
Na sexta-feira, 28 de Janeiro, durante a exibição do terceiro episódio do Bocage, eu e o Mário Botequilha vimos que algumas cenas – entre elas uma, a nosso ver, imprescindível para o lançamento da intriga da falsa santa – haviam sido cortadas. Tivemos por isso de nos embriagar fortemente.
Para esta intriga, baseámo-nos numa história que, segundo “O Perfil Perdido” de Adelto Gonçalves, corria nos tempos de Bocage como exemplo das trapaças de que os padres eram capazes. Agostinho Macedo utilizaria o mesmo estratagema para arranjar dinheiro com que pudesse pagar a Bocage o que devia, e, ao mesmo tempo, ganhar os favores da Igreja e ser readmitido na Ordem dos Gracianos. Antes do aparecimento, pela primeira vez no episódio, de Ana de Jesus Maria, a jovem que, acabada de chegar dos Açores, é usada pelo padre-lagosta na encenação de um milagre, existia uma cena no nosso guião em que Agostinho falava a Bocage dos seus planos. Era passada no quarto de Pichelim (o negro do Botequim das Parras, no quarto de quem Bocage pernoitava):
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CENA 8: INT/DIA – QUARTO DE PICHELIM
Bocage escreve. O chão está cheio de folhas rasgadas. Continua com a mesma energia mas desta vez o entusiasmo deu lugar ao desespero. Bocage não gosta de nada do que escreve e impacienta-se. De repente, num assomo, pega nas folhas, abre a janela…BocageÁgua vai!
… e atira as folhas. Apanha todas as que caíram ao chão e atira-as também para a rua, até não sobrar um único pedaço de papel no quarto.Transeunte(em off, da rua; irritado)Mas o que é isto?
Bocage(debruçando-se à janela)É bom para limpar o cu!
Fecha a janela, furioso. Senta-se no chão a um canto.Bocage(como se rezasse)Musas, minhas musas… Porque me abandonaram? Que fiz eu para que me negassem a fúria?...
Batem à porta. Bocage vai abrir, quase a medo, depois desta ladainha. É Agostinho Macedo.Bocage(sem o deixar entrar)Trazes o meu dinheiro?
AgostinhoGastei-o.
BocageE di-lo assim, minha besta?! Pertencia-me!
AgostinhoMas estava no meu bolso!
Bocage vai para lhe fechar a porta mas Agostinho faz valer a sua envergadura e força a entrada.AgostinhoFui expulso do clero! Acreditas?
Bocage(sarcástico)Ohhh… É quase um cisma… Esta noite o Papa não prega olho... O que será do catolicismo sem o beberrão, corsário, ateu e sifilítico Agostinho Macedo, mais conhecido nas casas de putas como Padre Lagosta!? Depois daquilo tudo, que esperavas?
AgostinhoMas aquilo o quê?! Estás a mangar comigo? Mas aquilo o quê?!
Bocage encolhe os ombros e nem lhe responde para desespero de Agostinho. Bocage aponta-lhe a porta.BocageSe não trazes o meu dinheiro, meia volta.
Agostinho(acalmando-se)A única maneira de o reaveres é se eu recuperar os meus privilégios. E, da maneira como eu vejo isto, só vou lá com um milagre.
BocageOu dois!
AgostinhoO milagre da beata de Évora!
Bocage abana a cabeça, desconsolado.BocagePois claro… Só precisas de encontrar uma santinha e estás aviado. Ensandeceste de vez!
Bocage sai, deixando Agostinho sozinho.------------------------
Sem esta cena, sentimos que o aparecimento de Ana de Jesus Maria no episódio foi súbito demais. A nossa intenção era que a ideia fosse passada de forma mais gradual, começando pela cena acima transcrita; depois aquela em que o intendente Pina Manique fala com o Duque de Lafões sobre a vinda de 100 famílias dos Açores para Lisboa, às quais a Coroa iria dar terras em Setúbal, Évora, Beja e Portalegre; e, finalmente pela cena em que Agostinho apresenta Ana de Jesus Maria, recém-chegada dos Açores, a Bocage.

