O «Plan 9 From Outer Space» dos filmes de artes marciais
Há que dizê-lo: Godfrey Ho é um génio. Um realizador que, durante 25 anos, trouxe ao mundo dezenas de filmes com a palavra “ninja” no título. Com uma produção que rondava os sete e oito filmes por ano (em 1987 chegou aos 18 filmes, 16 deles – lá está – contendo a palavra “ninja” no cartaz). Todas as combinações possíveis foram pensadas por Mr. Ho para dar nome às suas películas: “Ninja: Silent Assassin”, “The Ninja Showdown”, “Ninja Phantom Heroes”, “Bionic Ninja”, “Death Code: Ninja”, “Cobra vs. Ninja”, “Zombie vs. Ninja” e tudo o mais que possam imaginar – Godfrey Ho chegou lá primeiro.
O segredo da abundante produção deste realizador de Hong Kong, capaz de rivalizar com os prolíficos profissionais indianos de Bollywood, é a sua abordagem inovadora à sétima arte. Ho conseguia fazer sete filmes pelo preço de um, filmando cenas em que ninjas executavam lutas e cabriolas e depois repetindo essas cenas em filmes diferentes. Era só preciso rodar mais umas poucas sequências em que o protagonista e o big-bad-boss aparecessem de cara descoberta e, quando chegava a altura da porrada, apareciam vestidos de ninja – cara tapada – e lá entravam as cenas avulsas. A história é cosida com os pés, os diálogos são de um ridículo delicioso, os actores sublimemente péssimos… que diabo – TUDO nos filmes de Ho é tão mau, mas tão mau, que se torna hilariante.
De uma adolescência passada a ver grande parte da obra deste grande senhor (sem na altura me aperceber que os vários Ninja-qualquer-coisa eram na sua grande maioria de Godfrey Ho, às vezes sob um dos seus muitos pseudónimos), aquele que me marcou como um ferro-em-brasa marca um novilho foi (salvo erro, porque nunca mais voltei a vê-lo desde então) “Ninja Force of Assassins”, de 1988. Foi neste filme, se não estou enganado, que encontrei uma das mais reluzentes pérolas do cinema série Z, na forma deste diálogo que guardo até hoje como exemplo máximo do que é falar sem dizer nada, dizendo tudo. Previno que a minha transcrição não fará jus à cena. Há que vê-la para conseguir abarcar a sua magnificiência. De qualquer maneira, aqui vai, de memória:
O Ninja Branco (portanto, o Ninja das Forças do Bem, porque os Maus eram sempre os Ninjas Negros), vestido à civil, provavelmente o actor Mark Tyler naquele que foi o seu primeiro e último papel no cinema, entra no quarto de hospital, onde o seu amigo está imóvel na cama, em péssimo estado depois de ter levado uma sova, enfaixado da cabeça aos pés, só com boca e olho e meio de fora. Ao vê-lo assim, o Ninja Branco fica chocado (e, meu deus, a forma soberba como Mark Tyler faz de chocado).
Ninja Branco: Quem é que te fez isto?
Amigo (com dificuldade): Ninja…
Ninja Branco: Ninja??!
Amigo: Ninja.
Ninja Branco (levantando o punho como quem promete vingança): Niiinjaaa!
Ora, isto é brilhante em qualquer parte do mundo. E tenho a dolorosa consciência de que, por mais anos que viva, nunca estarei à altura de escrever pepitas de ouro deste calibre, provavelmenre rabiscadas pelo próprio Godfrey Ho num guardanapo de papel enquanto se sentava numa sala de montagem para elaborar mais uma das suas inolvidáveis cenas de luta e piruetas entre ninjas.
Curiosamente, não é por causa de um filme de ninjas que este post aconteceu. Tem a ver com aquela que é, ao que consta, a obra-prima de Godfrey Ho, aquele que é por muitos chamado de o Plan 9 From Outer Space dos filmes de artes marciais. Falo de “Undefeatable”, de 1994, que nunca tive a felicidade de ver, mas que, agora que o conheço, me deixa em pulgas. Passando pelo blog do Nuno Duarte, deparo-me com isto. Não sei se será a prova definitiva do génio de Godfrey Ho, mas é pelo menos uma bela amostra. Nesta sequência de luta fica bem patente outro dos inigualáveis talentos de Ho: os actores que escolhia eram sempre um acontecimento por si só. Reparem bem na superior capacidade de interpretação e no penteado de Don Niam. Assombroso, com tudo o que a palavra tem de assustador. E a colher de café na mousse de chocolate que é a frase final, pela voz da protagonista Cynthia Rothrock, a diva do mundo das artes marciais.
Infelizmente, há cerca de dez anos que Mr. Ho se retirou. Resta-nos o consolo de saber que pequenas migalhitas do seu saber andam a ser passadas às novas gerações, uma vez que hoje em dia Godfrey Ho dá aulas de cinema.
