quinta-feira, novembro 29, 2007

Virgens suicidas


Au Revoir Simone - "Sad Song".

São giras, teclam e cantarolam, sabem fazer bolinhos. E no próximo dia 5 actuam no Santiago Alquimista.

Os 50 PIORES programas de sempre

Já que estão a pensar quais serão estes......aproveitem para reflectir e votar também nestes :
50piores
Vezes há em que trabalho com a televisão ligada, um ruído de fundo, um screensaver com "bonecos a mexer", ao qual não presto atenção mas está lá. Os olhos focam-na apenas de hora a hora, durante os noticiários, e depois nem isso, quando as novidades se repetem em resumo. No zapping, ter cuidado de nunca parar em nada que preste, sob risco de ficar a assistir quando devia estar a escrever. Risco esse muitíssimo menor durante as manhãs e tardes.
É inevitável, nesses zappings, que se vá dar ao Contacto da SIC. Sei que falar disto são old news, mas a verdade é que este é um programa ainda com muito para dar, seja o que for que está a dar. Prova disso acabo de tê-la, quando um momento aparentemente de maior grau de escabrosidade fez o meu sentido se aranha disparar e parte da atenção desviar-se por momentos para o que se estava a passar no ecrã.
Nuno Graciano lendo passagens de uma livro de lengalengas infantis dedicadas aos nomes. Lê a da "Rita", que parece envolvida numa qualquer desventura com uma "periquita", rima com propósito acredito que sem segundas intenções, mas que Graciano, com a subtileza de um berbequim num cano de gás, acentua com um toque malandrete no tom de voz, mesmo que na presença de uma criança que, ao que parece, é presença habitual no programa. Rita Ferro Rodrigues ri-se muito, entre o divertida e o envergonhada (será que, depois de todo este tempo, ainda lhe passam pela cabeça as letras em néon: "O que é que eu estou aqui a fazer?").
Depois vem o final do programa, e há um jogo de casa chamado Dominó: faz-se a chamada, do outro lado a emoção de quem encara a possibilidade de ter voz na televisão com a solenidade de uma ida a Fátima, até porque vai poder ganhar dinheiro, e quem não gosta de ganhar dinheiro?, mesmo que para isso tenha de ouvir Nuno Graciano a cantar. Sim, uma versão de uma música de Quim Barreiros que o choque agora não me deixa recordar qual exactamente, com letra alterada para sublimar o fácil e o barato que é ganhar uns cobres no Dominó. Graciano convida a tia-autora das lengalengas para cantar com ele, com Rita Ferro Rodrigues, e com a tal menina de que falava há pouco, mas a tia-autora diz que prefere "só mexer a boca", ao que Graciano, de novo com a graciosidade de uma Scania a embater de frente contra uma fila de pessoas à espera de autocarro, responde - e eis a pièce de résistance - "Mexer só a boca? Isso é perigooosoo".
Imbatível.
Ou será que não?
Pois é, isto fez-me pensar: já que estão a votação os 50 melhores programas da televisão portuguesa de sempre, uma iniciativa PFtv, Sapo, Time Out e DN, é de aproveitar para reflectir também acerca dos piores. Acredito que será uma escolha ainda mais difícil, dada a vasta gama de possíveis candidatos. Estou a começar a elaborar a minha lista de dez, mas entretanto gostava de saber a vossa opinião.

Ora digam lá: quais são os 10 piores programas de televisão de sempre?

quarta-feira, novembro 28, 2007

Está online o teaser de MÁ ONDA

ma_onda_teaser

Cliquem na imagem para aceder ao site provisório do Má Onda (www.maonda.net) e poderem ver o teaser que preparámos para inaugurar as emissões online. Isto é só o começo.
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(Update, 13:46) A Joana Amaral Cardoso acompanhou há umas semanas uma tarde de rodagem e fez a reportagem ontem no jornal Público. Conseguiu sem dúvida captar o espírito que se vive entre nós de cada vez que pegamos nas câmaras digitais e nos telemóveis para concretizar mais uma sequência desta curta sci-fi que, para já, vai tendo existência em digisódios, e que, não tarda, está completa. Podem ler a reportagem aqui, bem como descobrir qual é a relação entre Má Onda e o Gordo Viaja clicando aqui. Pena que não estejam também online as belas fotos que o Miguel Dantas tirou durante a tarde.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Jape - "Floating"

Every SPAM is great

Bom, nem todo, mas às vezes encontram-se pérolas destas:

central do gado 01
central do gado_02

Pronto, se quiser umas novilhas inseminadas em Campinas já sei a quem recorrer.

quinta-feira, novembro 22, 2007

23


Parabéns, Scarlett. Estou um pouco atrasado, mas já aí vou ter à festa.

