praxe, toma lá, não é nada de especial, é só uma lembrança. Lembrança de quê? Só se for lembrança de que não me vês há um ano e agora espetas-me nas unhas com esta lembrança absolutamente deprimente que eu nem preciso de desembrulhar para perceber logo que é mais um par de peúgos.
Tradição. Neste caso uma designação mais curta para se me dão e depois eu não dou, parece mal. Uma espécie de ditadura, a ditadura do natal. Temos de estar juntos e contentes, bem dispostos, afáveis, sorridentes, todos de mãos dadas até à altura de deglutir a bacalhonga e desembrulhar prendas, presentes, lembranças. Época de paz e boa vontade entre os homens. E corrida, muita corrida entre os homens - corre-se às lojas, bate-se com o carro, o senhor tem seguro?, vá você para a puta da sua tia, vou chamar a bófia!, e tanta compra de natal que eu ainda tenho de fazer, deixe-me só fazer um telefonema; 'tou filha?, olha, o pai bateu com o carro mas ainda tem de fazer compras de natal, espera aí só um bocadinho; olhe lá não me dê pontapés na porta do carro!, temos o caldo entornado, ligue você para a polícia que eu agora tenho aqui outra chamada; 'tou filha?, não, é que 'tá muito trânsito e o pai tem muitas compras de natal para fazer e bateu, podes vir para cá esperar a bófia para o pai poder ir às compras?, vens de metro, o pai paga-te o bilh... ai não podes, estás nas compras de natal?, pois.
Isto acontece, está a acontecer agora, e ninguém acha esquisito porque é tradição que aconteça agora, nesta época do ano. Se fosse noutro mês qualquer, toda a gente havia de estranhar, mas como é no natal faz sentido. Ou não faz, mas é tradição, é só uma vez por ano, um dia não são dias, o natal não é quando um homem quiser, é exactamente quando é, naquele dia e em mais nenhum, é a ditadura do natal.
Longe vai o tempo em que as tradições não eram definidas pelas marcas comerciais. Mesmo este ano, com a hiperbadalada crise - é que o cartão ainda funciona, o banco ainda está de pé; vamos às lembranças que para o ano se calhar está o antídoto para a gripe das compras achado, e já não há nem sequer pares de peúgas para ninguém. Hordas de gente nas ruas, nas estradas, nos centros comerciais. Hordas, como uma epidemia de zombies num filme do Mestre Romero. Ou tomados por Cybermen saidos do Doctor Who, aprisionados num movimento mecânico de passar o cartão na ranhura, missão: Fazer. Compras. E ninguém acha estranho.
Como ninguém acha estranho que exista um velhadas de barbas carregado com uma saca de presentes às costas, curvado ante o peso de uma tradição que eu não quero que me caia em cima. Sim, porque o pai natal existe, existe como nenhum de nós existe, muito mais que nós, vai sobreviver-nos a todos. Porque é uma criação de uma marca (coca-cola), uma apropriação de outras marcas (todas), seja em que forma for, velho barbaças ou milf glutona, pensado da ponta da barba até ao dedo do pé com verniz para lembrar essa coisa de dar prendas, a impôr a tradição de fazer compras. De dar prendas. Com data certa, porque se tem de dar, porque é natal e no natal dão-se prendas, presentes, como quem se reúne à volta do pinheiro para distribuir lambadas bem assentes com data e hora marcada, toma lá uma lembrança minha na queixada, feliz natal.
E os sms's de natal? Não me façam falar dos sms's de natal.

5 comentários:
o pessoal é convidado para uma festa, pode ir, pode dizer, não obrigado não me apetece, ou a versão mais educada... gostava muito mas já tenho outros compromissos... Porque é que temos que gramar com o Natal mesmo quando não nos apetece!!! que raio de festa impingida é esta?? e esse pessoal das compras... isolem-nos, isso é doença!!! Este ano, salva-me ter dois sobrinhos lindos, os únicos para quem comprei prendas e com quem me apetece brincar ao natal. Enfim... ainda há o charlie brown para nos pôr um sorriso natalício nos lábios :) obrigada por esse post! :)
olha... e bom natal...
:) ...
ok, tou fã x
mas provavelmente: "até tu, Brutus?" não?!
Claro que sim, ou achas que eu me indignava tanto se não fizesse também parte da manada? Mas enquanto faço compras (vês? também não compro, mas faço compras) estou a reclamar, em voz alta, um quase-grinch! Torna tudo ligeiramente mais suportável.
deixo-te então aqui a minha estratégia: "fazer compras" com antecedência!!! novembro é um bom mês... ;)
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