quinta-feira, dezembro 06, 2007

Há coisas medíocres, não há?

Está na altura da Cabo investir tanto em técnicos competentes
como faz em mulherio bem jeitoso para as suas campanhas publicitárias

Quando se trabalha em casa, como eu, é impensável não ter ligação à internet. Diacho, mesmo que não trabalhasse em casa, acho que preferia sair nu à rua do que não ter ligação à web, apesar do resto do mundo poder ter uma opinião diferente. Compreendo: eu próprio, se saísse nu à rua, evitaria olhar para superfícies espelhadas; seria escusado, mais a mais se estivesse um dia bonito, daqueles em que até parece mal andar à procura de sarilhos.

Já para não falar de, sendo grande parte do meu trabalho relacionado com televisão, ter a maior quantidade de canais cabo possível. Isto porque os generalistas nem sempre exibem - ou pelo menos nem sempre exibem a horas certas ou fora das madrugadas - as séries e afins que sigo, umas mais religiosamente que outras. E porque nem tudo merece a compra em DVD. Mesmo que não trabalhasse em televisão, tenho a certeza de que continuaria a ser um consumidor mais ou menos compulsivo de certos elementos do universo catódico, como sou desde tenra infância. Estou em crer que os primeiros ensaios para os actuais aparelhos de iPod video e telemóveis com emissão de televisão em directo fui eu que os fiz, ao tentar levar comigo para a escola um televisor com cerca de quatro vezes o meu peso para ver desenhos animados nos intervalos das aulas (durante dava muito nas vistas, porque mesmo os auscultadores eram granjolas).

Bom, mas isto tudo para dizer que sou, desde há muito - desde o início, creio - cliente da TV Cabo, quer dos serviços de TV, quer de net. A quantidade de canais e serviços que assino foi suficiente para que me ligassem de forma insistente para aderir a uma promoção: o telefone fixo, que me permitiria, disseram-me, fazer chamadas grátis para a rede fixa. Não teria de pagar nada, nunca, desde que pelo menos mantivesse o número de serviços. Só teria de pagar o aparelho de telefone da própria TV Cabo, ou, caso não o quisesse, poderia adquirir um numa qualquer loja, e a coisa estava feita.

Confesso que fiquei admirado com a insistência. Afinal, não estavam a tentar vender-me mais um serviço. Não, estavam apenas a tentar alertar-me para algo a que tinha direito, uma promoção que na altura me pareceu bastante simpática. E acabei por aderir. Raismapartam.

Penso que está na altura da TV Cabo investir tanto em técnicos competentes como faz em mulherio bem jeitoso para as suas campanhas publicitárias. Também sou grande fã das três amigas do "trrim, trrim", quer as de primeira, quer as de segunda geração (em especial a moça que foi agora capa da FHM, uma belíssima edição de coleccionador). O problema, no meu entender, é que não são elas que nos vêm a casa instalar os aparelhos. Se fossem, penso que uma fatia significativa dos clientes - os masculinos, pelo menos, e os femininos que se revêem nos dramas desconchavados de The L Word - estariam dispostos a aturar a mediocridade com que me deparei há umas semanas. Passo a explicar.

Sempre suportei com alguma ligeireza e humor a fraca qualidade da assistência técnica que a NetCabo dispõe via telefone. Muitas foram as vezes que a minha ligação à internet estava completamente morta, e telefonei para o número disponibilizado pela NetCabo para tentar resolver o problema. E grande parte das vezes deparei-me com o insólito de estar a falar com técnicos, ou, deverei dizê-lo, supostos técnicos, que percebiam tanto do assunto como eu percebo, digamos, por exemplo, o porquê de alguém ter contratado estes técnicos, ou supostos técnicos.

Mas até aí tudo bem. Consigo lidar com o muitas vezes aparente desinteresse que do outro lado da linha me responde aos problemas que lhes apresento, fruto talvez de a maior parte destes técnicos encararem o prestar deste serviço de assistência como mais um MacJob, coisa passageira, uma chatice antes de encontrarem o emprego que desejam, e para o qual muitos até se deram à trabalheira de tirar um curso. Não lhes posso levar a mal. Tenho este hábito desagradável de ser mais tolerante com a incompetência quando a encontro em funcionários de cargos de relativo desinteresse, que não estimulam a vontade de fazer seja o que for, do que quando a reconheço em graus mais elevados de responsabilidade. Agora, o que me deixa mesmo de rastos é a chico-espertice.

