quarta-feira, março 28, 2007

Alfredo Costa

"Foi no corrente de 1906 que Raul Pires apresentou no Gelo um rapaz de vinte e oito anos, alto, desengonçado de corpo, de uma fisionomia séria, quase triste, a que ninguém ligou importância. Grandes olhos castanhos, lentos a mover-se, com uma fixidez que parecia de sonâmbulo e era de atenção, um nada de barba loura no queixo, o nariz levemente amolgado sobre a esquerda. É provável que uma tuberculose descurada, traiçoeiramente seguindo caminho, lhe achatasse o tórax, aguçasse os ombros e lhe imprimisse às costas uma quebratura já perceptível. (...) Era um homem de uma só peça, crente até o iluminismo interior, instruído o que basta para reconhecer que a vida se compõe numa tábua mais ou menos certa de problemas, de resultado dependente da vontade. (...) Alfredo Costa foi o homem, atirado para a cidade da aldeia alentejana, e que, dobrando-se sobre si, batido dos baldões, «se encontrou a marchar». Atrás, todo o atavismo da alma popular, opressões, tristeza, fatalismo, mansuetude de cordeiro. Pela frente, o torvelinho do século, luz e sombras, ideias confusas, ideias desordenadas, ideias; a vida com as facetas todas; o homem em todos os planos. (...) Para a improvisação intelectual de Costa, a revolução pregada em 1906-907 devia ser, com suas promessas de resgate, a ideia adequada. E daí até à paixão, o estado de consciência que implica uma aptitude desenganada para todos os extremos, a distância não era pequena.
Por uma vereda longa, mas directa, decalcada segundo tais tópicos, chegou Alfredo Costa ao regicídio. Olhe-se para ele, lá longe, ao despedir da planura alentejana, tão cheia de ascetismo que parece destinada a implantarem-se ali calvários ululantes de supliciados. Que trouxe com ele, envolto no roto sudário mouro, mal passado nas águas cristãs, que não fosse rebeldia latente, noção da própria mesquinhez, fome de humanidade? O transporte da vida para um plano sobrenatural deixa o Alentejano indiferente."

in Um Escritor Confessa-se,
Aquilino Ribeiro.

7 comentários:

dom manuel de um par de pauzinhos, disse...

_ Quero dizer, anda um indivíduo de pequeno, a submeter-se a um tratamento para tonificar a estrutura muscular do pescoço, com a finalidade de ostentar o peso de uma coroa, e quando estava a apanhar o jeito à coisa, surgem dois marmelos vindos duma rifa desconhecida, e furam-me o meu belo uniforme. Como se não bastasse, e para compor o ramalhete, esse tal alentejano mal parido, Alfredo Costa, ainda me desfaz o penteado que tanto me custou a aprumar... A vergonha que eu passei, quando me apresentei ao S. Pedro! Sinceramente!

Anónimo disse...

epa filipe, sinceramente, acho q nunca fiquei tão entusiasmado com um projecto de ficção português como tou com o regicídio. o conceito q descreveste é muito bom, original e intrigante, e n escrita eu tenho confiança. por estas razões, e enquanto revejo alguns episódios da paraíso filmes e espero que a rtp lance em dvd a herman enciclopedia e a paraiso, salivo para ver a morte do rei. salvoseja. abraço luis figueiredo

Filipe disse...

Obrigado pela confiança, esperamos corresponder a tanta expectativa. Estão a ser seis episódios bem complexos de escrever, mas é também por causa disso que estão a dar bastante gozo. Abraço

joseramos disse...

Força e continuem nesta bruma que envolve o final da monarquia e a 1º républica.
O regicídio foi uma consequência de algo mais perigoso que se passou nos 1ºs anos do século XX.
Toda esta história foi apagada das escolas e dos Portugueses por alguma razão.
Estou em escrita de uma ficção sobre esse assunto.
Depois enviarei um exemplar ao Filipe.
Desjo um bom trabalho e cumprimentos.
José Ramos

Anónimo disse...

dom manuel de um par de pauzinhos:

LOL isso seria interessante de ver, contando só que no século XX já nenhum rei anda(va) de coroa e ceptro na mão xD E em Portugal desde o século XVI.. xD

Anónimo disse...

republicanos=azeite=teias de aranha

coitados, eu meu tu és da família do Mário Soares ?

Filipe disse...

Não, meu, não sou.