Foto: David Ferrua.

Cliquem aqui para regalar os olhos na antologia de Scarlett compilada e exposta pelo magnífico
E Deus criou a Mulher.

quarta-feira, novembro 21, 2007

Cloverfield - o 2.º trailer

No mesmo mail enviado para a Ain't It Cool News em que desfazia o mito de que o site Ethan Haas Was Right tinha alguma coisa a ver com o filme-mistério que estava a produzir (ao que parece, essa página é, isso sim, parte da promoção a um MMORPG ao qual, entretanto, não segui o rasto), JJ Abrams dizia que novidades só depois do Verão. E a novidade com 'n' que se veja é este novo trailer - fresquinho, fresquinho, acabado de brotar na web - de Cloverfield.

Desde a primeira vez que dei conta do filme, as teorias acerca da criatura que destrói (pelo menos) Nova Iorque já deram a volta e agora já havia quem acreditasse piamente tratar-se de Godzilla. Mas JJ Abrams também já quebrou esse mito: ""I want a monster movie, I've wanted one for so long. I was in Japan with my son and all he wanted to do is go to toy stores. And we saw all these Godzilla toys, and I thought, we need our own monster, and not King Kong, King Kong's adorable. I wanted something that was just insane and intense."

À partida, e sem subestimar a parte em que Abrams define a criatura como "insane and intense", adjectivos que provocam um alto grau de salividade quando aplicados a um ser capaz de destruir uma cidade inteira, o que realmente e para já me faz titilar em Cloverfield é a maneira como, segundo se sabe e vai vendo, a história está contada e filmada. Ou, pelo menos, parte dela. Trata-se da destruição de uma cidade, ou mais que isso - ainda não se sabe ao certo, embora neste trailer um diálogo entre dois personagens ("- Still filming? - Yeah. - "People are gonna wanna know how it all went down") leve a crer que se trata de um ataque localizado - contada do ponto de vista de um pequeno grupo de pessoas. Pelo que tenho lido, e que é parcialmente confirmado neste trailer, grande parte do filme é composta de imagens gravadas numa câmara encontrada no meio dos destroços, em Central Park, depois da hecatombe; segue-se a operação militar de captura/arraso (ou pelo menos tentativas) do bicho mau que anda a fazer das suas (já se vêem imagens desta 'segunda parte' neste novo trailer) que, pelo demonstrado, também é filmada por câmaras à mão numa lógica nervosa, quase documental. Actores pouco conhecidos + câmaras digitais = filme de produção relativamente barata ($150 milhões!!!) face aos muitos outros milhões que vai certamente arrecadar, numa lógica, diga-se, blairwitchiana mas - e isso percebe-se à primeira vista - com um aparato muito maior. Viva a revolução digital.

Impressionante também a maneira como, depois de Lost, outro projecto em que JJ Abrams está envolvido consegue igualmente gerar um burburinho tão grande online. Não me parece que exista alguém, quer na indústria televisiva quer na cinematográfica, a saber tão bem como Abrams mexer os cordelinhos do efeito viral que a net proporciona. A devida vénia à Paramount Pictures, que é quem está a levar a cabo a acção viral, mas não deixa de ser a Abrams, a Drew Goddard (argumentista) e a Mark Reeves (realizador) que se devem os resultados estonteantes que a dita acção tem vindo a ter (é que se os pressupostos não são bons o suficiente, não há máquina viral que funcione). A quantidade de blogs e canais youtubescos que se dedicam à análise exaustiva - frame a frame - do primeiro trailer não pára de crescer. O secretismo aguça a curiosidade, e as teorias e discussões multiplicam-se. A gestão da informação - o que dar, quanto dar, quando dar, como dar, e a quem dar - manobra comum na escrita de argumento e no marketing (e, já agora, na vida, mas estar a referir isso agora aqui, assim de repente, até parecia mal). Das teorias à volta do Slusho ao 'teaser-site das fotos' (que já conta com seis), a promoção é garantida porque é, ela própria, entretenimento. Cada peça do puzzle, seja real ou apenas imaginada pela comunidade é mais uma prova que JJ Abrams é, por assim dizer, o criador/realizador/produtor mais Web 2.0 da actualidade.