E é de chico-espertice que trata este post. Da chico-espertice dos técnicos, ou, diga-se em abono da verdade, de um dos dois técnicos que certa manhã se dirigiram a minha casa para a entrega do dito equipamento telefónico. Fui apanhado de surpresa: afinal, em ambas as datas acordadas via telefone para entrega do equipamento, ninguém apareceu. Neste ponto, é de louvar o engenho dos serviços da TV Cabo, ou, neste caso, NetCabo: como das vezes em que tinham marcado comigo uma data nenhum dos seus funcionários apareceu em minha casa, resolveram não me dizer nada e assim garantir que o equipamento seria entregue. É um raciocínio complexo, mas a malta da TV Cabo chegou lá, e é de se lhes tirar o chapéu.

A operação passou-se assim: a campainha acordara-me e os meus olhos estavam colados por dois finos mas sólidos filamentos de ramela. O baque surdo da minha testa contra a porta de casa denunciou a minha presença aos homens da NetCabo que aguardavam do outro lado. Abri a porta e só não senti que o Natal tinha chegado mais cedo porque, como já disse, tinha os olhos colados e não vi quando um dos homens me tentou entregar um pacote laranjóide para as mãos. "Mas então e isto é o quê?", perguntei. "É o equipamento telefónico a que tem direito, só tem de assinar aqui".

Isto do assinar tem muito que se lhe diga. Para começar, exige que um tipo leia a folheca antes de pespegar com o nome lá em baixo, o que só com muita arte se consegue fazer de olhos fechados. Dada a impossibilidade de abri-los em termos, limitei-me a gatafunhar o meu nome em local apontado de forma atenciosa pelo funcionário da NetCabo. Afastei-me um pouco para o lado, de maneira a dar passagem aos técnicos para que entrassem e procedessem à instalação do equipamento, mas já eles se afastavam depois de cumprida a tarefa de entrega. Poderia ter adormecido ali de pé, com o pacote laranja debaixo do braço, não fosse a tomada de consciência de que era eu, e não os técnicos, que teria de instalar o equipamento, coisa que não me pareceu de todo disparatada (qualquer pessoa consegue ligar um fio à parede), mas que me fez meditar, nostálgico, no tempo em que a assistência da TV Cabo incluia ter quem até fizesse os furos nas paredes necessários para a passagem da cabalhada. Hoje em dia, a julgar pelo que acabara de acontecer, essa tarefa anteriormente prestada pela TV Cabo estava englobada na filosofia Ikea, em que se paga menos mas se tem de montar o mobiliário. O que me parecia justo, dado a gratuitudade do equipamento que me tinham acabado de ofertar.

Nada como chapinhar nas memórias para dissolver filamentos de ramela; senti que estava a acordar para o dia. E que melhor início de dia do que instalar um telefone? Naquela altura não conseguia lembrar-me de nada, estava ainda abalado pela visita surpresa e nomes como "Camila Pitanga" e "Juliana Paes" não me ocorreram de imediato ao pensamento. Mas o verdadeiro abalo senti-o quando abri o pacote e percebi que instalar aquele telefone era ainda mais difícil do que eu pensara.

É que não havia lá telefone nenhum.

Esta foi a altura em que entrei no limbo. Aquele limbo em que o tempo se suspende para permitir uma auscultação dos dados e da sua sequência. Teria eu perdido algum pedaço de informação? Não tinha ficado combinado que me iriam entregar um telefone? Sim, tinha. Um sem fios, lembro-me de ser especificado. O que é que me escapava em tudo isto? Estaria a ser vítima de uma galhofita de consequências ainda por apurar? Onde é que estavam as câmaras dos apanhados? Mas... na minha própria casa? Seria legal? Era como se não tivesse ainda acordado e a situação não passasse de um mal-amanhado sonho ruim.

Esbofeteei-me ao de leve cerca de três vezes. Era preciso acordar e lidar com o engano (na altura pensava ainda tratar-se de um engano). Os técnicos já tinham feito como o Elvis e had left the building, a melhor estratégia seria por isso correr até à janela antes que tivessem tempo de zarpar rua afora a bordo da viatura. Dei com eles prestes a levar chave à porta e falei alto de maneira a fazer-me ouvir lá em baixo, acenando a caixa que me tinham entregue há instantes:

- Olhe, desculpe, isto é um telefone?

A pergunta tinha razão de ser. Se me entregam um equipamento telefónico para as unhas, é de esperar que inclua o telefone. Sem telefone, um equipamento telefónico é apenas equipamento. Digo eu. Mas estava aberto a outras explicações, inlcusive uma que, longe de razoável, me parecia pelo menos natural vinda da malta da Cabo: "O telefone em si vem mais tarde, esse é só o modem multimédia preparado para o serviço telefónico." E pronto, uma resposta destas levar-me-ia a encolher os ombros e dizer qualquer coisa como "Não tinha sido melhor entregarem tudo de uma vez? Dado que já foi tão difícil combinar esta entrega, agora quanto tempo vou ter de esperar para que este equipamento tenha aquilo que lhe é indispensável para o funcionamento, e que é o telefone propriamente dito? Bom, vejam lá isso". Mas não, não foi essa a resposta, longe disso. Porque essa resposta era uma explicação. Uma má explicação mas, ainda assim, uma explicação.

