Isto ainda não é o post sobre o visionamento de SUPERMAN RETURNS (mas já tem um cheirinho ou outro)
Há quem se irrite muito com o lado escuteiro do personagem. Penso que hoje em dia, quando os heróis favoritos do público são os que apresentam falhas bem humanas, o facto de o Super-Homem ser um tipo tão correcto ao mesmo tempo que é o ser mais poderoso de todo o mundo constitui só por si uma falha que, a ser bem explorada - como me pareceu ser em SUPERMAN RETURNS - pode ser a chave para conquistar um público novo. É uma lógica retorcida, mas é a dos tempos em que vivemos.
A importância do surgimento do Super-Homem, o paralelo evidente que a sua origem tem com a fuga dos judeus para os EUA em vésperas e durante a Segunda Grande Mundial, a aproximação à iconografia cristã que o personagem foi fazendo durante mais de meio século, já foram ilustradas de forma brilhante em obras como The Amazing Adventures of Kavalier and Klay (livro que, já agora, deixem-me dizer-vos que está a ser adaptado para cinema), e It’s a Bird. E a grande controvérsia ao redor deste filme, antes mesmo de ter estreado, gira exactamente à volta de dois factores.
O primeiro: este filme é supostamente um statement gay, crença disparatada que espíritos mais tacanhos desenvolveram ao ler o número de The Advocate que analisava o potencial de SUPERMAN RETURNS para o público gay, transformando uma análise de marketing – com alguma purpurina, é certo – numa resposta à posição oficial de Mr. Bush-filho aos casamentos homossexuais nos EUA. Mais ainda quando se junta ao artigo do The Advocate o facto de Bryan Singer ser assumidamente gay, os rumores à volta da homossexualidade de Brandon Routh e Kevin Spacey (de Spacey garantem-me que, mais que um rumor, é uma certeza). Este tipo de interpretação é válido para os dois lados, e Singer já teve no passado a experiência de ver uma conotação homossexual atribuída aos seus filmes: X-Men, série da qual foi realizador dos dois primeiros filmes, tornou-se uma espécie de Priscilla, Queen of The Desert dos anos zero – consta que a marginalização de que os mutantes são alvo funciona como metáfora para a descriminação que os gays supostamente sofrem. Olha, pronto.
Mas saltemos a parte das alegadas insinuações homossexuais de SUPERMAN RETURNS– que não as há, antes pelo contrário; não vos posso dizer porquê, pois isso obrigar-me ia a revelar um dado importantíssimo do filme e ia estragar-vos o gozo da surpresa – e passemos de raspão pelo outro factor de controvérsia: as referências religiosas.
Qualquer um percebe as semelhanças entre o Filho de Deus que é enviado à Terra e caminha sobre as águas e o filho de Jor-El que chega à Terra e é capaz de pular por cima de um prédio com um único salto. Bryan Singer tinha de aproveitar esse potencial. A cena em que Martha Kent segura o filho caído nos braços (falo desta imagem sem alerta de spoiler porque já foi amplamente divulgada; eu próprio cheguei a postá-la aqui no Salvo Erro) traz imediatamente à lembrança a Pietà de Miguel Ângelo (não, não é o dos Delfins, filisteus!), e existem ao longo do filme alguns outros paralelismos com Jesus Cristo. São subtis, muito bem conseguidos, e bem fez Bryan Singer em aproveitar o potencial que o Super-Homem tem nessa área. Kal-El e JC - Messias, Salvadores, sacificando-se por todos nós. Nunca, em nenhum outro filme, este paralelismo foi tão evidente.
O terceiro factor de controvérsia só surgiu agora que o filme já estreou nos EUA. É que toda aquela colagem do Super-Homem ao American Way, coisa que irritava muitas pessoas (e nisso eu estava com elas), foi posta de lado. O Super surge como o extraterrestre que sempre foi. E, ao não ter nenhuma nacionalidade, tem todas ao mesmo tempo. Comercialmente, é preciso agradar ao resto do mundo, quando o resto do mundo é, por exemplo, o Dubai (leiam isto, mas cuidado com alguns SPOILERS nos últimos quatro parágrafos).
Ontem, quando fui ver SUPERMAN RETURNS, levava comigo a tal ideia pré-concebida. Ia com vontade de gostar. Isto é de um perigo absoluto. Baixar as expectativas pode resultar numa agradável surpresa. Subi-las, é aumentar as hipóteses de desilusão.
No final, saí da sala com uma idade antiga de tão jovem que era, tinha para aí uns 10 ou 12 anos. Queria vestir roupa interior por cima das calças e alçar voo por aí fora. Agora estou sem tempo, mas no próximo post vou falar-vos mais do filme, sem revelar nada de específico para não estragar o gozo que vão sentir, de certeza, quando assistirem a SUPERMAN RETURNS.
Como já devem ter percebido, adorei. E não é só coisa emocional. Quanto mais penso, mais gosto.













