Outra cena cortada tem a ver com a prisão de Bocage. No guião, depois da polícia, chamada por Cecília, chegar a casa dos Bersane, o poeta é apanhado e levado para a intendência. Em consequência dessa prisão, Bocage tem um diálogo com o tenente José David em que se desvenda mais um pouco acerca da relação entre os dois, e da aparente fixação que o tenente tem por Maria Francisca, a irmã de Bocage (lembram-se, de que já no segundo episódio, José David reconhece Bocage e imediatamente se lembra e refere o nome da irmã do poeta?).
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CENA 12: INT/DIA - GABINETE DE PINA MANIQUE
Bocage é levado pelos dois polícias que o prenderam à presença de José David. David aponta uma cadeira; os guardas sentam-no e saem. José David anda pelo gabinete como se fosse seu, o que Bocage regista, mas não diz nada. Por momentos parece que se vai sentar na cadeira do Intendente mas não ousa; fica em pé, encostado à secretária, sério.BocageEste não é o gabinete do Intendente Pina Manique?
José David(acena que sim)Dizem-me que assaltaste uma quinta nos Olivais.
BocageOra… Balelas. Visitava uma senhora minha amiga.
José DavidNão me custa acreditar nisso.
Bocage(brinca, para quebrar o gelo)Tomas conta das instalações enquanto ele janta?
José DavidNunca percebes quando deves estar calado, pois não?
Bocage sente-se atemorizado.José DavidSabes que se eu não te tivesse mandado trazer, a esta hora já estavas no Limoeiro com três ou quatro dentes partidos?
Bocage(sincero)Agradeço-te, José David. Obrigado… Tenente.
José DavidManuel Maria… Ouve o que te digo: vives paredes-meias com a perdição. Portugal, Espanha e a Inglaterra preparam uma aliança contra a Convenção Nacional Francesa e Lisboa está cheia de maçons e espiões. Se te continuares a dar com estrangeirados republicanos e jacobinos, é meio caminho andado para o degredo. Ou para o cadafalso.
Bocage(dizendo o que ele quer ouvir)José David, agradeço-te as tuas palavras avisadas. Procurarei emendar-me.
José DavidA partir de agora, tens a sorte nas tuas mãos. E nas mãos de Deus.
BocageEntão não tenho que temer. Posso ir?
José DavidPodes.
Bocage levanta-se e dirige-se à porta. José David, com nítida dificuldade em lançar o assunto, ainda lhe diz:José DavidOlha… Diz-me… Onde pára a tua irmã Maria Francisca?
BocageNão sei. Infelizmente, não a vejo há uns bons anos.
José David“Infelizmente…” Nem sequer procuraste a tua família desde que vieste da Índia. Se souberes dela, diz-me.
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Esta cena servia para introduzir elementos de um ‘plot’ de continuidade que se irá desenvolver nos próximos episódios (a questão da família de Bocage ocupa grande parte do quinto). Quem viu o quarto episódio talvez se recorde de que, no fim, depois da ascensão do balão de Lunardi, José David revela a Bocage que a sua irmã é a nova dama-de-companhia da Condessa. Como José David descobriu isso é coisa que também não chega a ser explicada, por causa de outra cena cortada, no episódio 4. Mas sobre isto falarei mais à frente.

Ainda sobre o episódio 3: se houve intriga cuja resolução não passou para o público, foi a relacionada com a falta de inspiração do poeta. A nossa ideia era que, numa altura em que Bocage precisava do seu talento mais do que alguma vez precisara (durante a ‘Guerra dos Vates’), as musas o abandonassem. A cena em que Bocage vai ao quarto de Nise, interrompendo o serviço que ela está a prestar a um cliente, queixando-se de falta de inspiração, mais a cena em que não consegue encantar a Condessa de Oyenhausen com as suas improvisações, procuravam criar tensão à volta de um problema que, até ao fim do episódio, teria de ser resolvido. A resolução passava pelo negro Pichelim, e a ideia surgiu a partir destes versos, que Bocage recita na cena 14 deste episódio:
Na Tasca da Ribeira Nova, botequim incultoMora o preto castiço, de quem falo;Cujo nervo é de tal sorte, e tal vulto,Que excede o longo espeto de um cavalo:Sem querer nos calções estar oculto,Quando se entesa o túmido badalo,Ora arranca os botões com fúria rija,Ora arromba as paredes quando mija.