terça-feira, novembro 20, 2007

Dar a Rir

Começo por reproduzir o anúncio que está na página dos Médicos do Mundo:

Dar a Rir - Edição solidária a lançar este Natal

Médicos do Mundo vai lançar o livro "Dar a Rir" no próximo dia 20 de Novembro [HOJE], às 22h, no Maxime, em Lisboa.


Nem mais. Quando fui contactado pelos Médicos do Mundo, foi-me dito que o ideal seria que o meu texto tivesse, de alguma forma, relação com o universo dos médicos. Escrevi então um pequeno conto que intitulei de O Dr. House de momento não está (não é um texto de stand up, embora, segundo sei, a maioria o seja). Bela iniciativa esta a dos Médicos do Mundo, espero que se repita nos próximos anos. Este é um canhenho que fica bem, creio, em qualquer estante, porque à vontade de ajudar quem ajuda (frase quase bonovoxiana, hein?) junta-se o facto de estar a adquirir uma colectânea de textos da malta citada aqui em cima. E um meu, também - o que querem?, nada é perfeito.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Hiromi's Sonicbloom

ou quando o trio de virtuosos Uehara, Grey e Valihora (coleguinhas da Berklee) se torna quarteto com a entrada de outro virtuoso, David "Fuze" Fiuczynsk (professor na mesma escola). "Time Out" do álbum Time Control (2007).

Já deu para perceber que estou viciado.

Norman Mailer 1923-2007


Links relacionados:
Arena
Estado Civil

segunda-feira, novembro 12, 2007

Mais Hiromi

Hiromi Trio (Hiromi Uehara com o baixista Tony Grey e o baterista Martin Valihora)
"XYZ" - ao vivo no Shinagawa Aqua Stadium StellarBall, Tóquio, em 2005

Hiromi Uehara

"Kung Fu World Champion"
ao vivo no Tokyo Jazz 2004

sexta-feira, novembro 09, 2007

SATURNIA - ao vivo em Almada - hoje às 22h00

Saturnia é o projecto mais pessoal do Luís Simões, a.k.a. Zymon dos Blasted Mechanism, também conhecido por Kalifa Norton no universo cebolesco e colaborador frequente em bandas como os Cool Hipnoise. O Simões, para além de um dos melómanos e músicos mais talentosos e extraordinários que tenho o prazer de chamar de amigo (e que me chamam também amigo de volta, o que é raro), é também meu parceiro e do meu brother Eddie nos Cebola Mol; o mítico terceiro membro, o Phil Spector da banda. Quando este projecto, Saturnia, nasceu, nos idos de 1996, cheguei a ter uma muito breve colaboração com o Simões, que chegou para ele me honrar com uma nota na biografia. Hoje vai estar em Almada, na Casa da Juventude, a partir das 22h00, para uma actuação ao vivo onde surge acompanhado de Francisco Rebelo (Cool Hipnoise, Spaceboys). Eu vou lá estar, até porque vou filmar o espectáculo com o Bruno Canas. Fiquem com uma (pequeníssima) amostra do que é Saturnia ao vivo, com esta interpretação de "The Twilight Bong" (tema do álbum Saturnia, de 1999), durante um concerto em Lisboa há uns quatro anos. O mais recente trabalho do Simões enquanto Saturnia foi editado no início deste ano pela Elektrohasch, tem o título Muzak, e é para mim o seu melhor registo, tarefa difícil de concretizar quando os álbuns anteriores já colocavam muito alta a fasquia desta sonoridade que o próprio Simões define como "uma fusão entre o space rock psicadélico e ritmos electrónicos contemporâneos". O melhor mesmo é ouvir. E assistir ao vivo.

