domingo, outubro 21, 2007

É o último dos Editors um disco engatatão?

Ouvi com alguma atenção o mais recente trabalho dos Editors e devo dizer que não compreendo a má reacção que teve por parte de muita gente cuja opinião prezo. Ou melhor, até compreendo, mas não à luz de uma apreciação estritamente musical. O que se passa é simples: o vocalista anda a fazer-se à descarada às miúdas, e isso enerva as pessoas.

É verdade, Tom Smith anda a fazer muitos movimentos esquisitos com os braços (como já aqui havia notado), prática só suportável em dinossauros do pré-emo como Robert Smith, porque ele era - e ainda é - esquisito por inteiro, e por isso aqueles enrolanços não chocavam mais que a visão do todo. As vanguardas de ontem, hoje apreciadoras da sonoridade joydivisionica dos Editors, não admitem aos seus músicos de eleição outra pose que não seja a de profunda depressão, olhos lacrimejantes fitando a biqueira dos sapatos (ah!, o shoegazing dos The Jesus and Mary Chain que, de forma imperdoável, me esqueci de mencionar na playlist dos vanguardas, neste post), apenas lhes permitindo um eventual espasmo aqui e ali durante a actuação. Mais que isso é estar a armar aos cucos, o equivalente indie à sensualidade de pacotilha de um Enrique Iglésias, porno-propoganda-pop explícita que a pitalhada aprecia, mas que fãs de Editors que já ouviam os Joy Division quando o cadáver de Ian Curtis ainda não tinha arrefecido levam um bocado a mal.

Com a sua gestalhada pseudo-sedutora em palco - tão mais despropositada e forçada se pensarmos que, para além de vocalista, também toca guitarra -, fruto de uma qualquer necessidade que talvez insinue no tema "Well Worn Hand", Tom Smith consegue enervar tanto as mulheres como os homens. Estes últimos porque, detectando as claras intenções engatatonas de Smith neste trabalho, sentem-se postos de fora da equação. Mas é preciso que se diga, em abono da verdade, que o álbum propriamente dito sai incólume deste compreensível factor de enervamento, excepção feita ao tema já aqui mencionado. Tom Smith anda armado em engatatão, mas An End Has A Start não o é mais que muitas outras pérolas new wave, das originais às revisitações de hoje. Para além dos dois singles, outras músicas do álbum como "The Weight of The World", "Push Your Head Towards The Air", "Bones", ou "The Racing Rats" são de elevado gabarito, destacando-se as duas primeiras pelo ambiente belo e altamente depressivo que conseguem criar, a terceira pela elevada capacidade de contágio (é extremamente orelhuda), e a última pela eficaz riffalhada.

"When Anger Shows" é a minha aposta para próximo single e video; não na versão de 5m45s em que se apresenta no disco, mas num radio edit pensado para o éter. É provável que perca, uma vez que An End Has a Start está repleto de temas que valem por si só, merecedores dessa honra. E é, no conjunto, um óptimo álbum que escorrega como queijo derretido em tosta quente quando escutado de seguida. Ainda não o comparei com The Back Room (2005) porque ainda não tive vontade de ouvir mais nada dos Editors desde que comecei a ouvir este último trabalho. Esse mérito o disco tem: dá vontade de escutar uma e outra vez, coisa que, infelizmente, não me aconteceu com o mais recente de Interpol. Para ouvir bem alto, de maneira a sublimar o efeito de angústia confortável que normalmente se procura neste tipo de sonoridades. Aquela tristeza épica, que os Editors sabem tão bem traduzir para música.

1 comentário:

Stormy Mind disse...

Eu bem disse que devias gostar deste álbum dos Editors... Pessoalmente, os meus temas preferidos são An End Has a Start, When Anger Shows e The Racing Rats.

Digo-te já que falhaste no palpite para novo single, segundo se pode ler no site oficial da banda e na Wikipedia. :P Não me importava se tivesse sido When Anger Shows, mas antes de fazer a pesquisa (e fi-la apenas agora) já apostava em The Racing Rats. Aproveita e vê o vídeo no site dos Editors.