Só que explicação era coisa que a rapaziada da Cabo, ou pelo menos um deles, não estava disposto a dar. Falo daquele que levava chave à porta e se preparava já para entrar no carro, deixando ao outro a tarefa de se explicar perante aquele tipo acabado de acordar que aparecia à janela, não sem antes deixar-lhe um conselho - dos bons! - que apesar da distância consegui ouvir:

- Diz que sim, diz que sim.

Aqui vi-me obrigado a recapitular. Não tinha eu perguntado se aquilo era um telefone? Tinha. E não abrira eu já a caixa e visto que não continha nenhum telefone? Pois também. Portanto, à minha pergunta
- Olhe, desculpe, isto é um telefone?
um dos técnicos da Cabo reagira dizendo ao outro
- Diz que sim, diz que sim.
enquanto entrava no carro.

"Diz que sim, diz que sim", neste contexto, significa qualquer coisa como "despacha lá o gajo e vamos mas é embora antes que ele perceba que não trouxemos o telefone e depois temos de estar aqui com explicações e explicar coisas às pessoas é uma seca e eu não estou para isso, ó catano" (a parte do "catano" será talvez já um exagero de interpretação da minha parte).

É aqui que entra aquilo da chico-espertice. É o nome mais polido que encontro para caracterizar a falta de consideração deste tipo de resposta, ou conselho de resposta, que o técnico da Cabo deu ao colega sem esperar que eu também o escutasse. Tratei de explicar que já tinha aberto a caixa, que sabia que não estava ali um telefone, que me tinha apercebido de que aquilo era apenas o modem, que com a minha pergunta só pretendia de facto saber quando contavam entregar-me o telefone. E que, em vez disso, tinha comido com um "diz que sim, diz que sim, mente lá ao gajo e vamos mas é daqui para fora rápido".

Enquanto o colega do conselho estava já dentro do carro na postura do "isto não é nada comigo, eu até já estou ao volante", o outro técnico escutava a minha indignação pelo "diz que sim" e dizia "da parte que me toca só posso pedir desculpas". Meteu-se no carro e lá foi como pendura mais o chico-esperto.

Telefonei para as reclamações da Cabo e juntei-me a uma fila de espera de longos minutos até ser atendido. Expus o meu caso e foi-me dito que, para a reclamação surtir algum efeito, teria de colocá-la por escrito e enviá-la aos serviços da NetCabo. Foi-me oferecida uma compensação pelo sucedido, um desconto na mensalidade das dezenas de canais que assino. Não aceitei porque não é com descontos em assinaturas que se compensam faltas de educação, consideração, profissionalismo, honestidade. Estes técnicos são o verdadeiro rosto da TV Cabo, (o maior operador nacional de televisão por cabo e satélite e um dos mais importantes da Europa), são quem lida de perto com os clientes; a par das suas qualificações técnicas, deveriam ser escolhidos para as funções que desempenham tendo em conta as suas capacidades na área das relações públicas. Ou então, simplesmente, por não mentirem aos clientes.

Se ao menos tivessem sido as moças da campanha a fazerem-me uma destas, até me podiam ter deixado um pacote com duas latas unidas por um cordel que eu, mesmo assim, ficaria a achar que aquilo era um telefone. Infelizmente, não foi o caso, até porque duas latas unidas por um cordel dão muito menos trabalho a instalar e fazem chamadas grátis para todas as redes.

3 comentários:

Avelelas disse...

partilho completamente com a tua opinião... e sempre k m perguntam, nem k seja a publicidade na tv, se ha coisas fantasticas eu grito com alto e bom som NAO!
já agora gostei mt da tua participação nos incorrigiveis....

P.S. se alguem gostar de perder tempo, passe no meu blog http://projectoinacabado.blogspot.com

Carlos Gonçalves disse...

Mas... era mesmo um telefone?
Não seria um daqueles novos "Teleporters"?? dos que estamos habituados a ver no Star Trek??

AjBesta disse...

...epá , ainda bem que avisas , já anda um gajo a telefonar cá para casa á 4 semanas e eu ainda não me tinha decidido "se-sim-ou-sopas" , não sei porquê nestes telefonemas fico sempre um grande tótó e não consigo dizer NÃO!!! , rais-parta !!!

...tá decidido, obrigado pela ajuda FHF...