A TV Guia lá deles

A máquina promocional de Heroes volta a atacar, provando novamente que não há produto mais fácil de promover do que aquele que prestigia o meio que o promove. O buzz à volta da 2.ª temporada já seria suficiente para elevar ao estatuto de collector's edition este número da TV Guide, mas o clic verdadeiro dá-se ao saber que os autores das quatro diferentes capas disponíveis são Jim Lee, Phil Jimenez, Michael Turner e o inevitável Tim Sale. A "congénere" portuguesa da TV Guide que ponha os olhos nisto. Gostava de ver capas da TV Guia com ilustrações dos Morangos Coiso. Só não estou a ver é quem poderia desenhar, não conheço nenhum artista português de hentai.



quinta-feira, novembro 08, 2007

Máquinas


Biffy Clyro - "Machines", 4.º single do álbum Puzzle.
Video realizado por Phil Sansom e Olly Williams, a.k.a. Diamond Dogs.

Ainda o mp3 do Break

O mp3 do Break do Sócrates tem sido amplamente sacado, o que quer dizer que grande parte de vós tem já o rap a bombar nos aparelhómetros. Maravilha. Recebi no entanto alguns pedidos de socorro: malta que não consegue unzipar o ficheiro. Presumo que seja problema do vosso Stuffit, pelo que recomendo que o instalem outra vez. Se, de qualquer maneira, continuarem com o problema, deixem o vosso endereço de e-mail aqui na caixa de comentários ou enviem-no para salvoerro@gmail.com, que eu respondo o mais rápido possível com o ficheiro em anexo. Claro que, se o problema for mesmo do vosso Stuffit, o mais provável é que, quando receberem o ficheiro e tentarem unzipá-lo, se deparem com o mesmo stress. Por isso, o melhor mesmo é começar por fazer o download do programa aqui.

O Lobo Antunes

O José de Pina, que agora, para além do seu canal no You Tube, também tem um na Sapo, colocou online o sketch que escreveu e interpretou há umas semanas no Prazer dos Diabos acerca da loucura pelo râguebi que assolou o país. O Pina convidou-me para fazer o papel de jornalista que entrevistava Lobo Antunes, o jogador. Ou o escritor, já não sei, isto baralha-me.

quarta-feira, novembro 07, 2007

Maravilhas do cinema que não se percebe como continuam a passar ao lado de uma gorda fatia do público: Scanners III (1991)

(e planos para a possível elaboração de um Manual de Sobrevivência aos Maus Filmes)

Prólogo:

Da necessidade de distinguir entre mau cinema e cinema-tão-mau-que-é-bom / Primeiros passos na organização de um volume que ajude a suportar o angustiante visionamento de um filme que não tem interesse nenhum, mas que infelizmente o computador do indivíduo que o escreveu não foi abaixo de forma a que se perdesse de forma irremediável todo e qualquer registo da sua existência / Meet The Scanners


Muito se escreve acerca dos últimos blockbusters - e dos útimos blockbusted - que estreiam todas as semanas nas salas de cinema. O que não falta são opiniões, críticas e pseudo-críticas. Da minha parte, também vou, uma vez por outra, debitando os meus considerandos, contribuindo assim com uma dose diária de produção de código binário para a blogosfera (um dia, o Protocolo de Quioto há-de contemplar este tipo de poluição). Estou até a considerar a hipótese de escrever um manual - Como Sobreviver ao Mau Cinema - que ajude a minimzar os danos resultantes da dura experiência de assistir a filmes tenebrosos, naquelas ocasiões em que não conseguimos mesmo evitar fazê-lo.
Por exemplo - e dirijo-me primeiro às minhas caras leitoras - quando o namorado/marido faz questão de vos levar a assistir a uma maratona cinematográfica de todos os filmes com Chuck Norris.
Ou - e agora é para vocês, leitores do género masculino - durante a fase em que andam a cortejar uma garota e sentem que devem fazer o sacrifício de levá-la a assistir a uma qualquer comédia romântica com o Ashton Kutcher. Se bem que, se ela gosta de comédias românticas com o Ashton Kutcher, devessem pensar bem no que andam a fazer da vossa vida (já as garotas que se virem arrastadas para uma maratona dedicada ao Chuck Norris, pensem sempre que os vossos namorados/maridos sabem o que estão a fazer, e que, se libertarem a cabeça de preconceitos e abrirem os vossos corações ao bom e velho Chuck, vão conseguir abarcar a doce poesia que se desprende de uma pantufada rotativa em cheio no queixo de um meliante, uma pantufada daquelas que só o bom e velho Chuck pode proporcionar a uma queixada).