O segredo da abundante produção deste realizador de Hong Kong, capaz de rivalizar com os prolíficos profissionais indianos de Bollywood, é a sua abordagem inovadora à sétima arte. Ho conseguia fazer sete filmes pelo preço de um, filmando cenas em que ninjas executavam lutas e cabriolas e depois repetindo essas cenas em filmes diferentes. Era só preciso rodar mais umas poucas sequências em que o protagonista e o big-bad-boss aparecessem de cara descoberta e, quando chegava a altura da porrada, apareciam vestidos de ninja – cara tapada – e lá entravam as cenas avulsas. A história é cosida com os pés, os diálogos são de um ridículo delicioso, os actores sublimemente péssimos… que diabo – TUDO nos filmes de Ho é tão mau, mas tão mau, que se torna hilariante.
De uma adolescência passada a ver grande parte da obra deste grande senhor (sem na altura me aperceber que os vários Ninja-qualquer-coisa eram na sua grande maioria de Godfrey Ho, às vezes sob um dos seus muitos pseudónimos), aquele que me marcou como um ferro-em-brasa marca um novilho foi (salvo erro, porque nunca mais voltei a vê-lo desde então) “Ninja Force of Assassins”, de 1988. Foi neste filme, se não estou enganado, que encontrei uma das mais reluzentes pérolas do cinema série Z, na forma deste diálogo que guardo até hoje como exemplo máximo do que é falar sem dizer nada, dizendo tudo. Previno que a minha transcrição não fará jus à cena. Há que vê-la para conseguir abarcar a sua magnificiência. De qualquer maneira, aqui vai, de memória:
O Ninja Branco (portanto, o Ninja das Forças do Bem, porque os Maus eram sempre os Ninjas Negros), vestido à civil, provavelmente o actor Mark Tyler naquele que foi o seu primeiro e último papel no cinema, entra no quarto de hospital, onde o seu amigo está imóvel na cama, em péssimo estado depois de ter levado uma sova, enfaixado da cabeça aos pés, só com boca e olho e meio de fora. Ao vê-lo assim, o Ninja Branco fica chocado (e, meu deus, a forma soberba como Mark Tyler faz de chocado).
Ninja Branco: Quem é que te fez isto?
Amigo (com dificuldade): Ninja…
Ninja Branco: Ninja??!
Amigo: Ninja.
Ninja Branco (levantando o punho como quem promete vingança): Niiinjaaa!
Ora, isto é brilhante em qualquer parte do mundo. E tenho a dolorosa consciência de que, por mais anos que viva, nunca estarei à altura de escrever pepitas de ouro deste calibre, provavelmenre rabiscadas pelo próprio Godfrey Ho num guardanapo de papel enquanto se sentava numa sala de montagem para elaborar mais uma das suas inolvidáveis cenas de luta e piruetas entre ninjas.
Curiosamente, não é por causa de um filme de ninjas que este post aconteceu. Tem a ver com aquela que é, ao que consta, a obra-prima de Godfrey Ho, aquele que é por muitos chamado de o Plan 9 From Outer Space dos filmes de artes marciais. Falo de “Undefeatable”, de 1994, que nunca tive a felicidade de ver, mas que, agora que o conheço, me deixa em pulgas. Passando pelo blog do Nuno Duarte, deparo-me com isto. Não sei se será a prova definitiva do génio de Godfrey Ho, mas é pelo menos uma bela amostra. Nesta sequência de luta fica bem patente outro dos inigualáveis talentos de Ho: os actores que escolhia eram sempre um acontecimento por si só. Reparem bem na superior capacidade de interpretação e no penteado de Don Niam. Assombroso, com tudo o que a palavra tem de assustador. E a colher de café na mousse de chocolate que é a frase final, pela voz da protagonista Cynthia Rothrock, a diva do mundo das artes marciais.
Infelizmente, há cerca de dez anos que Mr. Ho se retirou. Resta-nos o consolo de saber que pequenas migalhitas do seu saber andam a ser passadas às novas gerações, uma vez que hoje em dia Godfrey Ho dá aulas de cinema.


2 comentários:
Acho que nunca vi nenhum filme deste senhor que aparenta realmente ser o roger corman dos filmes de artes marciais mas...brutalíssima esta sequência de luta.
Gosto especialmente da parte final em que a Cynthia dispara a dolorosamente irónica tirada:"We'll keep an eye out for ya, Stingray!"
Enquanto que o herói(que me faz lembrar os lutadores carne para canhão dos tempos do wrestling aos Sábados antes do almoço na RTP)apenas consegue um mísero:"Yeah, c ya!"
Fiquei com muita vontade de conhecer toda a obra deste realizador! E também de cortar o cabelo como o senhor do filme!
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