sexta-feira, janeiro 05, 2007

O "X" marca a vergonha

Len Wein, co-criador de uma das personagens mais presentes no imaginário pop das últimas décadas, Wolverine, descreveu ontem no seu blog a surpresa que sentiu ao perceber que, após duas séries de animação e três filmes, finalmente recebeu algum reconhecimento pelas suas criações. Tudo porque no DVD do último capítulo da trilogia X-Men lhe é creditada, junto com Herb Trimpe, a criação de Wolverine, e, com Dave Cockrum, as personagens Storm e Colossus. Dinheiro, ainda não o viu, nem vai ver, mercê da política da Marvel de que todos os direitos dos personagens criados na "casa", ficam na "casa".
Herb Trimpe escreveu em 2000 este perturbante diário da sua vida depois de, aos 56 anos, 29 passados na Marvel, ter sido despedido. Não sem antes ter assinado um documento em que se comprometia a não dizer mal da editora nem de Stan Lee, e a não recorrer a nenhum estratagema legal para tentar alterar a situação. De outra maneira, não receberia qualquer tipo de indemnização (leiam a entrada do dia 17 de Maio; aliás, leiam tudo).
Dave Cockrum morreu no passado dia 26 de Novembro, vítima de prolongados e complicados problemas de saúde e dinheiro, com a Marvel a apregoar-se Madre Teresa de Calcutá e a pagar-lhe os cuidados médicos; em troca, Dave Cockrum teve de assinar um contrato em que abdicava de todos os direitos de todas as personagens que criou e desenhou (a capa de Giant-Size X-Men que ilustra este post é dele).
Wein, Trimpe e Cockrum: tudo homens que marcaram de forma indelével a minha infância, adolescência e vida adulta, e de muitos milhões mais, pelas personagens e histórias fantásticas que criaram, escreveram e desenharam, pelos filmes e séries que inspiraram (Len Wein continua a escrever bastantes). A política de verdadeiros titãs da indústria de entretenimento, como a Marvel, que insiste não só em não ceder qualquer tipo de pagamento percentual quando as personagens são utilizadas - sempre dentro da "casa" - por alguém que não os criadores, como também raramente lhes dá qualquer tipo de crédito, situação que atinge o cúmulo do caricato no caso aqui referido, em que um co-criador se sente "walking on air" por finalmente ser mencionado. Lógico e justo seria que o fossem sempre. A Marvel dá o exemplo perfeito de como não se deve, não se pode, tratar autores.

5 comentários:

jvl disse...

Realmente é incrível que a política da Marvel seja esta - algo que já era do meu conhecimento por acaso. Como é admissível, do ponto de vista ético pelo menos, que não seja dado mérito e/ou reconhecimento a quem de facto criou estas personagens.
Wolverine é neste momento uma das personagens mais populares da Marvel só perdendo para o Spider, se não estou em erro, e não consigo imaginar, na devida proporção, como se sentia/sente Len Wein vendo o sucesso da sua personagem e ao mesmo tempo sendo ignorado pela Marvel.

"Dave Cockrum morreu no passado dia 26 de Novembro, vítima de prolongados e complicados problemas de saúde e dinheiro, com a Marvel a apregoar-se Madre Teresa de Calcutá e a pagar-lhe os cuidados médicos;"

Não sabia. Hipocrisia tremenda.

horned_dog disse...

É o dinheirinho, amigos, é o dinheirinho...

A arte pela arte é um ideal perdido há muuuuuuito tempo. Agora o que interessa é amealhar.

E nisso a Marvel é perita.

Dr. Gonzo disse...

Basta ver a quantidade de adaptações de BD ao cinema para nos apercebermos que isto tornou-se um grande negócio para a Marvel. Só é pena que os milhões de receitas de bilheteira convertam também para os criadores das personagens e SE convertam em sinónimo de qualidade das adaptações. Vejamos o caso de Daredevil, um dos meus personagens favoritos, muitíssimo mal adaptado. É que o Ben Affleck como Matt Murdock ainda se justifica e não tenho dúvidas quanto aos seus dotes como actor, agora o Michael Clarke Duncan como Kingpin é uma piada de mau gosto. Hollywood aposta em realizadores altamente incompetentes como Mark Steven Johnson (acreditem estou com medo de GhostRider) para que os produtores possam conduzir os filmes e eles sejam mais uma amálgama de efeitos especiais do que verdadeiramente um objecto artístico. Blockbuster nunca significou falta de qualidade, vejamos Spider-Man e Batman Begins.

jvl disse...

Ben Affleck...eu pessoalmente não gosto mas concordo no que toca à escolha do actor para encarnar o Kingpin, não por ser mau actor mas porque simplesmente a personagem do Kingpin é branca.

Algo que deveria ser respeitado nestas adaptações é a origem das personagens. Pequenas alterações ainda compreendo agora desvirtuar totalmente já não se aceita.

Fragoso disse...

Por essas e por outras é que o Mcfarlane bazou da Marvel... mas o que se espera de empresas cujo o objectivo é fazer dinheiro? eu há mto tempo que deixei de ler comics dos x-men, pq parece-me que as coisas estagnaram, ... sei lá ou se calhar fui eu que mudei com a idade :P