Tenho, portanto, vindo a desenvolver e apurar técnicas que permitem a qualquer um abandonar a sala de cinema sem ser detectado, ir a casa assistir a pelo menos um episódio da segunda temporada de Heroes, e voltar para o lado do namorado(a)/cônjuge sem que este(a) tenha dado pela vossa falta, bem a tempo de discutir os nomes que aparecem no genérico final, e fazer um brilharete com a frase: "Já viste a quantidade de gente que é precisa para fazer um filme?".

Mas receio que a partilha dessas técnicas tenha de ficar para segundas núpcias, uma vez que o meu fito neste momento é falar não de mau cinema, mas de cinema tão mau-mas-tão-mau-que-se-torna-bom. Tudo porque ontem assisti, entre o horrorizado e o encantado, a Scanners III.

Parte 1:
Do clássico de Cronenberg à sequela que brotou da pena de um dos autores de
Lone Wolf McQuade (um dos mais celebrados filmes com Chuck Norris) / 1992 e a chegada de Scanners III - o mundo talvez não estivesse preparado para isto, mas como quase ninguém deu conta do filme, a coisa passou-se sem grandes alaridos, o que é pena porque há poucos eventos dotados de maior beleza do que um motim numa sala de cinema

Scanners III: The Takeover, é dos piores filmes que já vi, categoria na qual também insiro O Código Da Vinci. Mas se este último é péssimo pelos piores motivos, Scanners III é horrendo pelos melhores, merecendo por isso que se disponha de alguns minutos para uma análise, embora uma sem o grau de profundidade que um diamante destes sugere (já O Código Da Vinci, que refiro aqui por apenas há alguns meses me ter submetido à antes calculada e depois confirmada tortura que foi vê-lo, é preferível que o esqueçamos para sempre; de facto, arrependo-me sequer de o ter mencionado - eu não presto).

O primeiro Scanners (1981) é, até hoje, um dos meus filmes favoritos de David Cronenberg. Bastava a interpretação de Michael Ironside para torná-lo memorável, e no entanto o filme é muito mais que isso. De Scanners II: The New Order, pouco ou nada me lembro - uma sequela sem dúvida mal-amanhada, já fora das mãos de Cronenberg, realizada dez anos depois, em 1991, por outro canadiano, Christian Duguay, e escrita por B.J. Nelson, também co-autor junto com H. Kaye Dyal de outra grande referência do cinema dos anos 80, Lone Wolf McQuade (1983), com Chuck Norris e David Carradine nos principais papéis, filme de certa forma percursor da série também com Norris que iniciaria o seu trilho de êxito dez anos mais tarde, e que haveria de ter fãs célebres e diversificados, de Conan o'Brien a George W. Bush (que têm critérios diferentes de apreciação da série, mas não deixam por isso de venerá-la, cada um pelos seus motivos e à sua maneira); falo, claro está, desse pagode que é Walker, Texas Ranger).

Um ano mais tarde, animados talvez pelo resultado de bilheteira ter sido maior do que a qualidade da película deixava antever, mas irritados por esse mesmo resultado ter sido inferior ao que esperavam obter por estar a fazer uma sequela de um filme de David Cronenberg (isto numa altura em que Cronenberg já gozava de popularidade e de opinião favorável por parte da crítica, com o soberbo Dead Ringers (1988) interpretado por Jeremy Irons em dose dupla e por Geneviève Bujold, e com Naked Lunch (1991), adaptação livre da obra homónima de William S. Burroughs, que contava com um Peter Weller pós-RoboCop), decidem avançar para Scanners III.

