quarta-feira, novembro 07, 2007

Maravilhas do cinema que não se percebe como continuam a passar ao lado de uma gorda fatia do público: Scanners III (1991)

(e planos para a possível elaboração de um Manual de Sobrevivência aos Maus Filmes)

Prólogo:

Da necessidade de distinguir entre mau cinema e cinema-tão-mau-que-é-bom / Primeiros passos na organização de um volume que ajude a suportar o angustiante visionamento de um filme que não tem interesse nenhum, mas que infelizmente o computador do indivíduo que o escreveu não foi abaixo de forma a que se perdesse de forma irremediável todo e qualquer registo da sua existência / Meet The Scanners


Muito se escreve acerca dos últimos blockbusters - e dos útimos blockbusted - que estreiam todas as semanas nas salas de cinema. O que não falta são opiniões, críticas e pseudo-críticas. Da minha parte, também vou, uma vez por outra, debitando os meus considerandos, contribuindo assim com uma dose diária de produção de código binário para a blogosfera (um dia, o Protocolo de Quioto há-de contemplar este tipo de poluição). Estou até a considerar a hipótese de escrever um manual - Como Sobreviver ao Mau Cinema - que ajude a minimzar os danos resultantes da dura experiência de assistir a filmes tenebrosos, naquelas ocasiões em que não conseguimos mesmo evitar fazê-lo.
Por exemplo - e dirijo-me primeiro às minhas caras leitoras - quando o namorado/marido faz questão de vos levar a assistir a uma maratona cinematográfica de todos os filmes com Chuck Norris.
Ou - e agora é para vocês, leitores do género masculino - durante a fase em que andam a cortejar uma garota e sentem que devem fazer o sacrifício de levá-la a assistir a uma qualquer comédia romântica com o Ashton Kutcher. Se bem que, se ela gosta de comédias românticas com o Ashton Kutcher, devessem pensar bem no que andam a fazer da vossa vida (já as garotas que se virem arrastadas para uma maratona dedicada ao Chuck Norris, pensem sempre que os vossos namorados/maridos sabem o que estão a fazer, e que, se libertarem a cabeça de preconceitos e abrirem os vossos corações ao bom e velho Chuck, vão conseguir abarcar a doce poesia que se desprende de uma pantufada rotativa em cheio no queixo de um meliante, uma pantufada daquelas que só o bom e velho Chuck pode proporcionar a uma queixada).

Tenho, portanto, vindo a desenvolver e apurar técnicas que permitem a qualquer um abandonar a sala de cinema sem ser detectado, ir a casa assistir a pelo menos um episódio da segunda temporada de Heroes, e voltar para o lado do namorado(a)/cônjuge sem que este(a) tenha dado pela vossa falta, bem a tempo de discutir os nomes que aparecem no genérico final, e fazer um brilharete com a frase: "Já viste a quantidade de gente que é precisa para fazer um filme?".

Mas receio que a partilha dessas técnicas tenha de ficar para segundas núpcias, uma vez que o meu fito neste momento é falar não de mau cinema, mas de cinema tão mau-mas-tão-mau-que-se-torna-bom. Tudo porque ontem assisti, entre o horrorizado e o encantado, a Scanners III.

Parte 1:
Do clássico de Cronenberg à sequela que brotou da pena de um dos autores de
Lone Wolf McQuade (um dos mais celebrados filmes com Chuck Norris) / 1992 e a chegada de Scanners III - o mundo talvez não estivesse preparado para isto, mas como quase ninguém deu conta do filme, a coisa passou-se sem grandes alaridos, o que é pena porque há poucos eventos dotados de maior beleza do que um motim numa sala de cinema

Scanners III: The Takeover, é dos piores filmes que já vi, categoria na qual também insiro O Código Da Vinci. Mas se este último é péssimo pelos piores motivos, Scanners III é horrendo pelos melhores, merecendo por isso que se disponha de alguns minutos para uma análise, embora uma sem o grau de profundidade que um diamante destes sugere (já O Código Da Vinci, que refiro aqui por apenas há alguns meses me ter submetido à antes calculada e depois confirmada tortura que foi vê-lo, é preferível que o esqueçamos para sempre; de facto, arrependo-me sequer de o ter mencionado - eu não presto).

O primeiro Scanners (1981) é, até hoje, um dos meus filmes favoritos de David Cronenberg. Bastava a interpretação de Michael Ironside para torná-lo memorável, e no entanto o filme é muito mais que isso. De Scanners II: The New Order, pouco ou nada me lembro - uma sequela sem dúvida mal-amanhada, já fora das mãos de Cronenberg, realizada dez anos depois, em 1991, por outro canadiano, Christian Duguay, e escrita por B.J. Nelson, também co-autor junto com H. Kaye Dyal de outra grande referência do cinema dos anos 80, Lone Wolf McQuade (1983), com Chuck Norris e David Carradine nos principais papéis, filme de certa forma percursor da série também com Norris que iniciaria o seu trilho de êxito dez anos mais tarde, e que haveria de ter fãs célebres e diversificados, de Conan o'Brien a George W. Bush (que têm critérios diferentes de apreciação da série, mas não deixam por isso de venerá-la, cada um pelos seus motivos e à sua maneira); falo, claro está, desse pagode que é Walker, Texas Ranger).