Na primeira versão do argumento, Bocage, por esta altura da sua vida, morava nas traseiras do botica do Azevedo, propriedade de Frei Francisco de Aguiar. Por uma questão de economia de cenários, o Fernando Vendrell propôs que, em vez disso, o poeta estivesse a dividir o quarto com Pichelim, o negro do botequim das Parras. Durante o desenvolvimento do guião, andávamos à procura da solução para o bloqueio de Bocage. A musa não poderia ser a Condessa, não poderia ser Nise, então quem?
Uma noite telefona-me o Mário Botequilha. A fixação de Bocage pelo nervo de tal sorte, e tal vulto, do preto castiço podia ser a solução. O perfil boémio e libertino podia deixar supôr que Bocage já tinha, digamos, experimentado de tudo, e é preciso não esquecer que estávamos em 1793 – naquela altura, o mundo inteiro tinha o seu quê de Chiado e Príncipe Real (esta comparação pode não ser muito bem recebida pela maior parte dos historiadores, mas a verdade é que muitos já disseram, à sua maneira, exactamente o mesmo). Ora, a partir do momento em que Bocage dividia o quarto com Pichelim, tudo podia acontecer. O que o Mário dizia era que o preto castiço fosse, de forma subtil, sugerido na série como a solução para a falta de inspiração do poeta. O Pichelim seria a musa de Bocage.
Polémica ou não, a intriga já tinha um desfecho. Durante o episódio, sempre que Pichelim e o Bocage se cruzassem, a narrativa deveria preparar ou mesmo sugerir esse desfecho. Lembrem-se por exemplo desta cena, que não foi cortada (e da qual transcrevo apenas o que interessa para o ponto que pretendo ilustrar):
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CENA 14: INT/NOITE – TASCA DA RIBEIRA NOVA
Bocage entra, vindo da rua, ainda a abanar a cabeça com o plano de Macedo. Vai direito ao balcão e agarra numa garrafa ali esquecida. Pichelim, rápido, não o deixa levá-la.BocageLá estás tu armado em sentinela. Larga, Pichelim!
PichelimTrazes dinheiro?
BocageUm amigo de tantos anos desta casa não merece fiado?
Toineta vem ver o que se passa.PichelimEntende-te com a patroa.
BocageA mão do teu Pichelim parece uma tenaz!
ToinetaE o mangalho é como um aríete.
BocagePronto… Já faltava a velha história de que os pretos têm todos um marsapo cavalar.
ToinetaOs pretos todos não sei, mas o do Pichelim faz inveja a muito burro. Tem muitas “clientas”. E clientes...
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Na cena em que Bocage e Pichelim jogam pelo direito de dormir na cama, era suposto que ambos acabassem deitados de costas um para o outro, mas de olhos abertos. Um momento de desconforto, ou de antecipação, apenas sugerida. No primeiro ‘draft’ do guião havia uma cena em que Bocage e Pichelim se encontravam, na manhã seguinte, e em que uma troca de olhares insinuava que algo se havia passado durante a noite. Tudo muito subtil, para que nunca se chegasse realmente a perceber se alguma coisa tinha, de facto, acontecido. Mas pensámos que aquele momento de desconforto, com Bocage e Pichelim na mesma cama, fossem suficientes, e acabámos por retirar a cena da manhã seguinte. Aconteceu que, no episódio, esse momento foi substituído pelo ‘gag’ de Bocage a levar a mão ao rabo, como que para se proteger de um eventual avanço de Pichelim. O resultado foi que nem a sugestão ficou explícita, e a maneira como Bocage acabou por recuperar a sua inspiração acabou por ficar ainda menos evidente do que pretendíamos. Isto poupou algumas pessoas de verem feridas as suas susceptibilidades. O que é pena.

Em relação ao episódio 4, exibido na semana passada, houve um pormenor que foi cortado, e que acabou, a nosso ver, por tirar tensão à história. Quem viu talvez recorde que Bocage, ao mesmo tempo que acede ao pedido de António Bersane de convencer a filha a deixar-se de namoricos com Baltasar Teófilo, concorda também em ajudar o mesmo Baltasar a conquistar as graças de António, uma vez que o rapaz quer casar com a filha deste, Maria Vicência Bersane. Motivo deste jogo duplo: Baltasar tem em seu poder os manuscritos que Bocage ia vender ao livreiro Diogo Borel; sem aquelas epístolas, Bocage não tem dinheiro, e Baltasar só os devolverá a Bocage se este concordar em ajudá-lo. Talvez se lembrem também deste diálogo:
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CENA 3: EXT/DIA – LIVRARIA DA VIÚVA BERTRAND
O livreiro Diogo Borel está a começar a fechar a livraria. Conversa com Bocage, que está cheio de dores na mão onde o polícia lhe bateu.BocageSerá que o apanharam?
