Quinta-feira, Agosto 16, 2007

The King Lives

Elvis Presley morreu em 1977, neste mesmo dia de Agosto, ou pelo menos é o que a grande maoria acredita. Mas nos EUA, 14% dos inquiridos continuam a pensar que o Rei continua vivo e de saúde, e que a sua morte não passou de uma encenação com o objectivo de escapar a supostas ameaças por parte da máfia, ou de fugir às pressões da fama. Noutros casos de realeza, como no que respeita ao Rei D. Carlos, morto a tiro em 1908, custa a crer que haja alguém sequer capaz de colocar a hipótese de uma encenação, embora já tenham chegado a perguntar-me se é verdade que na série sobre o Regicídio vamos pôr a hipótese de D. Carlos ter sobrevivido (vejam a caixa de comentários deste post, que na altura intitulei "D. Carlos has left the building", sem pensar na ironia acrescida que o título teria depois desta questão absurda). Mas quando o assunto toca Elvis Presley, uma figura que já há muito conquistou o estatuto de lenda, vale a pena embarcar em suposições fantasiosas, como o artigo de Nik Cohn, publicado no mês passado, em que um Elvis de 72 anos fala sobre si próprio; memórias de um homem que nunca quis o estatuto de santo que o tempo lhe foi trazendo, e que enfrenta agora a morte que, segundo Cohn, encenou há 30 anos.

A imagem de um Elvis velho e a sofrer desta mesma doença terminal (cancro da próstata) já ganhara corpo em 2002, no brilhante filme que Don Coscarelli fez a partir do conto de John R. Landsdale, Bubba Ho-Tep, onde outro dos meus ídolos, Bruce Campbell (na foto), veste a pele de um Elvis depauperado, fechado num asilo onde ninguém acredita que ele seja o verdadeiro Rei (por falar nisso: a prequela Bubba Nosferatu and the Curse of the She-Vampires tem estreia agendada para 2008). A ideia de um Elvis Presley ainda vivo, a observar de longe a derrota nos tribunais, em meados dos anos 80, do seu arqui-inimigo (o manager Tom Parker; e que melhor e mais provável vilão dedicado a destruir a vida de um artista que o seu próprio manager?), e a constatar incrédulo a adoração de que é alvo por milhares e milhares, é uma hipótese tão mítica quanto o próprio Elvis. E daqui a outros 30 anos, quando, a estar mesmo vivo, ele já tivesse 102 anos, vai continuar quem jure a pés juntos que Elvis está hoje à frente de uma estação de serviço no Nevada, ou a beber cocktails exóticos nas praias do Havai, palco das muitas produções cinematográficas que interpretou, na época motivos de uma queda brutal da sua popularidade, mas hoje verdadeiros objectos de culto; e onde, em 1973, actuou, mais precisamente no Centro de Convenções de Honolulu, naquela que foi a primeira transmissão via satélite de um programa de televisão, com mais espectadores do que as pisadas inaugurais de Neil Armstrong na lua. Um hit, portanto.

Elvis Presley nunca concretizou o sonho de interpretar Don Vito Corleone, papel que acabaria por ser entregue a Marlon Brando, mas será sempre uma espécie de padrinho dos Cebola Mol (a par de David Bowie, ou não fosse Stardust o nosso apelido), na medida em que quando eu e o Eduardo estávamos a (des)compôr os primeiros temas daquele que viria a ser The Very Best Off The Essential - Vol.II, o Rei estava sempre a soar, quer na aparelhagem, quer nos nossos corações rústicos. Ritual que já vinha das horas passadas a escrever os sketches da Conversa da Treta para a rádio. Elvis era faixa negra de Shotokan, mérito que dividimos, e garanto-vos que sentia o espírito do Rei baixar em mim - como se diz no Brasil - de cada vez que encenava em palco alguns movimentos de Karaté, no início das primeiras actuações dos Cebola. Ou era o espírito do Elvis, ou era a medicação a fazer efeito, das duas, uma.

Um facto menos conhecido da História Elvisiana, a par da sua tendência para destruir televisores a tiro quando o programa não lhe agradava, é a origem do visual que adoptou nos anos 70, durante as suas inúmeras (mais de 1000) actuações em Las Vegas. O mítico jumpsuit, nas suas várias versões, tem origem noutro gosto que, tenho o privilégio de poder dizer, partilho com o Rei: os comics. Elvis Presley era fã acérrimo do personagem Captain Marvel Jr., e o jumpsuit é inspirado no uniforme do jovem herói. Nos videos que deixei aí em baixo há um excerto de um documentário que fala exactamente disso.