Um ano mais tarde, animados talvez pelo resultado de bilheteira ter sido maior do que a qualidade da película deixava antever, mas irritados por esse mesmo resultado ter sido inferior ao que esperavam obter por estar a fazer uma sequela de um filme de David Cronenberg (isto numa altura em que Cronenberg já gozava de popularidade e de opinião favorável por parte da crítica, com o soberbo Dead Ringers (1988) interpretado por Jeremy Irons em dose dupla e por Geneviève Bujold, e com Naked Lunch (1991), adaptação livre da obra homónima de William S. Burroughs, que contava com um Peter Weller pós-RoboCop), decidem avançar para Scanners III.

Tive ontem o prazer de assistir a este desastre, no TVC1 (TVC é a nova designação dos Canais Lusomundo), e, ainda boquiaberto, devo afirmar que não há nada que preste neste filme. Cada elemento atinge um tal grau de mediocridade que se torna sublime; a começar pela história, uma desenxabida variação da tentativa de conquista e domínio mundial por parte dos scanners, malta geneticamente alterada com poderes de telepatia e telecinese. Umas espécies de Uri Gellers capazes não só de dobrar colheres com o poder da mente, mas também de fazer rebentar cabeças, artifício que permitira a Cronenberg não só satisfazer o gosto em apontar a objectiva a uma badocha poça de sangue e exibir dos efeitos especiais da era pré-digital mais convincentes de que há memória, mas que no filme de Duguay assume proporções do mais descuidado e risível gore, apimentado de risota extra pelas expressões ridículas dos protagonistas de todas as vezes que se concentram para exercer influência telepática uns sobre os outros.

Se no primeiro Scanners o plano de world domination era tratado com finura, com um sub-texto referente à Guerra Fria que lhe dava aquele salero social e político que um bom filme de horror e/ou ficção científica feito à good old fashion way tem de ter (em alternativa, ou complemento, ficam também muito bem as questões religiosas), em Scanners III a subtileza vai pelo ralo abaixo com a pressa digna da pilha fumegante de estrume que, afinal, é. Mas, caríssimos leitores, é uma pilha fumegante de estrume de qualidade, e é por isso que vale a pena continuarmos, eu a escrever, vocês a ler e a tentar descobrir como deitar mãos a este portento (não desesperem mais: está disponível via Amazon um pack com os três títulos - sim, inclui o de Cronenberg); ou, como alternativa, a pensar de que maneira me hão-de insultar mais tarde na caixa de comentários por vos estar a fazer perder tempo com isto.

Parte 2:
Tudo à bulha neste 'third installment' / Como a década de 80 ainda estava mais presente nos primeiros anos dos 90s do que está agora na última metade dos Anos Zero / Steve Parrish, esse Michael Paré de 3.ª categoria / Liliana Komorowska, aliás Helena Monet, deixa-se embriagar pelo poder

Em Scanners III, a bulha dá-se entre dois irmãos scanners, um que se retirou para um mosteiro budista para aprender a controlar os seus poderes depois de, por acidente, ter morto um amigo; e a sua irmã que, depois de deitar unhas a uma droga desenvolvida pelo pai adoptivo, aprende a controlar melhor os seus poderes ao mesmo tempo que se torna má como as cobras e resolve dominar o mundo fazendo uso das suas habilidades especiais e do facto de estar à frente de um império das telecomunicações - um canal com emissão para mais de quinze países, num total de 75 milhões de pessoas (acho que foi esse o número adiantado, embora no filme toda a população dominada que aparece sejam os poucos frequentadores de um bar algures, creio, no Texas, que olham hipnotizados para o rosto da malvada scanner na TV).

Chegamos assim às estrelas que dão rosto à obra: Steve Parrish é, sem lugar para dúvidas, dos piores actores de toda a História do Cinema, perfeito para o papel de um tipo amargurado, que não deseja o poder que tem, mas que deve aprender a controlar para se redimir do assassinato do amigo e para, em última instância, derrotar a sua irmã e salvar o mundo. Com contorções da face talvez só comparáveis às de Don Niam e John Miller no lendário Undefeatable (1994), Steve Parrish fica perigosamente perto da entrada do meu panteão pessoal de grandes canastrões a quem nunca deveria ter sido permitido aparecer na rua quanto mais fazer um filme, mas que, graças aos céus, conseguiram arranjar maneira de se infiltrar na película via produções manhosas deste gabarito. Arrisco: Parrish é uma espécie de Michael Paré mas em pior ainda - o que é dizer muito sobre um indivíduo - e com um currículo bastante mais reduzido.