Diogo BorelPara teu próprio bem, Bocage, espero que não. As tuas rimas rendem mais aqui à venda do que em cima da secretária do Intendente.
BocageA propósito, amigo Diogo, queria saber se há hipótese de me pagar já parte do que acordámos.
Diogo BorelEncontra-me as epístolas e encontrarás dinheiro meu na palma da tua mão.
Bocage(declama)Teu espírito insano, ah que procura
Pela estrada do Olimpo Alcantilado?
Não temes, despenhando-te dos ares
Qual Ícaro infeliz dar nome aos mares
(aponta para a cabeça)Vê? Enfim, não estou muito contente com o final… Mas tenho as rimas na cabeça, é só passá-las outra vez para o papel.
Diogo Borel(dá algumas moedas a Bocage)Então vai a correr passá-las antes que um copo de genebra a mais t’as apague da memória.
Bocage(mostra a mão inchada)Dê-me pelo menos dois dias, que eu de mão esquerda não me sei fazer à pena.
Bocage afasta-se. Borel ainda lhe grita umas últimas palavras de aviso:Diogo BorelBom, mas cuidado com a genebra, hã? Olha a memória! Só um copito ou dois!
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Ora, se Bocage sabe de cor os poemas, e tem tanta urgência em vendê-los a Borel para que este lhe pague, é lícito argumentar que o poeta podia perfeitamente sentar-se e voltar a escrevê-los. No guião, tal como o escrevemos, isso era explicado porque, no início do episódio, em consequência do encontro com Baltasar Teófilo, um polícia confunde Bocage com um cúmplice de Baltasar e bate-lhe com o bastão, deixando o poeta com a mão aleijada. Esta era a cena inicial tal como a tínhamos escrito:
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CENA 1: EXT/DIA – RUA / JUNTO À TASCA DA RIBEIRA NOVA
Dia 1.Legenda: “Lisboa, 1794.”Bocage caminha com uma capa cheia de epístolas debaixo do braço. Está feito um maltrapilho – basta um olhar para se perceber que atravessa dificuldades económicas.Vê Nise a sair da tasca da Ribeira Nova; vai para chamá-la, mas cala-se quando repara que a moça vai acompanhada de um “mosca” do Intendente. Nise não parece contrariada em segui-lo e, por isso, Bocage não intervém; antes assume um ar desconfiado e mal-humorado. Nise nunca o vê.No sentido oposto ao de Bocage vem um jovem loiro, bem parecido e altivo (que se saberá mais tarde chamar-se Baltasar Teófilo). Traz vários livros de capa encarnada debaixo do braço. Tem uma expressão de insegurança e nervosismo no rosto. Bocage, de olhos postos em Nise, esbarra com o rapaz; ambos deixam cair o que traziam nas mãos.Baltasar baixa-se imediatamente para apanhar do chão os seus livros e as epístolas de Bocage. Está com um ar ainda mais nervoso e olha para um lado e para o outro.BocageOlha onde pões os pés, bispote!
Baltasar(indignado)Ai ainda por cima!? É preciso descaramen...
Baltasar interrompe a frase quando vê, pelo canto do olho, dois Polícias que se aproximam. Assim que vêem Baltasar, os Polícias reconhecem-no e começam a correr atrás dele. Baltasar foge com os dois Polícias no seu encalço. Quando passam por Bocage, um dos polícias levanta o bastão para lhe dar com ele.PolíciaSai da frente!
Bocage desvia-se, mas não o suficiente, e ainda leva com o bastão na mão direita. Os Polícias correm rua acima, atrás de Baltasar.Bocage agarra a mão dorida. É então que olha para os livros que tem nas mãos e repara que não são as suas epístolas, mas um dos livros que Baltasar trazia.Ainda olha para a rua por onde Baltasar fugiu, mas já nem tenta correr atrás. Atenta no livro que tem nas mãos: a capa é encarnada, mas sem nenhum nome ou título. Bocage abre-o e vê, na primeira página: “O Espírito das Leis” de Montesquieu.------------------------
Para além de acrescentar urgência à necessidade que Bocage, mais tarde no episódio, tem de fazer (ou fingir que ajuda) Baltasar a conquistar as graças daquele que pretende para seu sogro, este pormenor da mão ferida permitia momentos como aquele em que a pequena Ana Perpétua tinha de cortar o bifinho ao poeta. Corte que acabou cortado.