Tive ontem o prazer de assistir a este desastre, no TVC1 (TVC é a nova designação dos Canais Lusomundo), e, ainda boquiaberto, devo afirmar que não há nada que preste neste filme. Cada elemento atinge um tal grau de mediocridade que se torna sublime; a começar pela história, uma desenxabida variação da tentativa de conquista e domínio mundial por parte dos scanners, malta geneticamente alterada com poderes de telepatia e telecinese. Umas espécies de Uri Gellers capazes não só de dobrar colheres com o poder da mente, mas também de fazer rebentar cabeças, artifício que permitira a Cronenberg não só satisfazer o gosto em apontar a objectiva a uma badocha poça de sangue e exibir dos efeitos especiais da era pré-digital mais convincentes de que há memória, mas que no filme de Duguay assume proporções do mais descuidado e risível gore, apimentado de risota extra pelas expressões ridículas dos protagonistas de todas as vezes que se concentram para exercer influência telepática uns sobre os outros.

Se no primeiro Scanners o plano de world domination era tratado com finura, com um sub-texto referente à Guerra Fria que lhe dava aquele salero social e político que um bom filme de horror e/ou ficção científica feito à good old fashion way tem de ter (em alternativa, ou complemento, ficam também muito bem as questões religiosas), em Scanners III a subtileza vai pelo ralo abaixo com a pressa digna da pilha fumegante de estrume que, afinal, é. Mas, caríssimos leitores, é uma pilha fumegante de estrume de qualidade, e é por isso que vale a pena continuarmos, eu a escrever, vocês a ler e a tentar descobrir como deitar mãos a este portento (não desesperem mais: está disponível via Amazon um pack com os três títulos - sim, inclui o de Cronenberg); ou, como alternativa, a pensar de que maneira me hão-de insultar mais tarde na caixa de comentários por vos estar a fazer perder tempo com isto.

Parte 2:
Tudo à bulha neste 'third installment' / Como a década de 80 ainda estava mais presente nos primeiros anos dos 90s do que está agora na última metade dos Anos Zero / Steve Parrish, esse Michael Paré de 3.ª categoria / Liliana Komorowska, aliás Helena Monet, deixa-se embriagar pelo poder

Em Scanners III, a bulha dá-se entre dois irmãos scanners, um que se retirou para um mosteiro budista para aprender a controlar os seus poderes depois de, por acidente, ter morto um amigo; e a sua irmã que, depois de deitar unhas a uma droga desenvolvida pelo pai adoptivo, aprende a controlar melhor os seus poderes ao mesmo tempo que se torna má como as cobras e resolve dominar o mundo fazendo uso das suas habilidades especiais e do facto de estar à frente de um império das telecomunicações - um canal com emissão para mais de quinze países, num total de 75 milhões de pessoas (acho que foi esse o número adiantado, embora no filme toda a população dominada que aparece sejam os poucos frequentadores de um bar algures, creio, no Texas, que olham hipnotizados para o rosto da malvada scanner na TV).

Chegamos assim às estrelas que dão rosto à obra: Steve Parrish é, sem lugar para dúvidas, dos piores actores de toda a História do Cinema, perfeito para o papel de um tipo amargurado, que não deseja o poder que tem, mas que deve aprender a controlar para se redimir do assassinato do amigo e para, em última instância, derrotar a sua irmã e salvar o mundo. Com contorções da face talvez só comparáveis às de Don Niam e John Miller no lendário Undefeatable (1994), Steve Parrish fica perigosamente perto da entrada do meu panteão pessoal de grandes canastrões a quem nunca deveria ter sido permitido aparecer na rua quanto mais fazer um filme, mas que, graças aos céus, conseguiram arranjar maneira de se infiltrar na película via produções manhosas deste gabarito. Arrisco: Parrish é uma espécie de Michael Paré mas em pior ainda - o que é dizer muito sobre um indivíduo - e com um currículo bastante mais reduzido.

(Já que estamos com a mão na massa, se quiserem ler mais acerca de
Undefeatable e do seu genial realizador, Godfrey Ho, cliquem aqui); e fiquem a saber que um novo filme estrelando Michael Paré está quase a estrear [directo para video, como seria de esperar], com o magistral título Ninja Cheerleaders, uma das raras combinações com a palavra 'ninja' de que Godfrey Ho não se lembrou.)