(Já que estamos com a mão na massa, se quiserem ler mais acerca de
Undefeatable e do seu genial realizador, Godfrey Ho, cliquem aqui); e fiquem a saber que um novo filme estrelando Michael Paré está quase a estrear [directo para video, como seria de esperar], com o magistral título Ninja Cheerleaders, uma das raras combinações com a palavra 'ninja' de que Godfrey Ho não se lembrou.)


À polaca Liliana Komorowska coube o lugar de protagonista, facto que as más línguas dizem dever-se menos ao seu talento na área da representação e mais ao seu casamento com o realizador. Eu não alinho em insinuações deste teor, embora quanto ao talento da moça estejamos conversados logo nos primeiros minutos do filme. Fica para a História a sequência em que, durante um pequeno-almoço ao ar livre, a personagem de Liliana, Helena Monet, usa os seus poderes mentais para fazer explodir um pombo que está a incomodar a sua deglutição matinal. Penas esvoaçam mas espicha pouco sangue, até porque depois manchava-se a toalha de mesa onde estão as torradas e tal, e o pequeno-almoço não podia continuar dentro da normalidade; mas o requinte encontra-se nas patas do pombo que continuam agarradas ao candeeiro, última pousada do bicho antes da vilã scanner rebentar com ele.

A prestação de Komorowska neste filme é, como tudo o resto, péssima, o que só lhe fica bem. Como no início a sua personagem é uma boazinha angustiada e só depois começa a ficar mazoca e arredia, a actriz sente necessidade de evidenciar com muitos trejeitos faciais o seu estado de alma, quer numa situação quer noutra, resultando que passa uma parte do filme com ar de cachorro perdido e outra com ar de cabra vingativa. E é neste papel que se move com mais à vontade: quase aplaudi de pé quando Helena Monet, nua, usa os seus poderes para afogar o pai adoptivo no jacuzzi.

Em última análise, Liliana Komorowska (cada vez gosto mais do nome) é, em simultâneo, o melhor e o pior do filme. O melhor porque coloca, sem favores, o resto do elenco num chinelo, o que, dadas as suas óbvias limitações, atesta bem a qualidade das estrelas deste terceiro capítulo. E o pior, não só mas também, porque é quem mais acaba prejudicada com algo que se nota ao longo de toda película: os anos 80 andavam por lá, provando que o tempo não avança à mesma velocidade em todo o lado; apesar de já se estar em 1992, as roupas, os penteados, os décors, tudo está assombrado por um mau gosto típico da era dos blazers com chumaços nos ombros que faz Scanners III parecer ter sido produzido logo a seguir ao primeiro, mas com menos meios. O fenómeno - que não é assim tão invulgar quando começamos a perceber que talvez a primeira metade de uma década seja passada em tentativas sucessivas de nos livrarmos da anterior, e que a segunda metade é passada no desespero de reinventar uma qualquer década mais atrasada - chega mesmo a perturbar a de outra forma até agradável silhueta de Komorowska. Enquanto assistia ao filme, pensei que nenhuma actriz, por pior que fosse, merecia aquele tratamento; mas depois lembrei-me que Liliana é polaca, e que portanto devia estar habituada aos vestidos anacrónicos, aos penteados foleiros e à maquilhagem carregada.

Epílogo:
O charme nada discreto do camp involuntário

O conduto de Scanners III é servido numa bandeja de produção e realização lamentáveis, onde todo o orçamento parece ter sido destinado à compra de sangue e numa ou outra veia palpitante para as cenas em que as cabeças e o pombo explodem (embora o pombo, como já sublinhei, não tenha sujado nada por aí além), factor que contribui para a excelência que só um camp involuntário consegue ter. Dele se desprende o aroma de um telefilme dos que se papam em tardes preguiçosas de domingos chuvosos; mas, como leva bolinha vermelha no ecrã, acaba (como acabou ontem) remetido para as tantas da manhã, o que também ajuda a aumentar o seu charme.

4 comentários:

Stormy Mind disse...

Scanners III: tão mau que me dá vontade de o ver. Para me rir. Há filmes assim...

Capitão Radioactivo disse...

Dizes isto FHF porque nunca viste o “Highlander 5: The Source”

Carlos Gonçalves disse...

Vá lá, a sério, quanto é que te pagam para escrever assim tanto sobre o filme... :)

Filipe disse...

Estou em pulguedo para ver esse Highlander 5. E infelizmente não me pagaram nada para eu escrever isto, apenas me enviaram uma foto autografada da Liliana Komorowska. Já agora, Carlos, grande fotomontagem que me enviaste por mail, sim senhores! Obrigado.