A tentativa de prisão (no fundo apenas uma manobra de intimidação) do embaixador francês, Derbault, referenciada no episódio tal como foi exibido, acabou também por ser cortada:
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CENA 25: EXT/MANHÃ – RUA
À distância, o intendente observa José David aproximar¬ se, seguido por uma guarnição, do embaixador Derbault. Derbault está, junto com a sua comitiva, ao lado da carruagem da Condessa de Oyenhausen. Junto a Derbault estão também a Condessa e Maria Francisca.Intendente(observa; fala de si para si, mas como se falasse com José David)Quero que o trate com respeito, mas seja firme.
José David(vénia)Senhora condessa, muito bom dia. Senhor embaixador, à luz do tratado de auxílio mútuo das Coroas Portuguesa, Espanhola e Inglesa, venho pedir que me mostre as suas credenciais.
Calmamente, o embaixador faz sinal a um dos seus acompanhantes, que entrega as credenciais a José David. José David cruza o seu olhar com o de Maria Francisca: reconhecem-se, Maria Francisca baixa o rosto.Intendente(observa à distância, fala de si para si)Veja atentamente as credenciais. Não acredito que haja alguma irregularidade. Peça desculpa pelo incómodo, e retire¬ se.
José David(devolve as credenciais ao embaixador)Peço desculpa pelo incómodo. Tenham um bom dia.
(faz uma pequena vénia à Condessa)Senhor embaixador... senhora condessa.
José David vira costas e vai para se retirar, quando a Condessa o chama.CondessaNosso tenente. Voltei de Almeirim e encontrei Lisboa ocupada por loucos e libertinos, não me sinto segura. Esse é o seu dever, certo? Manter a ordem e a seguarança.
José DavidTerei todo o gosto em providenciar-lhe uma escolta até ao palácio, senhora condessa.
CondessaÉ muita gentileza da sua parte.
Enquanto se dirige para a sua carruagem, o rosto de José David fica carrancudo: está nitidamente irritado com aquela situação, mas mantém a compostura. Intendente(observa à distância, fala de si para si)Acima de tudo, nunca se esqueça, José David: a paciência é uma virtude.
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Esta cena, para além de marcar bem a influência de Pina Manique sobre José David e a sua determinação em ‘educá-lo’, era também o reencontro de José David com Maria Francisca. Era por causa desta cena que, no fim do episódio, o jovem capitão sabia que a irmã de Bocage
era a nova dama-de-companhia da Condessa de Oyenhausen.

Outra coisa que saltou fora do episódio 4 foi o gato. Se bem se lembram, há uma cena em que Baltasar Teófilo conta que o capitão italiano, Lunardi, numa ascensão anterior, à falta de lastro tinha sacrificado um gato para que o balão subisse. No nosso guião, no estaleiro onde Lunardi construía o seu balão havia também um gato, com quem Agostinho, o padre-lagosta, mantinha uma relação difícil. Ele não gostava do gato, e o gato não gostava dele. Na cena final, em que o balão de Lunardi começava a perder altitude, Lunardi atirava o gato borda fora, como, reza a História, tinha feito em Inglaterra. Só que na nossa cena, o gato caía em cheio na cabeça de Agostinho. Para evitar problemas com a Sociedade Protectora dos Animais, o gato foi substituído por um vulgar saco de lastro, mesmo depois de eu ter oferecido o meu gato para ser atirado, fosse de que altura fosse, de preferência de cabeça.
Esta semana é exibido o quinto episódio, onde o tom da série começa a enegrecer. É a primeira aparição do cadete André da Ponte, interpretado pelo Dinarte Branco. Este personagem e Bocage têm cenas muito fortes entre eles, por isso a coisa promete. Ainda não vimos os episódios que se seguem, pelo que estamos bastante curiosos. É amanhã, sexta-feira, salvo erro às 23h00.
(as imagens deste post são, todas elas, referentes ao episódio 1)