À polaca Liliana Komorowska coube o lugar de protagonista, facto que as más línguas dizem dever-se menos ao seu talento na área da representação e mais ao seu casamento com o realizador. Eu não alinho em insinuações deste teor, embora quanto ao talento da moça estejamos conversados logo nos primeiros minutos do filme. Fica para a História a sequência em que, durante um pequeno-almoço ao ar livre, a personagem de Liliana, Helena Monet, usa os seus poderes mentais para fazer explodir um pombo que está a incomodar a sua deglutição matinal. Penas esvoaçam mas espicha pouco sangue, até porque depois manchava-se a toalha de mesa onde estão as torradas e tal, e o pequeno-almoço não podia continuar dentro da normalidade; mas o requinte encontra-se nas patas do pombo que continuam agarradas ao candeeiro, última pousada do bicho antes da vilã scanner rebentar com ele.

A prestação de Komorowska neste filme é, como tudo o resto, péssima, o que só lhe fica bem. Como no início a sua personagem é uma boazinha angustiada e só depois começa a ficar mazoca e arredia, a actriz sente necessidade de evidenciar com muitos trejeitos faciais o seu estado de alma, quer numa situação quer noutra, resultando que passa uma parte do filme com ar de cachorro perdido e outra com ar de cabra vingativa. E é neste papel que se move com mais à vontade: quase aplaudi de pé quando Helena Monet, nua, usa os seus poderes para afogar o pai adoptivo no jacuzzi.

Em última análise, Liliana Komorowska (cada vez gosto mais do nome) é, em simultâneo, o melhor e o pior do filme. O melhor porque coloca, sem favores, o resto do elenco num chinelo, o que, dadas as suas óbvias limitações, atesta bem a qualidade das estrelas deste terceiro capítulo. E o pior, não só mas também, porque é quem mais acaba prejudicada com algo que se nota ao longo de toda película: os anos 80 andavam por lá, provando que o tempo não avança à mesma velocidade em todo o lado; apesar de já se estar em 1992, as roupas, os penteados, os décors, tudo está assombrado por um mau gosto típico da era dos blazers com chumaços nos ombros que faz Scanners III parecer ter sido produzido logo a seguir ao primeiro, mas com menos meios. O fenómeno - que não é assim tão invulgar quando começamos a perceber que talvez a primeira metade de uma década seja passada em tentativas sucessivas de nos livrarmos da anterior, e que a segunda metade é passada no desespero de reinventar uma qualquer década mais atrasada - chega mesmo a perturbar a de outra forma até agradável silhueta de Komorowska. Enquanto assistia ao filme, pensei que nenhuma actriz, por pior que fosse, merecia aquele tratamento; mas depois lembrei-me que Liliana é polaca, e que portanto devia estar habituada aos vestidos anacrónicos, aos penteados foleiros e à maquilhagem carregada.

Epílogo:
O charme nada discreto do camp involuntário

O conduto de Scanners III é servido numa bandeja de produção e realização lamentáveis, onde todo o orçamento parece ter sido destinado à compra de sangue e numa ou outra veia palpitante para as cenas em que as cabeças e o pombo explodem (embora o pombo, como já sublinhei, não tenha sujado nada por aí além), factor que contribui para a excelência que só um camp involuntário consegue ter. Dele se desprende o aroma de um telefilme dos que se papam em tardes preguiçosas de domingos chuvosos; mas, como leva bolinha vermelha no ecrã, acaba (como acabou ontem) remetido para as tantas da manhã, o que também ajuda a aumentar o seu charme.

domingo, novembro 04, 2007

Greve de argumentistas nos EUA provoca primeira baixa a médio prazo

É quase certo que HEROES: ORIGINS não vai acontecer.

(podem acompanhar na Variety os últimos desenvolvimentos da greve)

sexta-feira, novembro 02, 2007

Um video bem romântico para este Halloween


Animal Collective - "Peacebone", do recente álbum Strawberry Jam.
Video realizado por Timothy Saccenti e produzido por Zooma Zooma.