Até onde me diz respeito, Elvis Presley está vivo e continua a lançar discos, como é o caso deste best of (mais um) lançado agora: 52 temas de puro ouro rock 'n' roll, country e gospel, gravados entre 1954 e 77 como só Elvis sabia interpretar. O álbum é muito apropriadamente intitulado Elvis The King, e mesmo que já se tenham a maior parte destes temas noutros cd's, a simples presença da versão ao vivo de "Are You Lonesome Tonight?", em que o Rei, durante uma actuação ao vivo a 3 de Abril de '60, começa a rir no início da música e continua a rir até depois de ela acabar (sem deixar muito espaço para trautear a letra original), justifica a aquisição desta colectânea. Elvis Presley está vivo ao ponto de poder morrer todas as noites durante duas semanas, na marcante interpretação que o Tónan Quito fez do bombista/Elvis ("Eu sou a minha própria bomba."), sugerido pelo texto do Joaquim Horta, "Dispersão ou Simulacro de Urgência", incluído nas Urgências 2007.

Deixo aqui um apanhado do muito de Elvis que se encontra no estaminé You Tubiano. A saber: O videoclip possível em 1957 de “Jailhouse Rock”; “Blue Christmas” - Elvis em full black leather, visual entre Johnny Cash e Vitor Gomes (a voz dos Gatos Negros), no especial de Natal que fez para a NBC, actuação que marcou o seu comeback, e onde Elvis faz uma breve e ligeira imitação de Porky Pig (aliás, Mel Blanc, que fazia as vozes de 99,9% dos Looney Tunes, e também gravou a sua própria versão da música); um dos meus temas favoritos, “In The Ghetto”, ao vivo em Las Vegas (1970); a genial actuação de 1973, no concerto Aloha from Hawaii - ao som de “Suspicious Minds”, Elvis leva as fãs ao rubro quando beija uma delas; “Are You Lonesome Tonight?”, 1977, a escassas semanas da sua morte, em que Elvis volta à rotina de aldrabar a letra e começar a rir a meio da música (aqui parece evidente que se esquece mesmo da letra), provocando o aplauso da multidão emocionada; o desfecho desse mesmo concerto, a dolorosa e pungente interpretação de “Unchained Melody”, (“Ladies and Gentlemen, Elvis has left the building”); o trailer de “Elvis Adrenaline ‘71”, documentário com imagens raríssimas onde o Rei demonstra bem os seus dotes marciais e se revelam muitos jumpsuits até agora desconhecidos da maior parte do mundo; e o já referido excerto do documentário onde se fala das muitas influências de Captain Marvel Jr. na vida do artista. Ora rejubilem lá um pouco com estes fragmentos de uma lenda.




A rodar na FHfm, "Love me tender".

4 comentários:

Ana Henriques disse...

Excelente artigo!

Será que o podemos publicar na revista do nosso boletim?

Ana Henriques
www.cofebs.com

filipe disse...

Obrigado, Ana. É muito bom saber que alguém tão dedicado à vida e carreira de Elvis Presley pode encontrar no meu post motivos de interesse.
Quanto ao convite: claro que sim, com todo o gosto. Queres que faça uma edição no texto, para adaptar as referências aos videos que, obviamente, não estarão no boletim? Maila-me para o salvo erro arroba ponto com, para eu ficar com o teu mail.

Stormy Mind disse...

"E daqui a outros 30 anos, quando, a estar mesmo vivo, ele já tivesse 102 anos, vai continuar quem jure a pés juntos que Elvis está hoje à frente de uma estação de serviço no Nevada, ou a beber cocktails exóticos nas praias do Havai." Ontem pensei exactamente no mesmo...

Hoje em dia, a desculpa de sermos novos e, por isso, não conhecermos um determinado artista não é muito aceitável, mas a verdade é que conheço muito pouco da discografia do Elvis. Provavelmente, apenas as músicas que fizeram maior sucesso na época. Por algum esquecimento, confesso, ainda não surgiu uma boa oportunidade para conhecer melhor o Elvis. Assim, foi com bastante agrado que li este teu post, no qual relembrei umas quantas músicas que, afinal, sempre fazem parte das minha memórias. Na tua selecção de temas notei a falta de Can't Help Falling In Love, do qual me lembrei logo. Mas nada como recorrer ao YouTube para recordar a música.

Desconhecia as influências do Captain Marvel Jr. na forma como o Elvis se apresentava em público. Uma curiosa descoberta, para mim!

Por tudo isto, parabéns pelo bom post. De facto, 30 anos depois da sua morte, o Rei continua vivo.

Izzy disse...

Quando era miuda passei uma fase em que estava apaixonada pelo Elvis. A RTP passava imensos filmes e o miudame nao lhe conseguia resistir. *suspiro* *twink twink*.

Off-topic: A Rolling Stone editou nao um, nao dois, mas tres (!) numeros dedicados ao 40. aniversario da revista. "1967: Summer of Love" esta um mimo! Que delicia ler sobre os primordios das bandas que produziram o melhor rock de sempre.