sábado, dezembro 13, 2008

gotas e cartuchos

A minha rinite alérgica quis tombar-me, durante toda a noite de escrita anterior, que se tornou dia e depois tarde, quase sempre a escrever, sempre com a alergia em modo de agonia extrema. Salvaram-me mais uma vez os anti-histamínicos, ainda que parcial e temporariamente, mas ainda assim o tempo farto para apreciar em termos o lançamento simultâneo - que foi ontem - de "conta gotas" e "penúltimos cartuchos".
A abrir a apresentação, em cima de um banco onde nunca nenhuns pés se tinham antes empoleirado, o Miguel Martins deu conta a todos os presentes da sua condição de editor de ambos e autor de um dos livros.

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Como autor de "penúltimos cartuchos", o Miguel insiste que tudo o que tem a dizer sobre o livro já está lá escrito. Como editor, passou-me a palavra, e eu tentei não maçar muito os presentes. Chamei a atenção para o facto de "conta gotas" ser, muito provavelmente, o primeiro e único livro do mundo onde o prefácio tem um número superior de caracteres ao do miolo em si. Tive o duplo gosto em convidar o Eduardo Madeira - a.k.a. Eddie Stardust, meu gémeo vitelino nos Cebola Mol - e em ver aceite o meu convite. O prefácio faz, por si só, valer a publicação do livro.
Nunca me tinha passado pela cabeça publicar um livro de haikai. Mas aconteceu. E como este "conta gotas" aconteceu, conta-se em poucas linhas. Algumas, pelo menos. Sabe-o quem acompanha este blog que, de vez em quando, debito aqui um ou outro haiku (o porquê de ter começado a escrevê-los é toda uma outra história). Lendo-os, teve a fineza o meu bom amigo Miguel Martins de me desafiar a escrever um livro com 21 singelos desses, a ser depois editado na sua Tea for One. O convite deixou-me mais que lisonjeado, ou não fossem as facetas do Miguel como poeta, editor, e homem de jazz, dignas da minha profunda admiração. E deixou-me também aflito, porque um haiku num papel é um haiku estático, que não posso voltar a trabalhar; não estaria a escrevê-los para uma espécie de bloco de notas digital, como aqui o meu blog, sítio onde posso voltar a um ou outro haiku para modificá-lo, torná-lo 'mais final', como vou aqui fazendo, e apontando as datas das transformações; como se fosse algo orgânico, que eu apenas ia ajudando a crescer, como uma planta ou um #Bahajarixx (esta é para os meus companheiros twitters). Não - ao ficarem impressas, as palavras já não podiam ser mexidas, a não ser com uma tesoura e um tubo de UHU para voltar a colá-las em ordens e significados diferentes, o que não está completamente fora de questão. Mas, descartando esta hipótese da tesoura, o que eu tinha em mente é que iria escrever haiku nos quais não podia voltar a mexer. Muito perturbador.
No entanto, angústias à parte, e depois de escolher, com a ajuda do Miguel, entre quarenta e muitos haikai dos que tinha escrito, acabou por surgir esta edição limitadíssima, com apresentação marcada para ontem.
Como anunciado, eu e o Eduardo pegámos nas violas.

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Já há muito tempo que não tocávamos juntos. A ideia era termos ensaiado uns dias antes; depois, como não foi possível, tentámos no próprio dia da apresentação, mas um pouco mais cedo. Com a largura de tempo disponível que ambos temos, o acabou - claro está - por não acontecer. O ensaio, entenda-se, porque a actuação - chamemos-lhe assim pela falta de vocábulo mais apropriado, que está ainda por inventar - deu-se de forma descontraída e despida. Despida não no sentido em que houve nudez no 159 da Rua da Rosa, mas porque não estávamos propriamente a encarniçar os nossos alter egos, os irmões Stardust - antes se tratou de um revisitar descontraído de alguns velhos temas cebólicos como "Libertem o Pacote Laboral", "Jack Palance", "Satright No Chase (Straight No Chaser II)" (este com introdução do Miguel Martins e do Limón Cavaco, tocando sinetas)...

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... e terminando com coro de todos os presentes - menos talvez um senhor que estava lá atrás de suíças - "Jóli (És o Cão da Malta)". De destacar que foi a primeira vez que o mais recente membro da família Dinis, a Rafaela, escutou estes temas ao vivo, facto que muito honrou o evento.
Quero aqui louvar os "penúltimos cartuchos" do Miguel, aforismos que dão gosto num livro pequeno que pede tempo para ser lido. E relembrar que todos os exemplares ainda disponíveis de outro livro seu, "Cirrose", se encontram à venda na Livraria Poesia Incompleta, Rua Cecílio de Sousa, em Lisboa, entre o Príncipe Real e a Praça das Flores. Ambos obrigatórios.
Redobramos o muito e muito obrigado a todos os que se deslocaram ontem ao Salto Alto, em Lisboa. Nesta época natalícia, em que 263237 lançamentos acontecem inevitavelmente ao mesmo tempo, fiquei contente de ver tanta gente presente: houve quem tivesse vindo de outros pontos do país. Caso do Carlos Gonçalves, mestre photoshopiano vimaranense que não só já me tinha enviado esta fotomontagem...

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...como - cereja no topo do bolo - nos presenteou, a mim e ao Eduardo, com dois belíssimos galardões: Galocha de Oiro 2008/2019 e Mini-CD de Aglomerado de Cortiça.

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Obrigado, Carlos, pela ideia, pela dedicação, pelo resultado, pela presença, pelos galardões, e pelas fotos do lançamento (as fotos que haveis visto neste post são todas dele).
A noite prosseguiu com jantar ali por perto e regresso da alergia em força, que se tinha retirado durante a apresentação, mercê dos fármacos ou de uma distorcida piedade. Por alturas da sobremesa, já tinha perdido por completo o sentido do paladar e não percebi se o melão era bom. Já não é a época dele, seja como for. Ou é? A fruta agora já não tem época, como as alergias, o Natal, os haikai.
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(Update, 15/12 - 17:52)

Coloquei na minha página do Flickr mais fotos do lançamento, umas tiradas pelo Carlos, outras pelo Ricardo Martins. Podem ver todas aqui.

4 comentários:

Hugo Cunha disse...

Em que dia vai passar o Fogo Posto na Radical?

Olinda Dinis disse...

E a Rafaela gostou, voces não reparam para ela olhava muito atenta enquanto voces tocavam, acho que ela estava a pensar que já conhecia aquilo de algum sitio :)
Mais uma vez obrigado pelo convite.

Rita disse...

Choro lágrimas de sangue de não podido estar! tenho que trabalhar melhor esta coisa da omnipresença!

Filipe disse...

Hugo: dia 18.

Olinda: A Rafaela deva estar a pensar - "Olha, a rodela que a mãe e o pai chamam de CD e que costuma tocar esta barulheira transformou-se em dois sapos!"
Mais uma vez, obrigado por terem ido mais a vossa novel e maravilhosa bebé - gestos desses fazem valer a pena, acreditem.

Rita: fica para a próxima (a nível de lançamneto, porque a nível de actuações cebólicas, não sei). Começa por uma simples ubiquidade, que a omnipresença depois é um grau mais avançado. Também choras lágrimas de sangue? Tive uma amiga que também fazia isso, chamava-se Maria e trabalhava como arte sacra na Venezuela.